terça-feira, 21 de dezembro de 2010

JORNAL HIT POP, DE MARÇO DE 1973 PARA BAIXAR!

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Mai uma edição do Jornal HIT POP, esta de março de 1973:





























Principais matérias:

- Jackson Five;
- Billy Paul em São Paulo;
- Alice Cooper chega em abril;
- Cat Stevens

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Secos & Molhados no Maracãnazinho;
- Mick Taylor no Rio de Janeiro;
- Maria Alcina: 2º LP;
- e muito mais!


LINK para baixar:

http://uploaddearquivos.com.br/download/Jornal-HIT-POP.-Maro-1974.pdf

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domingo, 28 de novembro de 2010

AS FANTÁSTICAS "FILMAGENS" DO CÉU ESTRELADO NA TÉCNICA DE VÍDEOS TIME-LAPSE

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Vídeos em TIME-LAPSE

Time-lapse é uma técnica na qual se fotografa uma mesma cena em determinados intervalos, criando uma ilusão no tempo. Depois as fotos são montadas sequencialmente quadro a quadro para dar a ilusão de um filme.

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Céu estrelado do lado Sul, em vídeo time-lapse feito num local próximo à Coonabarabr, Austrália, em março de 2008. A "mancha" negra ao centro da Via Láctea, é o chamado "Saco de Carvão", situado junto ao Cruzeiro-do-Sul.
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Criar vídeos em TIME-LAPSE
A técnica é simples, mas requer-se paciência. Para registrar as imagens você pode usar uma webcam com tripé e o programa Yet Another WebCAM Software, uma opção gratuita para gravar as fotos automaticamente. Pode-se usar também uma câmera digital ou programa para celular que faça registros sequênciais, que permitem fazer registros com maior qualidade artística.

O intervalo entre as fotos depende do tamanho do filme que você quer fazer. Pode-se fazer um vídeo, p. ex., com fotos em intervalos de 10 minutos entre cada quadro. Para registrar eventos mais rápidos, o intervalo de 1 segundo pode ser suficiente. Depois é só juntar tudo em um filme. O softwares a ser usado pode ser o da Adobe, Premiere CS 3. Alguns sites sugerem o uso do Quicktime Pro, mas até o Windows Movie Maker faz esse serviço. É só importar as fotos no programa e aumentar a velocidade de exibição.

Há câmeras fotográficas da Cannon, que têm um hack nelas que permite criar até scripts em BASIC para tirar fotos em determinados tempos. Outras Câmeras possuem modo Burst.

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Vídeo time-lapse feito na Austrália, mostrando a rotação do céu estrelado em torno do eixo celeste Sul. Notar à esquerda uma "mancha" clara, a Grande Nuvem de Magalhães. A "mancha" negra que desce do alto do lado direito do vídeo é o já citado "Saco de Carvão", situado junto ao Cruzeiro-do-Sul.
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Vídeo time-lapse mostrando o nascimento da Via Láctea sobre Gold Coast of Queen. Notar os relâmpagos junto ao horizonte direito
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Vídeo time-lapse mostrando céu estrelado sobre Fort Davis, Texas, usando uma lente olho-de-peixe 15mm.
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Vídeo time-lapse mostrando o céu estrelado em alta rotação. Acima da casa a aurora aparece por um curto período de tempo. A filmagem está em rotação acelerada, e as luzes que passam rápidas pelos céu são aviões, satélites e meteoritos. Alguns pontos luminosos imóveis no céu são manchas na lente ou reflexo em vidraça.
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Curioso vídeo-time-lapse mostrando a Via Láctea e a estrela Alpha Centauri. As fotos foram feitas com lente olho-de-peixe. As duas "manchas" brancas abaixo da Via Láctea são a Pequena e a Grande Nuvem de Magalhães.
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Belíssimo vídeo em técnica time-lapse, mostrando uma noite de verão e Lua Nova, com o nascimento da Via Láctea, feita com o telescópio de 1.8 metros do Observatório Spacewatch.
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Montagem com três vídeos em técnica time-lapse mostrando o céu noturno sobre a Namíbia, África meridional. No segundo vídeo, vê-se a constelação de Escorpião se elevando no céu. Sobre o horizonte oeste, vê-se o clarão difuso da Luz Zodiacal (aos 10 segundos). A terceira vista mostra a rotação aparente de céu em torno do Polo Sul celeste. Não há nenhuma estrela brilhante do polo no hemisfério do sul, mas se pode ver as Nuvens de Magalhães e galáxias vizinhas escondendo atrás das árvores. A constelação que passa acima do horizonte do lado direito é a Ursa Maior.
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Vídeo time-lapse mostrando o centro da Via Láctea, em fotos feitas no observatório A.S.I.G.N. A constelação que desce sobre a cúpula do observatório é a de Escorpião.
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Belíssimos vídeos time-lapse mostrando a Via Láctea, em fotos feitas com o telescópio do observatório Paranal, Chile. No segundo vídeo, vê-ses a Pequena e a Grande Nuvem de Magalhães à esquerda da cúpula do observatório.
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Vídeos em técnica time-lapse mostrando a passagem da Via Láctea.
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Via Láctea e Luz Zodiacal sobre os vulcões Parinacota and Pomerape, Cordilheira dos Andes, Lauca National Park, na fronteira entre Bolívia e Chile.
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Vídeo na técnica time-lapse feito no observatório chileno de Paranal.
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Eclipse Total da Lua - 27 de outubro de 2004.
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quarta-feira, 17 de novembro de 2010

O HABITANTE DA “CIDADE DAS ÁRVORES” E OS CAPINZAIS QUE O INCOMODAM...

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“O que é uma erva daninha? Uma planta cujas
virtudes
ainda esperam para ser descobertas.”
 (Ralph Waldo Emerson, 1803-1882, 
crítico e poeta norte-americano)

Anos atrás, num exemplar do Tribuna no Bairro, suplemento do jornal Tribuna do Povo, estampado em sua última página vinha uma matéria que muito me incomodou, e incomodou tanto quanto um capinzal pode atazanar alguém em plena zona urbana. Ali, em letras caixa-alta e negrito, lia-se a fatal sentença: “MATO ALTO INCOMODA” – o invariável e recorrente protesto contra as “pragas” que infestam os nossos mal-amados quintais, terrenos baldios e lavouras!

O reclamante da chamada “Cidade das Árvores” protestava: “O acúmulo de mato e animais, além de anti-higiênico, atrai muitos ladrões que se escondem no terreno”.

É oportuno recordar: poucos anos depois da inauguração do Parque Ecológico em nossa cidade, um outro jornal ararense trazia a seguinte reclamação: de um conhecido colunista “Alguém pode me dizer quando aquele matagal, que atende pelo nome de Parque Ecológico, vai ser cortado. Tenho a impressão que passar por lá a pé, é risco na certa de um assalto, uma picada de aranha e uma mordida de cobra.”

Antes de mais nada, manda a conveniência que eu pergunte: desde quando capim é “anti-higiênico”? Esquece-se o cidadão que, muitas vezes, os verdadeiros responsáveis pelo aumento de ratos, aranhas, sapos, cobras, pernilongos, e outros animais são as próprias pessoas que ali depositam sacos de lixo, entulho e outros quejandos. E se estes mesmos animais “indesejáveis” também são encontrados em plena zona urbana, os responsáveis diretos por isso somos nós mesmos, e o mato nem sempre tem a ver com esse problema. Oras, é óbvio que as cobras surgem na cidade devido à proliferação de ratos; o mesmo se dá com os insetos, que quanto maior a quantidade de lixo entulhos e esgotos,a céu aberto ou não tratados, maior é o seu número. E aranhas, assim como os sapos, não surgem nestes lugares em busca das baratas? Madeiras abandonadas em terrenos baldios, p. ex., podem se tornar um verdadeiro foco de cupins, que, por sua vez, podem infestar um bairro inteiro!

Quanto aos exóticos caramujos africanos (Achantina fulica) – que comprovadamente podem causar danos à saúde como diarréia, desidratação, perfuração e infecção intestinal –, de onde você acha que eles surgiram? Nada mais nada menos de criadores que, abandonando sua criação devido à perda de interesse comercial, acharam por bem soltá-los na natureza, onde, encontrando ambiente propício, se transformaram numa verdadeira praga. Esta espécie de caramujo é um animal oportunista, que prefere o ambiente urbano às matas, já que na cidade encontra alimento mais fácil. As pessoas jogam lixo nos terrenos e em locais inadequados, que são justamente o lugar onde ele vai se refugiar e alimentar. Além disso, ele também se alimenta de fezes de cães e gatos. Esse animal, que se tornou um grande problema em muitas cidades, foi “importado” para ser utilizado como alimento na criação de aves domésticas, e, acredite, na culinária humana, substituindo o tradicional “escargot” por apresentar vantagens no tempo de crescimento individual e resistência às condições ambientais.

Voltando ao problema dos terrenos baldios e os bandidos que se ocultam no meio dos capinzais, pretende o reclamante que acreditemos que os grupos de assaltantes, semanalmente, fazem ali secretas reuniões, desmanchem carros, escondam armamentos ou façam pontos de venda de droga? Convenhamos!... Isso é reclama-se por reclamar, fato que, no fundo, não passa de ódio vegetal, dendroclastia mesmo! Será, então, que a saída será dar cabo de todos os capinzais urbanos?

Me perdoem os discriminadores das espécies vegetais menos carismáticas e sem valores atrativos, mas o problema não é o capinzal, que o capinzal em si é natureza também. Convém esclarecer que a mamona, p. ex., – popularíssima invasora dos terrenos baldios – já foi planta de jardim no século XIX! E quantas plantas ornamentais modernas já não foram mato um dia? Quantas plantas medicinais há nestes terrenos, que são relegadas à condição de plantas invasoras, daninhas, mato enfim!...

Imaginem se os nosso índios, cada vez mais aculturados, começarem a raciocinar como os urbanos – que tem visão unilateral e míope da natureza: em breve irão reclamar à FUNAI de “matos sujos” por capinar, de pragas de mosquitos, cobras, baratas, ratos e escorpiões, e eis a natureza brasileira em sério perigo! Valei-me, São João Gualberto!

Os quintais e terrenos baldios são áreas vitais, uma vez que servem como local de absorção de chuvas, e os nossos “higiênicos” quintais concretados e azulejados são um dos responsáveis pelas enchentes. Neles, as águas pluviais não têm como penetrar no solo, a não ser pelo ralo que vai levar a água até os ribeirões, que nem sempre podem conter esta mesma água que poderia ser absorvida pela terra caso os quintais e ruas fossem permeáveis. Também ignora-se que os mal-amados brejais são habitats imprescindíveis para inúmeras espécies vegetais e animais, e desempenham papéis importantes, como filtrar a poluição e servir como áreas de contenção de enchentes, e não são lugares insalubres, como se pensava desde o século XIX? – me refiro à chamada “teoria miasmática”: aquela que afirmava que as doenças provocadas por “miasmas” ou emanações malignas provenientes do solo, da água ou do ar “estagnados”.

