quarta-feira, 22 de setembro de 2010

CHEGADA DOS ANDORINHÕES E TESOURINHAS MIGRATÓRIOS NO FINAL DO INVERNO EM ARARAS – 25 ANOS DE OBSERVAÇÕES E REGISTROS

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Tanto o andorinhão-do-temporal como tesourinhas são aves migratórias com chegada e partida em meses semelhantes. Invernam no Norte do País, na Amazônia e alguns países da América Central, e passam a Primavera e o Verão em quase todo o restante do Brasil e países limítrofes do sul do continente. Os meses de chegada à nossa região são sempre agosto ou setembro, preferencialmente nas últimas semanas de agosto e nas primeiras de setembro.

Ouvido treinado que tenho, as vocalizações de ambas as aves não me passam despercebidas quando de seu retorno à cidade, mas as datas, obviamente, podem não coincidir com o dia exato da chegada, uma vez que poderiam ter chegado em outros pontos da cidade onde eu não me encontrava, como a zona rural, por exemplo, ou mesmo eu não ter percebido sua presença na zona urbana ou rural, o que, modéstia às favas, é fato meio difícil para este naturalista que vos escreve...

Ambas são aves que não tem vocalizações muito atrativas, mas o tesourinha é popular devido ao desenho de sua cauda, e por um certo ritual que costuma fazer em bandos aos finais de tarde, de que falaremos adiante. O andorinhão, por sua vez, podem chamar a atenção quando se reúne em grandes bandos antes do pernoite, e sua família é considerada uma das mais dinâmicas do planeta, pois vivem em constante movimento. O ornitólogo Helmut Sick viu bandos de até 700 exemplares.


ANDORINHÃO-DO-TEMPORAL (Chaetura andrei) - Ashy-tailed Swif

Geralmente, o povo o confunde com andorinhas de tamanho mais avantajado, mas o andorinhão é da família dos apodídeos, enquanto as andorinhas pertencem à dos hirundinídeos. Sua silhueta lembra uma meia-lua, com asas longas e pontudas, dirigidas para trás como um arco. Cauda curta e redonda. Sua semelhança corporal com as andorinhas se deve à evolução convergente para caçarem insetos em voo. São parentes dos beija-flores e, como estes, possuem pés e pernas muito pequenos.

Quem quiser encontrar grandes concentrações de tesourinhas em Araras/SP, indico dois lugares: um, a chaminé abandonada da fazenda Santa Cruz (onde eles pernoitam ao retornarem das migrações) – aliás, por esse hábito, eles também são conhecidos como andorinhões-das-chaminés. O outro lugar é a várzea do jardim Sobradinho, próximo à entrada da casa de máquinas da represa “Iate” (Hermínio Ometto), por sinal, até hoje, por mais que me esforçasse, não consegui descobrir onde pernoitam naquele local. Eles se reúnem em bandos no final de tarde, e desaparecem quando começa a escurecer, nisto, estão entre as últimas aves a se recolherem para o pouso noturno. Nas cidades, numa adaptação que ocorreu à partir de 1945, os andorinhões costumam dormir nas chaminés residenciais, e é interessante observar que, por mais que se esforce para descobrir onde eles pousam para o pernoite, é quase impossível localizar, pois eles desaparecem num piscar de olhos.

Durante o voo, os chamados atraem a atenção, pois são agudos e repetidos com insistência. É comum à partir de sua chegada na cidade, vê-los fazendo elegantes voos circulares e à grande velocidade sobre as casas, de asas arqueadas e quase imóveis, piando constantemente ("tip-tip-tpi...") e chamando a atenção por voarem quase sempre em número de três indivíduos. Provavelmente, se trata de cenas de cortejos e disputas de dois machos e uma fêmea.

Ao contrário da tesourinha, o andorinhão jamais pousa no chão, num galho ou fio na horizontal. Helmut Sick afirma que eles voam até mesmo acima das nuvens, e há registros de um exemplar que se chocou com um avião! Helio Moro Mariante afirma que os andorinhões podem voar em meio à chuva grossa, sendo fustigados pelo vento sem receio. O voar alto ou baixo depende primeiramente da altura do voo de suas presas, que são os insetos. Estes, muitas vezes voam baixo, quando já está chovendo, ou, então, imediatamente antes (ou depois) da chuva. Também a enxameação de içás (cupins e formigas), quando saem da terra, geralmente se dá após uma chuva leve, atraindo dessa maneira as aves (porque são um petisco para elas) e fazendo com que essas voem mais baixo que o normal.

Sick informa que de março em diante é migratório, partindo para o norte da Amazônia. De março a julho, p. ex., são vistos nas praças da cidade de Belém do Pará.

Chegada do andorinhão em Araras entre 1991 e 2015:

16-9-2016
6-9-2015
4-9-2014
18-9-2013
23-8-2012
25-8-2011
22-9-2010

03-9-2009
13-9-2008
30-8-2007
28-8-2006
02-9-2005
27-9-2004
09-9-2003
05-9-2002
22-9-2001
18-8-2000
27-8-1999
1998 - sem registro
1997 - sem registro
04-9-1996
15-9-1995
22-8-1994
1993 - sem registro
30-8-1992
10-8-1991

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TESOURINHA (Tyrannus savana) - Fork-tailed Flycatcher

É ave da família dos tiranídeos, a mesma do bem-te-vi, e o que lhe chama a atenção é a cauda longa bifurcada, que chega a atingir 29 cm, característica que lhe valeu o batismo popular.