E os responsáveis pelos mares de espuma da cidade de Pirapora (foto), não somos nós mesmos, com todas as substâncias poluidoras que, dentro de nossa própria casa, botamos ralo abaixo todo santo dia? Uma pequena lista desse descarte monstruoso que ocorre diariamente: óleo e vinagre, farinhas diversas, sal e açúcar, gordura e banha, temperos , restos de inúmeras bebidas; creme dental e de barbear, anti-séptico bucal, gel capilar, sabonete, xampu, filtro solar e outros cosméticos; detergente, sapólio, fragmentos de esponja de aço, amaciante, cera, água sanitária, desinfetante, alvejante, odorizante; resíduos industriais como graxa, solvente, gasolina, álcool, querosene, etc. O irônico é notar que boa parte destas substâncias são usadas devido à nossa insensata vaidade...

De quantas coisas como estas, em prol de nós mesmos, poderíamos abrir mão sem deixar de viver melhor, e, assim, praticaríamos o mais nobre do deveres que é manter a natureza limpa e “higiênica”. No caso de Pirapora, a grande ironia é que a espuma que torna nossa casa, roupas e objetos mais limpos é a mesma que depois causa aquela verdadeira desgraça flutuante no rio!...

E olha que sequer mencionamos a “poluição da moda”!... Na verdade, ela existe há muito tempo, mas só há poucos anos foi estudada sistematicamente. Me refiro à chamada poluição hormonal. Esta, é um tipo de contaminação da água que se dá através da urina., uma vez que anticoncepcionais e medicamentos de reposição hormonal são eliminados nas águas através da micção. (clique na imagem para ver a pesquisa) Os problemas no meio ambiente decorrente desses resíduos são muitos e preocupantes. Esse fenômeno é causado tanto por hormônios naturalmente excretados pelas mulheres, quanto por pílulas anticoncepcionais, e também pelos chamados xenostrógenos, que são hormônios presentes em compostos industriais que têm efeitos semelhantes ao estrógeno, causando por exemplos, a femeninilização de peixes machos (Ecotoxicology an Enviromental Safety, 9 agosto 2011). O fenômeno vem acontecendo com o lambari-do-rabo-vermelho (Astyanax fasciatus) na hidréletríca de Furnas, em Minas Gerais. Segundo a bióloga Mércia Barcellos da Costa, da Universidade Federal do Espírito Santo, “Todas elas têm ação estrogênica e mesmo quando não são hormônios reais, agem no corpo de forma parecida”. Ainda segundo a pesquisadora, um desses compostos, o tributilestanho (TBT), provoca mudança de sexo de algumas espécies de animais. Em humanos, suspeita-se que o contato com a água com excesso de hormônios esteja antecipando a menstruação das meninas e a diminuição de espermatozóides nos homens, além de câncer. Pesquisadores constataram que resíduos de colesterol, hormônios sexuais, produtos industriais e uma infinidade de substâncias microscópicas não são eliminados nos sistemas de tratamento das cidades brasileiras, porém, até o momento, isto não significa que a água seja imprópria para o consumo. Segundo todos os padrões internacionais de potabilidade, a água que chega às torneiras dos brasileiros é limpa e está pronta para beber. O problema é que, até hoje, a Organização Mundial de Saúde (OMS) não avaliou os riscos para a saúde desses resíduos. Quer entrar fundo neste assunto (e se assustar), lei a este artigo: http://www.terra.com.br/revistaplaneta/edicoes/437/artigo126067-1.htm

Quanto ao reclamante do Parque Ecológico, eu pergunto: será que o s matos, as cobras e aranhas não podem viver em paz nem mesmo num parque ecológico?! Ao menos se ele reconhecesse que o nosso Parque Ecológico de ecológico pouco ou nada tem... Festa do peão em parque ecológicos!, lagos artificiais, vegetação exótica! Só em Araras mesmo...

É óbvio que nenhum dos que reclamam dos capinzais, notam que eles também se prestam como áreas sinantrópicas, ou seja, lugares de atração e fixação da fauna nas zonas urbanas. Quanto aos animais indesejáveis já citados anteriormente, eles vêm para cidade com ou sem a existência de matagais e terrenos baldios, e que o diga o pernilongo da Dengue. Na última casa onde morei, havia um quintal ao lado , com muito mato, e que não era nenhum esconderijo de ladrões, mas sim um verdadeiro refúgio de pássaros, como rolinhas, avoantes, asas-brancas, pardais, anus, tizius, bicos-de-lacre (foto), sabiás, coleirinhos, bigodinhos, tico-ticos, bem-te-vis, sanhaços, etc.

Além disso, hoje se sabe, p. ex., que o popular mato (Croton glandulosus, foto), esse que cresce espontaneamente em terrenos baldios, não é mais considerado erva daninha – mesmo em plantações, onde é combatido com roçadeiras, enxadas e herbicidas, ele têm a função de atrair insetos que predam pragas das lavouras. Eis enfim a profecia de Ralph Waldo Emerson se concretizando, centenas de anos depois!

Peter Tompkinns e Christopher Bird, em seu livro A Vida Secreta das Plantas, lançado em 1974, trazem o seguinte texto, versando sobre a importância das chamadas “ervas Daninhas”:

“A opinião de Soloukin sobre a simbiose das plantas valida a de um professor de botânica e conservacionista americano,o Dr. Joseph Cocannouer, que, enquanto Sir Albert Howard trabalhava na Índia, dirigiu o Departamento de Solos e Horticultura da Universidade das Filipinas por uma década e estabeleceu na província de Cavite uma grande estação experimental. Em seu livro O mato , um guardião do solo, publicado há quase 25 anos, Cocannouer sustenta a tese de que, longe de serem nocivas, as plantas normalmente assim consideradas e rotular das de ‘daninhas’, como a tasna ou tasneira, o quenopódio ou anserina, a beldroega e a urtiga, bombeiam minerais do subsolo, especialmente os que se tornaram escassos na camada superior, e são excelentes indicadores das condições da terra. Como vegetação associada, elas ajudam as plantas domésticas a aprofundar suas raízes até fontes nutrientes que, de outro modo, ficaram fora do seu alcance.”

O verdadeiro problema desta mentalidade retrógrada é que fomos, aos poucos, nos distanciando das raízes de nosso passado rural, aceitando inconscientemente o grau de demência que a sociedade “civilizada” nos impôs, desruralizando as cidades e ficando cada vez mais apartados e alienados da natureza. É simples constatar que estamos tomando o mesmo rumo que o Rio de Janeiro, onde, como disse o Millôr, a área verde do habitante é um vaso de samambaia... Ironias à parte, me vem à mente uma pergunta que não quer calar: por que a maioria dos homens, que bem poderia preservar seus quintais de terra e árvores, não se preocupam com isto e não pensam duas vezes em abrir mão da parte que lhes cabe? Até quando teremos de conviver com a febre do chamado “quintal lajotado”, do quintal com edículas entulhadas de coisas inúteis, do quintal com piscina e churrasqueira que, passada a febre da inauguração, caem no esquecimento?

E – tenham certeza –, é também por se raciocinar assim – como no século XIX, reconheça-se –, que se pôs abaixo o bosque onde se deu a Festa das Árvores em 1902, extinto em 1947, e o Horto Florestal da Fepasa, desapropriado e colocado baixo em 23 de julho de 1981. A propósito, é só dar um pulinho até a vizinha cidade de Rio Claro – que não é nenhuma “Cidade das Árvores” –, e notar, já da rodovia Wilson Finardi, que seu horto está ali, integro e salvaguardado para as gerações futuras, enquanto nós, na hipócrita “Terra dos Canaviais”...

Enfim, espero estar vivo um dia para ver surgir uma nova lei que venha a proteger os capinzais pelos mesmos motivos que expus acima: lugares de atração e fixação da fauna, de absorção de águas das chuvas, e até de lazer, mas, ah!, eu já prevejo o meu irritado leitor querendo me perguntar: – Mas, Wenilton, você é radical demais, rapaz! Não se pode aceitar um quintal ou praça com mato como um lugar desfrutável! E eu lhe responderei: – Não sou tão radical assim, meu caro – apenas um marxista, tendência Burle...
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sábado, 13 de novembro de 2010

HISTÓRIAS CÔMICAS DA REVOLUÇÃO DE 1932

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Lendo um livro do grande escritor Cornélio Pires (1884-1958), encontrei estas engraçadas histórias. Nascido em Tietê, São Paulo, Cornélio foi escritor, compositor, conferencista, jornalista, contador de causos, folclorista e poeta.

As histórias são reais e constam do livro "Chorando e rindo", de 1933, onde relata episódios e histórias da Revolução de 1932, recolhidas por ele pessoalmente ou enviadas por contribuidores das regiões envolvidas no conflito.



EM BEBEDOURO

No dia seguinte ao da chegada, um soldado goiano, procura um lugar para lavar o rosto. Entra numa privada e exclama:

- Êta paulista besta! onde se viu botar uma bacia nesta artura?

Outro companheiro que estava no compartimento próximo responde:

- Camarada, faça corno eu, puxe o cordão, que a água sai em cascata, mas lave depressa porque a bacia é furada.


CHUMBO TROCADO...

Escreve-me uma tieteense, conterrânea minha:

Entraram em um restaurante, um paulista e um gaúcho; este sentando-se junto a uma mesinha disse ao garção:

- Traga-me depressa um Paulista! - O coitado do garção sentiu-se bastante embaraçado e viu-se na necessidade de pedir explicações.

- Não sabes o que é um paulista? - disse o gancho. - Será que você é tão burro assim que ainda não conhece o paulista? "paulista é canja" traga-me esse prato. Foi servido imediatamente o gaúcho.

O paulista que entrou na mesma ocasião, ouviu tudo sem dizer palavra. Logo que o seu companheiro de restaurante foi servido, chamou pelo garção e disse-lhe:

- Traga-me depressa um gaúcho !

Coitado do garção! Viu-se novamente em palpos de aranha!

- Não sabes o que gaúcho? - diz-lhe o freguês: - Gaúcho é um espeto muito comprido em cuja ponta traz um pedaço muito insignificante de carne seca e o resto tudo é farofa ...

Desta vez quem não gostou muito, foi o gaúcho.


BOM ATIRADOR

Surgira sobre uma cidade do interior um avião, antes dos ataques a cidades abertas que tanto enodoaram a civilização brasileira.

Era um desses aviões que jogavam boletins. Quando o aparelho passava alto sobre o sitio do Juvêncio, a poucos quilômetros da cidade, o caipira passou a mão na pica-pau, saiu no terreiro e lascou fogo no "bicho"! Mas na hora em que o caipira deu o tiro, o aviador soltou uma nuvem de boletins. E o roceiro, todo orgulho, gritou para dentro

- Eh! Muié ! Matá num matei, mais ranquei pena!


SIM-SENHOR!

Dentre as tropas adversárias que estiveram em Jaú, havia sertanejos do alto sertão do Pará, vindos via-Goiás.

Um deles comprou um pacotinho de amendoim torrado e deliciou-se com a novidade.

- Experimenta, Jusé! Esses pulista faiz cada docinho gostoso! Oia só?! Gente danada de pacencia! Veja só como eles embruiam tão bem esses docinho em papé de seda vermeio !!! E pôs-se a tirar a pelezinha do amendoim...

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segunda-feira, 25 de outubro de 2010

CANÇÃO DIONÍSICA

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Esta poesia não é nova - tem mais de 20 anos, feita no final da década de 1980, quando eu ainda trabalhava em São José dos Campos. A inspiração para compô-la, veio do meu mestre maior na poesia, o poeta romântico fluminense Fagundes Varella (1841-1875), à qual ela é dedicada - a poesia em questão é "Amor e vinho", poesia esta que era declamada nas libações noturnas que o poeta fazia junto dos amigos boêmios.

O gênero da poesia - uma ode ao vinho repleta de citações - não é moderno: foi composta a moldes antigos, com estrofe do tipo oitava, versos em redondilha maior, rimas encadeadas tendo um estribilho que se repete em todos os finais das estrofes. Do mesmo modo que a poesia do Varella, ela é uma sátira, melhor, uma poesia humorística. Espero que gostem.


CANÇÃO DIONÍSICA
à Fagundes Varella

In vino veritas

Dissera o velho Pasteur
algo que ao vinho convida:
"O vinho é a mais higiênica
e saudável das bebidas"
Brindemos: Tin tin, tin tin!
Então nosso lema é assim:
"O vinho é mais higiênica
e saudável das bebidas"!

Assim como Baudelaire
louvava a alma do vinho,
eu louvo “As Flores do Mal”
ao pé de um copo de vinho.
Brindemos: Tin tin, tin tin!
Então nosso lema é assim:
Eu louvo “As Flores do Mal”
ao pé de um copo de vinho!

Foi Paul Claudel quem escreveu,
se não me falha a memória:
"Uma garrafa de vinho
guarda mil anos de história".
Brindemos: Tin tin, tin tin!
Então nosso lema é assim:
"Uma garrafa de vinho
guarda mil anos de história"!

Mas alguém pichou no Chile
bem melhor que estes franceses:
"Bem aventurados os bêbados,
verão à Deus duas vezes".
Brindemos: Tin tin, tin tin!
Então nosso lema é assim:
"Bem aventurados os bêbados,
verão à Deus duas vezes"!

Goethe falou de uma jovem,
de um copo de vinho do porto:
"O que não bebe e não beija
está pior do que morto"!
Brindemos: Tin tin, tin tin!
Então nosso lema é assim:
"O que não bebe e não beija
esta pior do que morto"!

O que falou Aristófanes
eu repito e lhes digo:
"Quando os homens bebem vinho
são ricos, felizes, amigos"
Brindemos: Tin tin, tin tin
Então nosso lema é assim:
"Quando os homens bebem vinho
são ricos, felizes, amigos"!

Saiba, são nossas amadas
Que nos levam a beber!
Que sorte, que alguns vão sozinhos
pelos bares a sofrer.
Brindemos: Tin tin, tin tin!
Então nosso lema é assim:
Saiba, são nossas amadas
que nos levam a beber!

Ao findar o nosso trabalho
vamos ao bar do beco,
sair das roupas suadas
e entrar num bom vinho seco!
Brindemos: Tin tin, tin tin!
Então nosso lema é assim:
Sair das roupas suadas
e entrar num bom vinho seco!

E após o suado trampo,
a fome é quem nos governa,
e o que nos abre o apetite?
A chave de uma taberna...
Brindemos: Tin tin, tin tin!
Então nosso lema é assim:
O que nos abre o apetite?
A chave de uma taberna...

Compadre que hora voltamos
prá casa após a jornada?
Um pouco depois das dez ,
depois das dez talagadas...
Brindemos: Tin tin, tin tin!
Então nosso lema é assim:
Um pouco depois das dez,
depois das dez talagadas!...

Tal como Dorothy Parker
ou George Jean Nathan,
eu bebo para tornar
os outros interessantes.
Brindemos: Tin tin, tin tin!
Então nosso lema é assim:
Eu bebo para tornar
os outros interessantes!

E quando estamos travados
é bom ninguém nos fitar,
pensamos que é nosso amigo
e o vamos importunar.
Brindemos: Tin tin, tin tin!
Então nosso lema é assim:
Quando estamos travados
É bom ninguém nos fitar.

Foi Robert Benchley quem deu
um toque à quem bebe à bessa
"A bebida mata aos poucos,
mas quem é que está com pressa?".
Brindemos: Tin tin, tin tin!­
Então nosso lema é assim:
"A bebida mata aos poucos,
mas quem é que esta com pressa?"!

O médico diz - "Abandona
o que lhes seja mais reles"
- As mulheres ou o vinho?
- "Depende da idade deles"...
Brindemos: Tin tin, tin tin!
Então nosso lema é assim:
- As mulheres ou o vinho?
Depende da idade deles!...

O abuso não impede o uso.
Pois que venha a repressão,
sabemos que a lei seca ,
incita a contravenção.
Brindemos: Tin tin, tin tin!
Então nosso lema é assim:
Sabemos que a lei seca,
incita a contravenção!

Lembrei-me de Garibaldi ,
neste momento oportuno:
"O deus Baco já afogou
mais humanos que Netuno"
Brindemos: Tin tin, tin tin!
Então nosso lema é assim:
"O deus Baco já afogou
mais humanos que Netuno"!

Chamou Fernando Pessoa
o garçom e disse à esmo:
"Qualquer vinho, tanto faz
é prá vomitar mesmo"
Brindemos: Tin tin, tin tin!
Então nosso lema é assim:
"Qualquer vinho, tanto faz,
é prá vomitar mesmo"!

Apos um porre daqueles,
Quem não sonha a panacéia
proposta por Paracelso
prá curar sua cefaléia?
Brindemos: Tin tin, tin tin!
Então nosso lema é assim:
Após um porre daqueles
quem não sonha a panacéia?!

Vinícius via no uísque
um cachorro engarrafado;
eu vejo no vinho um gênio
numa garrafa encerrado.
Brindemos: Tin tin, tin tin!
Então nosso lema é assim:
Eu vejo no vinho um gênio
numa garrafa encerrado!

O uísque prá quem não sabe,
perto do vinho é novinho;
enquanto alguém ia co’o milho,
lá vinha a uva co’o vinho.
Brindemos: Tin tin, tin tin!
Então nosso lema é assim:
Enquanto alguém ia co’o milho,
lá vinha a uva co’o vinho.!

Foi Noé quem descobriu
por acaso o nobre vinho;
o vinho é santa bebida,
tava lá no pergaminho.
Brindemos: Tin tin, tin tin!
Então nosso lema é assim:
O vinho é santa bebida,
tava lá no pergaminho!

"Nenhum animal inventou
coisa pior do que o porre,
nem algo melhor que beber,"
assim Chesterton discorre.
Brindemos: Tin tin, tin tin!
Então nosso lema é assim:
"Nenhum animal inventou
coisa pior do que o porre"!

Baseio-me no Eclesiastes,
beber não é transgressão:
"O bom vinho e a boa música
alegram o coração"
Brindemos: Tin tin, tin tin!
Então nosso lema e assim:
Baseio-o me no Eclesiastes,
beber não é transgressão!

Disse o profeta Isaias
este conselho supremo:
"Vamos comer e beber
pois amanhã morreremos"
Brindemos: Tin tin, tin tin!
Então nosso lema é assim:
"Vamos comer e beber
pois amanhã morreremos"

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segunda-feira, 4 de outubro de 2010