É ave comum não só na zona rural como também na zona urbana, onde, por sinal, procria. Anos atrás vi um casal procriando no alto de um Sibipiruna (Caesalpinia peltophoroides) no jardim da Biblioteca Municipal. Outro casal, vi-o com três filhotes, num pé de Tipuana (Tipuana tipu), a mais ou menos 2,5 mts de altura, no estacionamento da rodoviária municipal de Araras/SP (foto abaixo), à beira da rua num lugar de tráfico intenso. Ao contrário do andorinhão, a tesourinha chega a pousar no solo para caçar. Um fato que chama a atenção no tesourinha é que ele sempre retorna das migrações ao mesmo local de nidificação.

Dalgas afirma que o tesourinha deixa nossa região em fins de fevereiro e volta em setembro. Desse modo, na primavera migra do norte do País, chegando ao sul onde se reproduz, retorna no início do Outono. Sick informa que

“Fora da época da reprodução associam-se em bandos, que mi­gram para longe, às vezes a grande altura, lembrando as andorinhas; confluem na Amazônia às centenas ou milhares (p. ex., Manaus, agosto). No sul de Minas Gerais, as maiores concentrações de migrantes ocorrem em outubro/novembro. No Rio Grande do Sul desapa­recem em março, voltam em setembro. A rota de ida e volta para as regiões de ‘invernagem’ parece não ser sempre a mesma. A existência de várias raças geográficas, caracterizadas pela forma das penas primárias externas, permite saber a procedência de certos indiví­duos que fazem parte da enorme congregação mista na Hiléia durante o inverno austral. Enquanto indivíduos masculinos adultos da raça meridional (M. tyrannus tyrannus, Argentina a Mato Grosso) têm três primárias entalhadas na ponta, as raças setentrionais (como Muscivora tyrannus monachus, México até o Solimões, Amazonas, e M. tyrannus circundatus, baixo Tapajós, Pará) têm apenas duas primárias transformadas. M. tyrannus tyrannus migra até o Equador, Colômbia, Guiana, Curaçao e Trinidad.”

Como já disse, há um interessante hábito cerimonial feito pelos tesourinhas. O ornitólogo Dalgas Frisch, de acordo com suas observações, comenta este cerimonial:

“Os tesoureiros são particularmente famosos pelo es­tranho hábito de se reunirem em pequenos grupos de seis a dez indivíduos, ao anoitecer, em certas épocas do ano. No céu, cada vez mais escuro, pode-se então vê-los, reunin­do-se um a um, ou aos pares, para a exibição aérea, única no gênero. Movendo, agitadamente, as longas penas da cau­da, que imitam o movimento de uma tesoura, elevam-se e descem, em rápidas e ousadas acrobacias, ao mesmo tempo em que se chamam uns aos outros, com gritos altos e jo­viais, num espetáculo fascinante.”


O naturalista W. H. Hudson registrou anos antes esse cerimonial (Le Naturaliste a La Plata, 10ª ed., Paris, 1930, p. 186), e o texto foi traduzido por Eurico Santos, que viu nele algo como a “celebração duma festa íntima (...), onde houve uma espécie de cerimônia dançante”. O texto, muito curioso por sinal, traz outras informações:

“As tesouras, que sempre vivem em casais, costumam, pela tarde, ao descambar do sol, fazer convites umas às outras, por meio de pios, para se reunirem. Há nestes convites algo de superexcitação.
Juntos alguns casais, logo a seguir elevam-se em voo a grandes alturas e, após terem rodopiado alguns instantes no ar, daí se precipitam com violência que assombra, aos ziguezagues, caindo em "folha morta", para usar a expressão dos aviadores em seus voos de fantasia.
Durante esse passatempo coreográfico ouve-se um ruído característico, como o ranger das ferragens daqueles relógios antigos aos quais se dava corda por manivela, tendo-se a impressão das pausas, após cada vira-volta da chave.
Terminada a dança aérea, pousam as aves, aos pares, sobre o cume das árvores, e cada casal se une, numa espécie de 'duo' formado de ruídos, que se repetem e soam como castanholas”

Helmut Sick, registrou as vozes nestes cerimoniais: “tzig” (chamada) e uma sequência apressada “tizg-tizig-zizizi... ag, ag, ag, ag” (canto), que emite pousado ou em voo, deixando-se cair numa espiral, com a cauda largamente aberta e a posição das asas lembrando um pára-quedas. Abaixo, em ilustração de Paul Barruel, o cerimonial.


Ouça suas vocalizações aqui:

http://www.xeno-canto.org/america/XCspeciesprofiles.php?species_nr2=2688.00

Chegada dos tesourinhas em Araras entre 1991 e 2015


26-8-2016
3-9-2015
4-9-2014
12-9-2013
10-9-2012
10-9-2011
30-8-2010
23-8-2009
20-8-2008
30-8-2007
25-8-2006
31-8-2005
27-9-2004
06-9-2003
06-9-2002
14-8-2001
24-8-2000
27-8-1999
12-9-1998
12-9-1997
25-8-1996
09-9-1995
04-9-1994
04-9-1993
29-8-1992
03-9-1991

BIBLIOGRAFIA (11 fontes; consultar o autor)
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3 comentários:

  1. Algum pesquisador querendo aval para usar as informações, por favor me contatar.

    AS fotos de numero 1 e 2 são dos respectivos sites:

    - http://avesdopantanal.blogspot.com/

    - Preciso verificar

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  2. Olá !
    Sou morador da cidade de Arcos Minas Gerais .
    Quando as tesourinhas chegam em minha cidade é sinal de que o periodo das chuvas estão chegando e é sempre um otimo sinal.
    As tesourinhas são as nossas menssageiras de que as chuvas estão chegando .

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  3. Aqui es sc nunca tinha visto essas andorinhas gigantes hoje o céu ta cheio

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