NOVAS CRIAÇÕES HUMORÍSTICAS DO V-NEWTON

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TROCADALHOS DO CARILHO!
Ontem, por parível que encresça, na rodovia D. Pedro (sim, a do Imperial Constitucionador) eu milagrei escaposamente de um acidente num ônibus que explodiu numa tremenda combustânea expontão! Com a explosão, foi só vidrada quebraça que voou prá todo lado! Daí, eu tomei um relaxar musculante e as dores se foram. Depois, eu desci no terminário rodovial e fui direto pro restaurado Morgante comer uma torção de porresmo, mas como não tinha, decidi ir para um rio numa fazenda e lá comi um peixe cru com molho de limenta com pimão de um sujeito que estava pingando numa pesquela. E ainda teve o luxo de servir acompanhado de vergumes e leduras! Ah, não sei se vocês sabem que eu sou cidadeiro brasilão, mas em minha certimento de nascidão eu fui batizudo de Cabeçado? Tudo por causa de uma falsa advogada de um cartório clandestino, a Fera Vischer! Isso é propagosa engananda, minha gente! Nossa, eu fiquei extremaputo mente com aquela gabunda vagalinha!... Mas quanto ao acidente, o meu irmão soube na mesma hora, pois ele teve um pressentimento – acho que é o tal de transmimento de pensação. Ih, gente, tô falando tudo errado e bolando as trocas! Acho que foi aquela merda de pirodélico psiculito que me deram ontem!
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SURUBA DE TRATORES
O Maxion do John Deer Ford o Müller, enquanto o Valmet o Fergunson no Komatsu.
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CHÁ DE COGUMELO
Algo de estranho aconteceu na sopa de letrinhas que ele tomava. Lia-se nos macarrõezinhos: “fio de cabelo”.
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ATRIBUIDO AO ÓVULO
“Muitos serão os chamados. Poucos serão os atendidos.”
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ATINAÇÕES
A estrada do inferno é pavimentada de boas intenções. E buracos negros...
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HIPOCRISIA
Às vezes, faltamos à consulta médica e nem nos damos ao cuidado de a desmarcamos ou pedir desculpas, mas quando o médico falta ou atrasa o horário de consulta, ficamos indignados.
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DO ALÉM I
"Galinha-de-angola
Que frita dourando co’alho na panela
Será que ela mexe co’alho
Ou o alho é que mexe com ela..."
(Clara Nunes psicografada)
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DO ALÉM II
"O Ernesto alguém enterrou
Num canto qualquer de La Paz
Nóis fomo e não encontremo o Tche
Nóis fiquemo cuma baita de uma réiva
A outra veiz, nóis num vai mais..."
(Adoniran Barbosa psicografado)
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DO ALÉM III
"Oê, muié rendeira
Olê, muié rendá
Tu me ensina imposto de renda
Que eu te ensino a sonegá..."
(Volta Seca psicografado)
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DO ALÉM IV
"Olha que hebréia bonita
Mais cheia de graça
É ela a menina que na praia passa
E feito Moisés vai abrindo o mar..."
(Tom Jobim psicografado)
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CISMAS
O cigarro contracena muitas vezes com vaga-lumes em piadas, mas porquê ele não contracena com cigarras?
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DO ALÉM V
“As formigas podem até não acabar com o Brasil, assim como o Brasil pode não acabar com as formigas, mas o Brasil acabar com os tamanduás é mera questão de tempo.” (Saint Hilaire psicografado)
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ATINAÇÕES
Árvore alguma faz sujeira – o que ela faz é cumprir seu ciclo biológico. Sujeira quem faz é o homem, principalmente quando corta as árvores desnecessariamente. ou põe fogo no mato.
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QUAL A DIFERENÇA DAS DUAS FRASES
Pela pirraça, vou deletá-la. Ela vai sobraçar em alguém depois que eu denotá-la.
Pela piçarra, vou delatá-la. Ela vai soçobrar em alguém depois que eu detoná-la.
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CONVERSINHAS BESTAS
– Não diga isso dele, jamais! Ele deve estar se revirando em seu túmulo por isso!
– Nossa, eu não sabia que ele sofria de catalepsia e era telepata!
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ATINAÇÕES
Até explicar para ele o porquê de o Genival Lacerda não poder andar de moto-taxi...
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REPARE
Todos os caminhos levam à Roma mas o papa vai de avião.
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FORMULA 1
A arte de voar a mil por hora e ainda assim exibir o logotipo do patrocinador.
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À MANEIRA DO CASSETA & PLANETA
O paparazzi trabalha só por amor ao dinheiro. Quem tem fetiches pela cena é o voyeurista.
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MUNDUS MULIERIBUS
Existem três tipos de mulher: a sincera, a que mente só por necessidade, e a falsa, que é esta que você está saindo.
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ATINAÇÕES
O Brasil está doido mesmo: crianças que se matam com revolveres verdadeiros, enquanto bandidos assaltam com armas de brinquedo!...
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CANNABIS LIBRE!
Quem fuma cigarro busca um cigarro de melhor qualidade, um cigarro light, fraco e com bom filtro. Já os adeptos da maconha dizem que quanto mais forte a maconha, melhor ela é. Oras, quem gosta da maconha mais forte, obviamente gosta da maconha que deixa mais louco, mais ligadão! Então, como liberar um produto cuja única função é deixar a pessoa muito louca, mais louca ainda?! Convenhamos!
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SUTIS DIFERENÇAS
Os povos da antiga Abissínia tinham a mania de apedrejar o Sol quando ele se punha. Os hippies cariocas do Posto 9 aplaudiam-no.
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CONVERSINHAS BESTAS
– O que aquele mudinho está querendo dizer, gesticulando as mãos daquele jeito?
– Que ele é quiromante.
– Quiromante! O que é isso?
– A pessoa que lê as mãos...
– !!!
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CONSELHO DE AMIGO
Se for beber por mim, não dirija. Se for se dirigir à mim, não beba.
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NÃO CONFUNDA...
Não confunda a lógica burguesa do Pato Donald com o hambúrguer patológico do McDonald.
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ATINAÇÕES
As três coisas que um homem mais precisa na vida, são duas: sexo.
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PRECAUÇÕES
Cuidado: quem está contigo, pode não estar do seu lado; e quem não está contigo, pode não estar contra você.
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CHÁ DE COGUMELO
Como diria o músico paranóico: "Esse cachorro do meu piano não sabe me ver sem balançar a cauda!"
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FRASES PARA O DIA A DIA
Mais feliz que gavião carijó em manhã de céu de brigadeiro.
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ATINAÇÕES
Extinga-se o cacau, o morango, a batata, o trigo, a uva, o milho, o lúpulo, a cevada, o café, a cana-de-açúcar, a coca, a maconha, a papoula, o tabaco e o petróleo, e o ser humano não terá mais razões para viver.
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NÃO CONFUNDA
Não confunda o talão remunerado do Cartola com o latão renumerado da Carlota.
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ATINAÇÕES
Xipófago: um neném que pode sugar um par de seios ao mesmo tempo.
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MONDO BIZARRE
Nunca tive dinheiro para comprar um bumerangue de primeira. A verba só dava para comprar um daqueles que iam mas não voltavam..
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ATINAÇÕES
Brasil: 25 milhões de deficientes que fariam de tudo para voltar a andar, e 36 milhões de carros de quem não anda a pé por nada neste mundo.
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CHÁ DE COGUMELO
Pegou fogo no Camelódromo carioca e faltou água! Tudo bem, aliás, camelo não precisa de tanta água assim.
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A ESPERTEZA DO CAIPIRA
– Gostei dessa calça. Quanto merréis custa?
– Três mil reais.
– Três mil reais... Mais óia, moça, a calça tem que tê quatro perna.
– Quatro pernas! Como assim?!
– É prá passá as quatro perna do burro que comprá essa calça aí...
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CONVERSINHAS BESTAS
– Você sabia que na composição do hambúrguer entra minhoca?
– Argh! É sério?
– Oras, mas então você nunca comeu minhocas?!
– Deus me livre!
– Comer minhoca é uma delícia, mas dá uma dor nas costas...
– Dor nas costas?! Como assim?
– É, ela é muito baixinha...
– Tava demorando!...
– E o pior é que é duro saber em qual lado é o rabo e em qual a cabeça!...
– !!!
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TONINHO MALVADEZA
– Aquele aluno ali não pode passar em porta giratória de banco.
– Oras, por quê?
– É o típico aluno CDF...
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CONVERSINHAS INFAMES
– ...toda vez que eu acabo de extrair um dente, eu corro tomar uma pinga..
– Nossa! E quantas pingas você calcula que já tomou até hoje?
– Sei lá... o que eu sei dizer é que estou banguela...
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TEMPO MODERNOS
– Ué, você não ficou puto por ele ter lhe assaltado com um revolver de brinquedo?!
– É claro que não – o dinheiro também era falso...
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ATINAÇÕES
Existem mais mistérios entre o Sétimo Céu e a Terra do Nunca do que supõe a nossa vã filosofia de botequim.
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SÁBIOS CONSELHOS
Não jogue fora as frutas que sobram. Leve-as para os presídios. Se os presos não as comerem, fique frio: elas irão apodrecer na cadeia...
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quarta-feira, 22 de setembro de 2010

CHEGADA DOS ANDORINHÕES E TESOURINHAS MIGRATÓRIOS NO FINAL DO INVERNO EM ARARAS E REGIÃO – 26 ANOS DE OBSERVAÇÕES E REGISTROS

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Tanto o andorinhão-do-temporal como tesourinhas são aves migratórias com chegada e partida em meses semelhantes. Invernam no Norte do País, na Amazônia e alguns países da América Central, e passam a Primavera e o Verão em quase todo o restante do Brasil e países limítrofes do sul do continente. Os meses de chegada à nossa região são sempre agosto ou setembro, preferencialmente nas últimas semanas de agosto e nas primeiras de setembro.

Ouvido treinado que tenho, as vocalizações de ambas as aves não me passam despercebidas quando de seu retorno à cidade, mas as datas, obviamente, podem não coincidir com o dia exato da chegada, uma vez que poderiam ter chegado em outros pontos da cidade onde eu não me encontrava, como a zona rural, por exemplo, ou mesmo eu não ter percebido sua presença na zona urbana ou rural, o que, modéstia às favas, é fato meio difícil para este naturalista que vos escreve...

Ambas são aves que não tem vocalizações muito atrativas, mas o tesourinha é popular devido ao desenho de sua cauda, e por um certo ritual que costuma fazer em bandos aos finais de tarde, de que falaremos adiante. O andorinhão, por sua vez, podem chamar a atenção quando se reúne em grandes bandos antes do pernoite, e sua família é considerada uma das mais dinâmicas do planeta, pois vivem em constante movimento. O ornitólogo Helmut Sick viu bandos de até 700 exemplares.


ANDORINHÃO-DO-TEMPORAL (Chaetura andrei) - Ashy-tailed Swif

Geralmente, o povo o confunde com andorinhas de tamanho mais avantajado, mas o andorinhão é da família dos apodídeos, enquanto as andorinhas pertencem à dos hirundinídeos. Sua silhueta lembra uma meia-lua, com asas longas e pontudas, dirigidas para trás como um arco. Cauda curta e redonda. Sua semelhança corporal com as andorinhas se deve à evolução convergente para caçarem insetos em voo. São parentes dos beija-flores e, como estes, possuem pés e pernas muito pequenos.

Quem quiser encontrar grandes concentrações de tesourinhas em Araras/SP, indico dois lugares: um, a chaminé abandonada da fazenda Santa Cruz (onde eles pernoitam ao retornarem das migrações) – aliás, por esse hábito, eles também são conhecidos como andorinhões-das-chaminés. O outro lugar é a várzea do jardim Sobradinho, próximo à entrada da casa de máquinas da represa “Iate” (Hermínio Ometto), por sinal, até hoje, por mais que me esforçasse, não consegui descobrir onde pernoitam naquele local. Eles se reúnem em bandos no final de tarde, e desaparecem quando começa a escurecer, nisto, estão entre as últimas aves a se recolherem para o pouso noturno. Nas cidades, numa adaptação que ocorreu à partir de 1945, os andorinhões costumam dormir nas chaminés residenciais, e é interessante observar que, por mais que se esforce para descobrir onde eles pousam para o pernoite, é quase impossível localizar, pois eles desaparecem num piscar de olhos.

Durante o voo, os chamados atraem a atenção, pois são agudos e repetidos com insistência. É comum à partir de sua chegada na cidade, vê-los fazendo elegantes voos circulares e à grande velocidade sobre as casas, de asas arqueadas e quase imóveis, piando constantemente ("tip-tip-tpi...") e chamando a atenção por voarem quase sempre em número de três indivíduos. Provavelmente, se trata de cenas de cortejos e disputas de dois machos e uma fêmea.

Ao contrário da tesourinha, o andorinhão jamais pousa no chão, num galho ou fio na horizontal. Helmut Sick afirma que eles voam até mesmo acima das nuvens, e há registros de um exemplar que se chocou com um avião! Helio Moro Mariante afirma que os andorinhões podem voar em meio à chuva grossa, sendo fustigados pelo vento sem receio. O voar alto ou baixo depende primeiramente da altura do voo de suas presas, que são os insetos. Estes, muitas vezes voam baixo, quando já está chovendo, ou, então, imediatamente antes (ou depois) da chuva. Também a enxameação de içás (cupins e formigas), quando saem da terra, geralmente se dá após uma chuva leve, atraindo dessa maneira as aves (porque são um petisco para elas) e fazendo com que essas voem mais baixo que o normal.

Sick informa que de março em diante é migratório, partindo para o norte da Amazônia. De março a julho, p. ex., são vistos nas praças da cidade de Belém do Pará.

Chegada do andorinhão em Araras entre 1991 e 2017:

21-8-2017
16-9-2016
6-9-2015
4-9-2014
18-9-2013
23-8-2012
25-8-2011
22-9-2010

03-9-2009
13-9-2008
30-8-2007
28-8-2006
02-9-2005
27-9-2004
09-9-2003
05-9-2002
22-9-2001
18-8-2000
27-8-1999
1998 - sem registro
1997 - sem registro
04-9-1996
15-9-1995
22-8-1994
1993 - sem registro
30-8-1992
10-8-1991

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TESOURINHA (Tyrannus savana) - Fork-tailed Flycatcher

É ave da família dos tiranídeos, a mesma do bem-te-vi, e o que lhe chama a atenção é a cauda longa bifurcada, que chega a atingir 29 cm, característica que lhe valeu o batismo popular.

É ave comum não só na zona rural como também na zona urbana, onde, por sinal, procria. Anos atrás vi um casal procriando no alto de um Sibipiruna (Caesalpinia peltophoroides) no jardim da Biblioteca Municipal. Outro casal, vi-o com três filhotes, num pé de Tipuana (Tipuana tipu), a mais ou menos 2,5 mts de altura, no estacionamento da rodoviária municipal de Araras/SP (foto abaixo), à beira da rua num lugar de tráfico intenso. Ao contrário do andorinhão, a tesourinha chega a pousar no solo para caçar. Um fato que chama a atenção no tesourinha é que ele sempre retorna das migrações ao mesmo local de nidificação.

Dalgas afirma que o tesourinha deixa nossa região em fins de fevereiro e volta em setembro. Desse modo, na primavera migra do norte do País, chegando ao sul onde se reproduz, retorna no início do Outono. Sick informa que

“Fora da época da reprodução associam-se em bandos, que mi­gram para longe, às vezes a grande altura, lembrando as andorinhas; confluem na Amazônia às centenas ou milhares (p. ex., Manaus, agosto). No sul de Minas Gerais, as maiores concentrações de migrantes ocorrem em outubro/novembro. No Rio Grande do Sul desapa­recem em março, voltam em setembro. A rota de ida e volta para as regiões de ‘invernagem’ parece não ser sempre a mesma. A existência de várias raças geográficas, caracterizadas pela forma das penas primárias externas, permite saber a procedência de certos indiví­duos que fazem parte da enorme congregação mista na Hiléia durante o inverno austral. Enquanto indivíduos masculinos adultos da raça meridional (M. tyrannus tyrannus, Argentina a Mato Grosso) têm três primárias entalhadas na ponta, as raças setentrionais (como Muscivora tyrannus monachus, México até o Solimões, Amazonas, e M. tyrannus circundatus, baixo Tapajós, Pará) têm apenas duas primárias transformadas. M. tyrannus tyrannus migra até o Equador, Colômbia, Guiana, Curaçao e Trinidad.”

Como já disse, há um interessante hábito cerimonial feito pelos tesourinhas. O ornitólogo Dalgas Frisch, de acordo com suas observações, comenta este cerimonial:

“Os tesoureiros são particularmente famosos pelo es­tranho hábito de se reunirem em pequenos grupos de seis a dez indivíduos, ao anoitecer, em certas épocas do ano. No céu, cada vez mais escuro, pode-se então vê-los, reunin­do-se um a um, ou aos pares, para a exibição aérea, única no gênero. Movendo, agitadamente, as longas penas da cau­da, que imitam o movimento de uma tesoura, elevam-se e descem, em rápidas e ousadas acrobacias, ao mesmo tempo em que se chamam uns aos outros, com gritos altos e jo­viais, num espetáculo fascinante.”


O naturalista W. H. Hudson registrou anos antes esse cerimonial (Le Naturaliste a La Plata, 10ª ed., Paris, 1930, p. 186), e o texto foi traduzido por Eurico Santos, que viu nele algo como a “celebração duma festa íntima (...), onde houve uma espécie de cerimônia dançante”. O texto, muito curioso por sinal, traz outras informações:

“As tesouras, que sempre vivem em casais, costumam, pela tarde, ao descambar do sol, fazer convites umas às outras, por meio de pios, para se reunirem. Há nestes convites algo de superexcitação.
Juntos alguns casais, logo a seguir elevam-se em voo a grandes alturas e, após terem rodopiado alguns instantes no ar, daí se precipitam com violência que assombra, aos ziguezagues, caindo em "folha morta", para usar a expressão dos aviadores em seus voos de fantasia.
Durante esse passatempo coreográfico ouve-se um ruído característico, como o ranger das ferragens daqueles relógios antigos aos quais se dava corda por manivela, tendo-se a impressão das pausas, após cada vira-volta da chave.
Terminada a dança aérea, pousam as aves, aos pares, sobre o cume das árvores, e cada casal se une, numa espécie de 'duo' formado de ruídos, que se repetem e soam como castanholas”

Helmut Sick, registrou as vozes nestes cerimoniais: “tzig” (chamada) e uma sequência apressada “tizg-tizig-zizizi... ag, ag, ag, ag” (canto), que emite pousado ou em voo, deixando-se cair numa espiral, com a cauda largamente aberta e a posição das asas lembrando um pára-quedas. Abaixo, em ilustração de Paul Barruel, o cerimonial.


Ouça suas vocalizações aqui:

http://www.xeno-canto.org/america/XCspeciesprofiles.php?species_nr2=2688.00

Chegada dos tesourinhas em Araras entre 1991 e 2017

23-8-2017
26-8-2016
3-9-2015
4-9-2014
12-9-2013
10-9-2012
10-9-2011
30-8-2010
23-8-2009
20-8-2008
30-8-2007
25-8-2006
31-8-2005
27-9-2004
06-9-2003
06-9-2002
14-8-2001
24-8-2000
27-8-1999
12-9-1998
12-9-1997
25-8-1996
09-9-1995
04-9-1994
04-9-1993
29-8-1992
03-9-1991

BIBLIOGRAFIA (11 fontes; consultar o autor)
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terça-feira, 4 de maio de 2010

“THE GENIUS OF JIMI HENDRIX” – UM DISCO DIVISOR DE ÁGUAS

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Carlos Lopes, do site Rock Express, analisando a caixa com quatro CDs e 56 faixas, lançada em setembro de 2009, escreveu: “Ao escutar esta caixa de pandora que é The Jimi Hendrix Experience, a primeira pergunta é: o que aconteceu com Hendrix "Marbles" (seu apelido à época) no verão de 1966? A caixa responde?” Lopes diz que não; e, na verdade, essa fase anterior à ida de Hendrix para a Inglaterra não é muito comentada tampouco analisada como deveria, que é o que pretendo fazer nesta matéria, lançando algumas luzes sobre este seu período relativamente obscuro. (Na foto, Hendrix em 1966, período de que trata esta matéria).

Então, caros amigos músicos amantes da arte da guitarra, para começar, vou fazer uma pergunta aqui que talvez seja desnecessária: Vocês já ouviram o disco “The Genius of Jimi Hendrix”? Se não, aqui terão motivos para buscar esse disco e analisá-lo como, acredito, ele merece.

Antes de mais nada - e sem querer parecer arrogante -, para se entender o que quero passar com essa matéria, é importante saber de antemão qual era o nível virtuosístico e capacidade inovadora dos grandes guitarristas de rock da época, mais especificamente no ano de 1966 e até antes, bem como saber contextualizar a guitarra em épocas passadas. Desse modo, os parâmetros modernos tem que ser cuidadosamente dosados nas comparações (ah, a eterna "praga" Hendrix versus Slash!...).


Originalmente, "The Genius of..." foi lançado nos EUA em 1973 pela Trip Records, e no Brasil em 1976. O disco foi relançado aqui em CD há uns 5 anos atrás. Desconfio que este disco – que não é tão conhecido entre os fãs de Hendrix – tem (ou deveria ter) uma importância fundamental na carreira de Jimi, não só pelas inovações que trouxe, mas por ser uma peça-chave em sua trajetória, em especial na sua fase de pré-estrelato. No entanto, ele não é um disco oficial de Hendrix, mas apenas um bootleg trazendo uma coletânea de sessões feitas com a sua primeira banda, o The Blue Flames e outras acompanhando outros dois artistas. (Na foto Hendrix, na época do exército, com sua primeira guitarra, uma Supro Ozark). O disco, apesar de nas primeiras audições parecer mais um desses caça-níqueis mal gravados – uma dessas várias gravações ruins que foram lançadas no mundo todo por oportunistas –, é um item que merece uma melhor atenção dos hendrixmaníacos e estudiosos de sua arte. Aliás, quando se fala em Hendrix na fase anterior à sua ida para a Inglaterra, onde explodiu, só vemos discos mal gravados e ele tocando um material que está muito aquém da arte pela qual ele viria a se tornar conhecido – em suma, são aqueles discos que, em termos, só “queimam o filme” de Jimi ante os novatos, só se prestando mesmo à colecionadores curiosos de sua carreira – posso dizer até infeliz daqueles que conheceram Hendrix através desses discos, pois eles, em sua grande maioria, “mentem” sobre a sua genialidade. (na foto, Hendrix, como um aspirante de Pelé da guitarra...)

Voltado ao “The Genius of...”, particularmente, de todos os cerca de 30 vinis e CDs que tenho de Jimi, este para mim tem uma importância especial. Foi através deste disco que vim a conhecer realmente quem era Hendrix - desde que o ouvi pela primeira vez, a verdadeira mágica de Hendrix aconteceu para mim. Foi numa situação inusitada: eu estava num feriado num rancho às margens do rio Mogi Guaçú em Cachoeira das Emas, Pirassununga/SP, e um amigo levou uma fita cassete com essa gravação – resultado: fiquei quatro dias ouvindo-a sem parar, embasbacado, abestalhado, não crendo no que ouvia. (na foto, Hendrix em 1962, no exército).



Foi numa época em que eu que estava começando a aprender a solar uma guitarra, então o disco caiu como uma descoberta sensacional. Desde então, por estas duas gravações, tive a intuição de que era um disco especialíssimo, o que procuro confirmar hoje com esta matéria. Abaixo, Jimi Hendrix e Billy Cox nos tempos do exército.



Para obter maiores informações sobre o disco, andei vasculhando sua vida neste período – entre 1964 e 66 –, época em que ele tocou e gravou com muita gente. Nesta matéria, acho interessante debater os motivos que levaram Hendrix até a Inglaterra, onde ele aconteceu como grande artista, assunto que os blogs nacionais não entram muito a fundo, ao que me parece. (na foto abaixo, Jimi com o The Isley Brothers, empunhando uma Fender Duo-Sonic, 1964). Tenho toda a certeza que essa gravação é uma peça-chave para entender esse processo. Para afirmar a vocês que posso ter razão no que digo, baixei os dois CDs “Jimi Hendrix -1964-1966 - Jimmy James Singles” e analisei música a música, e concluí também que nenhuma delas revela quem era o verdadeiro Hendrix no período, pelo menos o Hendrix que viria a explodir em terras britânicas. Dessas gravações, o que se constata também é que os artistas que Hendrix acompanhava seguravam a sua rédea, impedindo-o de usar a guitarra como gostava e sabia, ou seja, com muita distorção, alavanca e feedback, e dentre todos, só o Curtis Knight é que lhe abriu um pouco a porteira para ele dar vazão às suas “loucuras” (foto, ao vivo com Curtis Kinght, no clube Cheetah). A gente ouve essas gravações compiladas em “Jimmy James Singles” em 1966 e não acredita que é o mesmo Hendrix de “The Genius of...” – na maioria das músicas os artistas podaram o músico até onde puderam, sequer deixando espaço para ele fazer um mero solo. . Mas, pensando, bem, eles até que não estavam errados não, porque se o permitissem, já se sabe o que poderia acontecer... (Jimmy com Curtis Knight & the Squires, New York, 1965, usando "shaded sunburst" Duo-Sonic). A propósito, no disco “Jimi Hendrix -1964-1966 - Jimmy James Singles” Hendrix acompanha os seguintes artistas: Rosa Lee Brooks, The Isley Brothers, Don Covay & The Goodtimers, Little Richard, Curtis Knight (foto, disco lançado com a a banda), Curtis Knight & The Squires, Jayne Mansfield, Ray Sharpe com The King Curtis Orchestra, The Atlantic Sounds, The Icemen, Jimmy Norman, Lonnie Youngblood, Billy Lamont, Frank Howard & The Commanders, Owen Grey e, acreditem, Aretha Franklin!

O caso mais polêmico de Jimmy tocando numa banda, e sofrendo por não poder fazer tudo o que sabia na guitarra, se deu o então ídolo Little Richard, que detonava o guitarrista toda vez que ele avançava o sinal. Jimmy tocou com ele à partir de janeiro de 1965.

“Às vezes Jimmy se rebelava; era irresistível, ele não sabia explicar, as notas coçavam nas pontas de seus dedos, exigiam uma subida, ali onde Little Richard não esperava, um lamento, um toque na alavanca de sustentação, um... Richard fuzilava com os olhos, no palco, depois descarregava, no camarim: "Seu filho da puta, sou eu o patrão. EU, EU, O MAIOR, O REI DO ROCK'N ROLL, está entendendo? Só eu, EU posso brilhar!"

Num depoimento, o próprio Jimmy comentou o caso acrescentando outros senões:

"A razão pela qual eu sai não foi só por desentendimento monetário, mas porque Little Richard não me deixava usar camisas com babadinhos no palco, só aquelas roupas de seda que brilhavam. Ele me disse: 'Eu sou o único que pode estar bonito'".


Sobre este seis meses que Jimmy tocou com ele, há um caso que deve ter enfurecido pacas o vaidoso "Ricardinho": "Num desses shows, Jimmy é assediado violentamente pelas fãs, que o confudem com Little Richard"...



Veja este vídeo, de um filme sobre Hendrix, de 1973, em que Little Richard dá o braço a torcer após o sucesso de Jimi:

Voltando ao disco "The Genius of The Jimi Hendrix", encontrei isto na internet:

“This LP gathers nine pre-Experience recordings from 1966, some of which find Hendrix singing lead (including the 12-bar blues items 'Red House' and 'Peoples Peoples') and some of which find him working as a featured sideman for saxophonist/vocalist Lonnie Youngblood. 'She's a Fox' and the James Brown-ish 'Sweet Thang' are pure 1960s soul, whereas Hendrix's forceful, crunching, noisy guitar playing on the instrumental 'Lime Lime' could easily be described an example of early heavy metal. For the collector, a record like The Genius of Jimi Hendrix is quite interesting –although Trip's failure to list all of the personnel or provide any liner notes brings its rating down."


Eu aprendi a gostar do Jimi e a fazer solos de blues ouvindo exaustivamente este “The Genius of...”, em especial as versões de “Red House” e “People, People”, que são ótimas! (na foto, Jimi Hendrix e Billy Cox com os The King Casuals, 1962) Aliás, essa versão de “People, People” é tão boa quanto a clássica versão “C# Blues (People, People, People)” ao vivo, do disco “Experience”– o do filme –, do show de 18-2-1969, em London, Inglaterra. Aliás, é surpreendeente notar como as duas versões são distintas e belas, e chegam até a nem parecer a mesma música; nisto, está também a genialidade de Hendrix - a de recriar uma mesma música através do improviso. Quanto a “Red House”, ela tem uma levada e um arranjo diferente de todas as outras que se ouve em outros discos, aliás, é a minha versão predileta, pois é meio rhythm blues, suingada, e, pensando bem, é uma grande pena Jimi não ter mantido esse arranjo, pois assim ele "disfarçaria", ou fugiria um pouco do padrão comum e "enjoado" do blues "12 bar" (na foto,com King Curtis, 1965). Ouça "Red House" no disco "Are You Experinced?", e depois esta, e você vai concordar que é esta versão que devia estar no disco oficial. Ela é simplesmente animalesca! Aliás, no último dia de gravação do primeiro disco do Experience, em 13 de dezembro, que durou dois dias, Chas Chandler insistiu para que Hendrix desistisse de gravar "Red House" (existe uma mixagem onde esse pedido está registrado para a posteridade a fim de que ninguém possa negar) e ele acabou concordando porque estava mais interessado em novidades mesmo do que ficar tocando uma forma "tradicional" de blues. O fato é que a versão de "Red House" no LP inglês (ela não entrou na versão norte-americana) alavancou o álbum inteiro à categoria de "maestria de guitarra" com a técnica aprimorada de execução empregada na mesma música.

O uso da alavanca, o sustainer da guitarra e a velocidade dos solos – levando-se em conta o que rolava de inovador na época – são incríveis em ambas as músicas. Na minha opinião, a impressão que se tem é que nunca Hendrix solou tão bem como nessas gravações – ele estava muito à frente de seu tempo! (Na foto, Hendrix e Wilson Picket, maio 1966). Com muita probabilidade, ninguém até então havia tocado blues dessa maneira, tão suja, tão agressiva e tão rápida como ele. Pode-se até imaginar que o Hendrix era bastante "tesourado" pelos artistas que acompanhava, e por isso mesmo tocava meio reprimido, e quando ele podia tocar sem amarras alguma, com raiva ele abria as comportas e soltava seus demônios, o que é o caso do disco em questão.

Abrindo uma aspas aqui, por volta de 1987, o guitarrista Buddy Guy fez um show no Palace em São Paulo – foi a única vez em minha vida que vi alguém tocar algo próximo do que Hendrix fez em “The Genius of...”. E vale ressaltar que o show de Buddy foi um arraso, estonteante! (na 2 fotos, Jimi Hendrix no Isley Brothers, com uma Fender Jazzmaster, em maio de 1965). O que se constata ao ouvi-lo é que, em 1966, Hendrix já estava mais do que pronto para o sucesso mundial. Aliás, amps Marshall de Hendrix eram envenenados por seu engenheiro de som porque ele queria o som de Buddy, só que bem mais alto... Jimi era grande fã de Buddy Guy, à ponto de que quando ia aos shows de seu ídolo, levava um gravador e se sentava na primeira fila para gravar suas estonteantes performances e truques para tirá-los em casa depois. Sobre uma dessas passagens, Buddy comentou:

“Cover Guitar: - Como foi o encontro com Hendrix?
Buddy: - Uma vez, meu empresário veio correndo ao meu camarim depois do show, gritando que Hendrix estava na platéia e queria me ver. Eu apenas disse: ‘Quem é esse cara?’, eu nem sabia quem ele era... Jimi entrou no camarim, muito humilde, e me pediu desculpas por roubar um monte de meus licks... Disse a ele que tudo bem, que não me importava. O mais curioso é que existe uma fita de vídeo caseira deste show, onde dá para ver Hendrix na platéia, balançando as pernas e segurando um pequeno gravador nas mãos. E não é que o f.d.p. estava me roubando mesmo? (gargalhadas)”


Em uma antiga entrevista, Buddy contou de uma conversa com seu filho:

“Meu filho começou a tocar guitarra, e me perguntou o que devia ouvir. Eu disse: ‘Ouça Hendrix!’ Ele viu um show do Jimi na TV. Nesse show, Hendrix disse que aprendeu muito comigo. Meu filho começou, então, a ouvir meus discos!”


Aqui, as duas pérolas de "The Genius of Jimi Hendrix":

- "Red House" (18.60 MB). Baixe aqui:



- "People, People" (17.71 MB). Baixe aqui:
Para quem quiser baixar todo o LP da Internet aqui vai um link:

Há outras músicas boas no disco, como os dois souls “She’s A Fox” (acompanhando The Iceman) e “Sweet Thing” (com Billy LaMont) – que, aliás, constam de “Jimmy James Singles”, inclusive, vale a pena ouvir “She’s A Fox”, pois nela usa (de leve) a mesma técnica de “Little Wing” e os tais alto-falantes rotativos (caixa Leslie), mas as que importa mesmo nesta análise que faço são as duas citadas, cada uma abrindo um lado do disco. Uma pergunta que fica é porque as outras músicas de “The Genius of...” não entraram nessa coletânea “Singles...” – será porque esses dois discos só reuniram músicas em que Hendrix era músico acompanhante de outros artistas? Talvez. Porém, essas músicas excluídas muito provavelmente sejam músicas da banda de Jimi, o The Blue Flames (foto acima), banda formada em agosto de 1966(após abandonar o Joey Dee & The Starliters) e que durou 3 meses, até que Hendrix partisse para a Inglaterra (foto: Jimi com Curtis Knight). Ouvindo recentemente outro disco disco da época, o “Live Cheetah” (1965/66), com o Jimi Hendrix tocando na banda Curtis Knight and The Squires, notei que há músicas que cairiam melhor em “The Genius of...”, pois ambos os discos são gravações muito próximas, lembrando que o Curtis, apesar de "segurar" Jimi no que diz respeito ao uso de distorção, às vezes dava toda a corda àquele que ele chamava de “guitarrista muito talentoso”, permitindo que tocasse dois números instrumentais em cada show. Fayne Pridgeon costumava dizer o mesmo a Jimi, quando ambos faziam amor (na foto, na banda de Curtis Knight). Ouça esse disco neste link, que também é um bom exemplo do que o Hendrix estava tocando na época:



Quanto ao “The Genius of...”, ele foi gravado em 1966 em Nova York, no Abtone Recordings Studius. (na foto, Jimi com os The King Casuals, 1962). Não há informações de quem o acompanhou, mas há um baterista (Danny Casey?), um baixista [Jeff Baxter ou Randy "Texas" (Palmer)?], um gaitista (Lonnie Youngblood?) e um outro guitarrista, talvez o Randy California (Wolfe). O baterista até que manda legal, mas esses três últimos são músicos medianos. O baixista, aliás, comete um erro hilário na entrada de “People, People”: o Hendrix faz a abertura usual, mas a hora que acaba sua parte, surge o baixo completamente perdido, descontrolando Jimi , que para de tocar, e, em seguida, o “orienta” como fazer certo, e parece dar papinha na boca do baixista, tocando nota a nota... Jimi acompanhou muitos artistas nesse ano – por exemplo, em janeiro, entrou para a banda do saxofonista King Curtis onde tocou por meio ano, e realizou uma gravação que hoje se encontra desaparecida. (Na foto, Jimi causando furor com os Isley Brothers.)


A importância de “The Genius of...” reside também no fato de que Hendrix faz os vocais (nas músicas com o The Blue Flames) – talvez suas primeiras gravações solos como vocalista –, ressaltando-se que ele já se mostrava um inspirado cantor, usando todos os recursos de vocalização blues que aprendera com inúmeros artistas que tocara, como por exemplo, Curtis Knight e Little Richard (foto). Inclusive, em "Red House", já se evidencia - aliás, já está sacramentado - aquele estilo tão seu de cantar a música e dobrar a voz solando em uníssono (e em improviso), que - ao que eu saiba - ele levou para o túmulo consigo e não deixou descendentes. Na verdade, quem às vezes fazia algo próximo disso era um guitarrista inglês meio hendrixiano (até na voz!), o ótimo Roye Albrighton, da banda progressiva Nektar - ouça "Woman Trouble" e tire suas conclusões.

Em se falando da guitarra usada nestas gravações com o The Blue Flames, acho muito bom o timbre, mas que marca seria? Em 1964, quando chegou a Nova Yorque, Jimi tocava com Billy Cox, Leonard Moses e Jolly Joger, usando uma velha Epiphone (foto). Mas, ao que parece, a guitarra usada em "The Genius of..." não é uma Ephifone. Por que digo isso? Ocorre que, desde que ouvi este disco, eu conheço muito bem esse timbre de guitarra, e, por volta de 2005, ouvindo o disco duplo “The Blow-Up” (1978) da banda Television, reconheci-o na guitarra do Tom Verlaine. Fui conferir que guitarra era e vi que Verlaine usa com frequência uma Fender Jazzmaster (foto,). No entanto, convém lembrar que tanto Richard Lloyd quanto Tom Verlaine usavam Fender Duo-Sonic também. Na verdade, o fato tem de ser melhor checado. Para formar o The Blue Flames, em junho de 1965, ele comprou uma nova guitarra na loja Manny's, mas antes de formar essa banda, Jimi tocava na banda de King Curtis usando uma Duo-Sonic branca (na foto, Hendrix com uma Jazzmaster). Enfim, as duas guitarras usadas porJimi nessa época eram a Duo-Sonic e a Jazzmaster, mas a semelhança do timbre da guitarra de Jimi nas gravações de "People, People" e "Red House" com a guitarra de "Blow-Up" de Verlaine. A Cover Guitarra Nº 171, trouxe uma matéria com uma Jazzmaster 1960, em que diz:

“(...) a sonoridade desta guitarra é impressionante, mesmo desligada. O captador da ponte possui sonoridade bem aguda e ‘estalada’, como é característico das guitarras de surf music. O captador do braço lembra o da Stratocaster, pela sua sonoridade menos agressiva, porém mais encorpada, contida e macia em relação ao de sua ‘irmã mais velha’. Com saturação, os captadores chiaram um pouco, exceto na posição central das chaves. Uma característica própria da Jazzmaster é o seu tone lead circuit. Ao acionar a chave de duas posições, que fica acima do captador do braço, conseguimos uma sonoridade mais cheia e encorpada, algo pensado para os músicos de jazz.”


O site Cifra Club News comentou a Jazzmaster:

"A Fender Jazzmaster é para a Jaguar o que a Telecaster é para a Stratocaster. Segundo Anderson Silva, essa guitarra mantém o timbre "mais estalado", um som mais "magro" com dois captadores single coil e um design próximo da Jaguar. "A Jazzmaster não é uma guitarra muito conhecida no meio dos guitarristas e tem pouco apelo. O corpo lembra a Jaguar e a parte de trás da guitarra lembra um pouco a a Telecaster também. É uma Fender, mas não é muito comercial.", diz o músico. A Jazzmaster tem presença marcante no cenário indie. Entre grupos que usam esse modelo, estão o Sonic Youth, Dinosaur Jr e Yo La Tengo."


Ouça amostras de “The Blow-Up” com o Television:


Ou baixe o disco:


Restava, então, checar que guitarras Hendrix usava quando gravou “The Genius of...”. Na revista On & Off (Nº 9) encontrei as guitarras usadas por Hendrix nesse período:

- Epiphone Wiltshare (foto), 1961, cereja, r/wood – usada em Nashville;

- Fender Duo-Sonic, 1964, sunburst, r/wood – usada na banda Isley Brothers (março a novembro);

- Fender Jazzmaster, 1965, sunburst, r/wood – quando tocava com Little Richard (1965); um vídeo de Hendrix tocando com os cantores Buddy & Stacey (foto) neste ano: http://www.youtube.com/watch?v=GaIxswG7d84

- Fender Duo-Sonic, 1964, sunburst, r/wood – usada no Curtiss Knight;

- Fender Stratocaster, 1964, sunburst, r/wood – comprada na Manny's , e, provavelmente, a que levou para a Inglaterra.


Após ouvir o “The Blow-Up”, acredito que Jimi tenha mesmo usado uma Fender Jazzmater na gravação do “The Genius of...”, pois o timbre é o mesmo. A distorção usada em ambas as músicas citadas leva a crer que, na época, ninguém tinha uma mais poderosa – tem um sustainer tremendo e a guitarra berra – é de se lamentar que o Hendrix não tenha mais o usado essa guitarra daí para diante. Acredito que ela tinha esse som incrível, com certeza era devido mais ao desenho do corpo que aos captadores. Convém lembrar também que foi nessa época que os Stones foram ver Jimi e os The Blue Flames no Café Wah? (foto), e Linda – a esposa de Keith Richards – ficou abestalhada com o que ouviu. Tanto o é que, depois, “intimou” Chas Chandler – que estava em excursão pelos EUA –, a ir vê-lo – o que se deu em 5 de julho de 1966. Linda disse que Chas (foto), ao ouvi-lo tocando “Hey Joe”, “ficou assim, de boca aberta, garganta seca, olhos esbugalhados”. Sobre a relação de Linda e o então Jimmy James (dizem que Keith Richards levou um belo par de chifres por isso...), o site Whiplash trouxe este ótimo e esclarecedor texto:

“Os Stones se apresentam em Queens, no Forest Hills Tennis Stadium, chegando e partindo de helicóptero. O estádio estava com apenas um terço da lotação em função dos caríssimos ingressos que Klein negociou a $5 e $10 dólares cada. Depois de sua apresentação, já de volta em Manhattan, seguem a sugestão de Linda Keith e vão ao Cafe Wha? em McDougal Street no Village, para assistirem um ow do Jimmy James & The Blue Flames.
Linda Keith (foto) que estava trabalhando em Nova York há algum tempo, havia assistido um show do Curtis Knight no Cheetah Club e ficou impressionada com o seu guitarrista Jimmy James. Achou inacreditável que um rapaz que ela julgou extremamente talentoso estaria tocando na banda de outra pessoa. Depois do show conversou com ele e os dois fizeram uma amizade forte. Linda, sendo namorada de Keith Richards, tinha muitos contatos no meio musical e convence James que ela teria como promovê-lo, mas ele precisaria ter uma banda sua.
Assim Jimmy James deixa Curtis Knight e acaba por montar o Blues Flames, conseguindo este gig no Café Wha? Jimmy era até então extremamente acanhado para cantar e Linda Keith fez um pesado trabalho psicológico para convencê-lo a abandonar suas preocupações. Sabendo da paixão de Jimmy por Bob Dylan, conseguiu mostra-lhe que não era mais preciso ter uma voz aveluda para cantar e que sentimento era o fator em voga.
Linda então usurpa uma guitarra Stratocaster branca da coleção de Keith Richards e presenteia Jimmy James com ela. Aproveitando a passagem dos Rolling Stones pela cidade, ela então consegue atrair a banda e principalmente Andrew Oldham para assistí-lo. De fato, todos ficaram um tanto impressionados com o talento de Jimmy James, mas Andrew não se interessou em contratar o músico ou a banda.
Linda sem se dar por vencida, continuaria a tentar apresentar pessoas do meio musical, convida-los a assistí-lo e, assim, conseguir uma carreira mais sólida para seu guitarrista predileto. Não seria até Julho, quando encontrou com Chas Chadler, por conta da passagem dos Animals pela cidade, que ela conseguiria realizar seu intento. Chas, recém saído da banda, estava começando a trabalhar como empresário, e Linda, sabendo disto, comentou sobre este guitarrista Jimmy James, cuja apresentação chamou tanta a atenção dela quanto a dos Rolling Stones. Chas acaba por ir assistir o rapaz e impressionado, o convence a ir com ele para Londres e começar uma nova carreira de lá. Chas também sugere que ele muda o seu nome artístico de Jimmy James para Jimi Hendrix. O resto desta história, faz parte de outra história.”


A história acima lembra também outro caso, ocorrido dois anos antes, em 1964, com Gene – o filho do Les Paul (o criador da célebre guitarra, falecido recentemente, 13-8-2009) –, que dando um rolê pela noite de Nova Jersey, pararam num clube em Lodi, e Gene foi conferir o show que rolava naquela casa. Ele ficou completamente estupidificado com o que viu e ouviu. Ele voltou e disse ao seu pai: “Pai, é melhor você ir conferir por si mesmo. Tem um cara lá estraçalhando a guitarra!” Les Paul (foto) entrou e parou para escutar, e ficou deveras impressionado com o que ouviu. Acredito que de 1964 a 66, foi o período em Hendrix estava com a bola toda, inspiradíssimo, e louco para acontecer após os encorajadores conselhos que lhe dera Muddy Water (foto, com sua Guild S200 Thunderbird, ano 63), afinal era nada mais, nada menos que Muddy Waters, o seu ídolo que lhe dava o aval. Mas, afinal, o que disse Muddy para Jimmy? Pois bem: quando ele se encontrou com Jimmy pela primeira vez em Chicago, ao notar o seu notável talento - e também lhe dizer que ele se parecia com o bluesman Robert Johnson -, aconselhou: "Vá para Nova York, garoto. Se você quer alguma coisa além desse vida, vá para Nova York". Quanto à opinião de Linda que, se baseando em Bob Dylan, afirmou que Jimi também poderia cantar, houve uma opinião posterior dele em que ele disse sobre seu ídolo: "Você deve admirar um cara por ter a coragem de cantar tão fora do tom."

Tem outro depoimento interessante também – aliás, fantástico – no livro “Jimi Hendrix – O Domador de Raios” (1984), de Ana Maria Bahiana, em que ela fala das primeiras impressões que Hendrix causou em Fayne Pridgeon (a Foxy Lady, foto), que o ouviu em sua estreia no Palm Café em Nova York, em 1965:

“Essa noite ela havia ficado muda. Um rapaz novo, com uma cara estranha – era tímido ou louco aquele olhar perdido? – tinha ficado a noite inteira pentelhando para subir no palco com a banda da casa. Alta madrugada, os veteranos deram uma colher. O garoto subiu, ligou uma velha Fender, esquentou com alguns acordes no compasso do tema e, de repente, teve um troço. Era o que, aquilo? Fayne tinha ouvido falar em possessão de espíritos, nos holy rollers (nome dado aos pregadores e devotos das seitas fundamentalistas que pregavam e praticavam o transe como forma de comunicação com Deus) das igrejas batistas do Sul, seria isso? Mas holy rollers não tocavam guitarra. O garoto começou com um agudo inteiramente fora dos padrões de improviso, e foi distorcendo a nota até que ela se transformasse num rosnado, um ronco demente. Depois, uma cachoeira de notas rápidas, subindo e descendo aparentemente sem lógica: com chamas, uma fogueira, um clarão... Aí ele começou a pinotear pelo palquinho, ergueu a guitarra, passou-a para as costas, sempre tocando, abaixou quase até o chão, contorceu-se, sempre tocando, deu um salto, agachou-se, começou a arrastar-se pelo palco sempre tocando, a língua para dentro e para fora da boca (...).”


Outro que colaborou para a ascensão de Hendrix foi o cantor e guitarrista John Hammond Jr. (foto), filho do famoso crítico de jazz e blues. Segundo ele, o encontro do então Jimmy James com Chas Chandler se deu no Café Wha?, mas sim no noutro café, o Café a Go Go. Na verdade, Chas já havia visto Jimmy no Café Wha? e no  Go Go, acredito, se deram os acertos finais. Ele se recorda do dia em que o ouviu tocando em Greewich Village (onde Jimi conheceu Dylan), em 1966:

"Jimi estava tocando numa espelunca chamada Café Wha, e eu entrei numa noite. Ele estava tocando uma das minhas canções. Gostou de me encontrar e perguntei-lhe como poderia ajudá-lo. 'Me arranje alguma apresentação. Me tira daqui!', ele respondeu. Então arranjei para ele tocar no Café A Go Go e eu trabalhei lá com ele por um mês, com Jimi tocando guitarra solo. Bob Dylan, os Beatles e os Rolling Stones, todos foram lá ver a gente tocar. Então Chas Chandler o levou para Londres. Eu o vi logo depois, e ele havia se tornado um superstar.”


Hammond então, em agosto de 1966, entra para a banda de Jimmy e começam a tocar junto no Café a Go Go. No mês seguinte, após ouvir Jimmy atuando nesta casa, Chas Chandler convence-o a ir para a Inglaterra, o que se dá no dia 23 de setembro.

Acredito que todos os que já ouviram essas histórias do Les Paul, da Fayne Pridgeon, da Linda Keith, do Chas Chandler, do John Hammond Jr. e do próprio Jimmy James, ficam curiosos para saber o que é que ele estava tocando e qual seu nível musical nesse período. Então recomendo a audição destas duas músicas citadas do disco “The Genius of...” e algumas do “Live Cheetah”. Penso que, em se falando de guitarras, não tinha prá ninguém nos anos 60, e ainda tem um bando de leigos na Internet que vivem a dizer que o Jeff Beck tocava mais que o Hendrix!... Uma simples audição destas duas peças basta para notar que o Beck precisava comer muito, mas muito feijão!... Só a distorção e o sustainer animalescos que se pode ouvir em "Love or Confusion", do primeiro disco do Experience, já dá uma pequena amostra de que Hendrix tinha pulverizado todo mundo na Inglaterra. Sobre o Beck, ele não estava tocando tanto assim em 1966 – veja, p. ex., esta música: “Yardbirds - Train Kept A Rollin' (1966 with Jeff Beck )”:

Ouçam, e depois tirem suas conclusões, mas, sinceramente, não dá para comparar... No ano seguinte, com o lançamento do primeiro disco do Experience, só “Manic Depressions” já bastava para tirar Beck (foto) do campo das disputas, e mandar o cara enfiar sua violinha no saco e sair batido... Aliás, não só o Beck, como o Clapton, Page e o Pete Towshend também. "Truth" do Beck e "Wheels of Fire" do Cream são ótimos discos, mas não superam em virtuosismo e inovações os dois primeiros discos do Experience. Isto foi extraído do já citado site Rock Press, onde se analisa o primeiro disco do Experience, e mostra outras facetas inéditas sobre o disco:

“Segundo o texto de Dave Marsh no encarte do Experience (no CD remasterizado e autorizado pela família), Hendrix acertou onde álbuns clássicos como o Pet Sounds, dos Beach Boys, e o Sgt. Pepper’s, dos Beatles, falharam: em momento algum o Experience aboliu a ferocidade do rock and roll em prol de uma superioridade estilística e de uma concepção musical evoluída. Segundo Marsh, os discos citados anteriormente optaram por sacrificar a crueza, o poder e a velocidade pela causa evolucionista. Decididamente Hendrix não o fez. O lado mais negro e selvagem do blues estava presente a todo momento e isso não deixou o disco menos evoluído em relação a outros, e nem menos inventivo.”


Sobre o Beck e o Townshend, vejam a historia que o guitarrista Robertinho do Recife contou num exemplar do jornal Hit Pop de junho de 1977:

“Nos idos de 67, em Londres, numa época em que poucos conheciam Jimi Hendrix, Pete Townshend e Eric Clapton iam entrando na boate Speakeasy quando deram de cara com Jeff Beck que ia saindo naquele momento. Beck, só de maldade, virou-se para Pete e rosnou: ‘Tem um cara aí dentro quebrando o amplificador com a guitarra e fazendo misérias. Melhor você entrar lá e dizer a ele que quem faz isso é você’.”

Essa história, além de deixar entrever que o show estava incomodando o próprio Beck, mostra que ele, enfim, de modo indireto, reconhecia a evidente superioridade de Hendrix. Aliás, se analisarmos a vertiginosa ascensão de Hendrix como músico, cantor, explorador de tecnologias e domínio de estúdio no período compreendido entre 1967 e 1970 – que foi muitissímo superior à de Beck no mesmo período –, imagine-se o que Hendrix não teria feito em meados dos anos 70 quando Beck gravou “Blow by Blow” e “Wired”. É como uma “Regra de 3”, e quem poderia avaliar o que Hendrix estaria fazendo hoje se estivesse vivo!... Realmente, sua morte é uma perda sem precedentes para o mundo da música!

Sobre o primeiro encontro de Jimi com a banda Cream arranjada por Chandler no Regent Polytechnic College logo após sua chegada na Inglaterra, cita-se que ao executarem "Killing Floor", Jimi tocou de tal maneira que dizem que ali ele cometeu definitivamente o deícidio do então "God" Eric Clapton: Jimi, iniciando a música com um feedback destruidor, deixou Clapton arrasado não acreditando no que ouvia. Clapton desabafou: "Ninguém me disse que ele é tão bom." 

Townshend, instado sobre Jimi, foi sincero como Clapton: "Ver Jimi tocando me destruiu! Quer dizer, era difícil ver alguém fazendo o que você sempre quis!"

Beck, por sua vez, numa entrevista décadas depois, não deu o braço a torcer: "Meu relacionamento com ele era difícil, pois ambos estávamos à procura da mesma coisa: um jeito selvagem de tocar"... No entanto, na época, ele teceu este comentário após ouvir Hendrix nas primeiras vezes: “His music hits me straight between the eyes!”, ou seja, dizia que sua música o acertava diretamente na testa, entre os olhos... Aliás, esta frase serviu de título de um dos discos de um dos grandes fãs de Hendrix, Ritchie Blackmore e sua banda Rainbow, o disco lançado em junho de 1982, “Straight Between the Eyes”. 

Beck concedeu em abril de 2010 uma entrevista para o site Telegraph.co.uk onde, finalmente, ele entrega os pontos, e em um trecho ele explica que o guitarrista que realmente o impressionou foi Jimi Hendrix.

“Uma coisa que eu percebi quando eu o vi não foi apenas o seu blues incrível, mas também sua agressão física na guitarra. Suas ações eram todas explosivas. Eu, Eric (Clapton) e Jimmy (Page), fomos amaldiçoados, porque éramos de Surrey (condado situado ao sul da Inglaterra).
Nós todos parecíamos que tínhamos saído de uma vitrine da Burton (loja de roupas masculina mais famosa na Inglaterra). Lá estava o Jimi com sua jaqueta militar, seu cabelo esvoaçante, tocando com os dentes. Nós teríamos adorado ter feito isso.
Quando ele chegou me atingiu como um terremoto. Eu tive que pensar muito sobre o que fazer em seguida. Na verdade, as feridas eram muito profundas e eu tinha que curá-las sozinho.
Eu estava constantemente procurando outras coisas para fazer na guitarra, alcançar novos lugares. Eu tenho que sentir que isso é meu. Se eu não me sinto especial, eu simplesmente não faço."


Convém recordar que em Londres, naqueles tempos, qualquer coisa que os Stones e os Beatles dissessem sobre um artista ou um estilo musical, era aceito como verdade absoluta e indiscutível, e o entusiasmo de John Lennon, Paul McCartney e Mick Jagger muito contribuíram para que artistas como Bob Dylan e James Brown fossem aceitos e reconhecidos na Inglaterra, e assim se deu com Jimi Hendrix.

Enfim, voltando ao assunto principal, e finalizando, depois de si próprio a quem ficam os méritos do sucesso de Hendrix até que ele chegasse na Inglaterra? Enumeremos pela ordem no período que vai de 1964 a 1966:

1- Muddy Waters – que o incentivou a ir para Nova Yorque, pois lá teria sucesso garantido;
2- Fayne Pridgon – que o incentivou a enfrentar o reduto de jazzistas do Palm Café e mostrar sua arte sem medo;
3- Curtis Knight – que elogiava seu talento, abriu espaço em sua banda e o incentivou;
4- Linda Keith – que ajudou Hendrix, incentivou e falou mil maravilhas dele para Chas Clandler, intimando-o a vê-lo e ouvi-lo;
5- John Hammond Jr. - que levou Jimi para tocar num lugar onde pudesse chamar a atenção de artistas mais importantes;
6- Chas Clandler – que se deslumbrou com Hendrix e, finalmente, o levou para a Inglaterra;
7- John Lennon, Paul McCartney e Mick Jagger - que, após vê-lo atuando em Nova Iork, divulgaram Jimi em toda Londres, colaborando assim para sua meteórica ascensão.


Bom, amigos, era o que eu tinha a dizer. Boas audições, conclusões e aprendizados com o nosso mestre Jimi Hendrix!

BIBLIOGRAFIA (25 fontes)
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