segunda-feira, 5 de novembro de 2018

1918-2018: OS 110 ANOS DA EPIDEMIA DE GRIPE ESPANHOLA EM ARARAS.

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Araras foi também uma das inúmeras cidades brasileiras que, em 1918, não passou incólume ao surto da famosa pandemia, a chamada gripe espanhola, ou vírus Influenza“o grande mal do século XX”. Não se sabe ao certo a sua origem geográfica, mas a imprensa espanhola, durante a I Guerra, anunciava que civis estavam adoecendo e morrendo em números alarmantes; depois, em março de 1918, a doença foi observada nos EUA. Os primeiros casos conhecidos da gripe na Europa ocorreram durante a guerra, em abril, atacando tropas francesas, britânicas e americanas estacionadas em portos de embarque na França.

Hospital de campanha nos EUA durante a pandemia de gripe de 1918 
A epidemia matou muito mais que a própria Primeira Guerra Mundial, que terminou em novembro de 1918 com um saldo estimado em 16 milhões de vítimas. Esta gripe foi excepcional em termos de disseminação e gravidade, e acredita-se que até 5% da população mundial tenha sido infectada, falecendo em todo o planeta entre 20 e 40 milhões de pessoas; porém, outras estatísticas elevam o número a 100 milhões.


Rodrigues Alves
Depois do surto ocorrido na Europa, ele propagou-se pelo Brasil através dos navios de passageiros que aqui desembarcavam trazendo imigrantes. Ocorreram no País 35 mil casos, entre eles o próprio Presidente eleito, o carioca Rodrigues Alves (1848-1919). No Estado de São Paulo, o número de vítimas chegou a cerca de 8 mil casos. Em Araras que, por sinal, tinha 8 mil habitantes na época, houve mais de uma centena de casos, registrados tanto na zona urbana quanto na rural. Nunca, em época alguma, o Dr. Narciso Gomes, o padre Alarico Zacharias e Luiz Tozzato, o zelador do Cemitério, se viram diante de tantos doentes e falecidos num espaço de tempo tão curto.

Os atacados pela gripe, geralmente eram jovens entre 20 e 40 anos, de modo que por nunca terem sido expostos à vírus semelhantes, não tinham nenhuma imunidade contra o da Influenza, no que sofriam bem mais que os atacados de uma gripe normal: os pulmões, congestionados e enrijecidos, tornavam o ato de respirar numa tarefa quase impossível. As infecções evoluíam rapidamente, e as pessoas morriam em poucos dias, às vezes, em questão de horas, logo depois do aparecimento dos primeiros sintomas, no que eram sufocadas pelos fluídos que tomavam conta dos pulmões. O que tornou essa linhagem tão mortal era um mistério médico, até que, em 2006, cientistas norte-americanos desenvolveram técnicas que permitiram resgatar e ressuscitar os genes do vírus de 1918 de tecidos de uma vítima da época cujo corpo fora encontrado congelado em neve. Análises desses genes e de proteínas codificadas revelaram características do vírus que poderia suprimir as defesas do corpo e provocar uma reação imune violenta nas vítimas, levando à morte. Os cientistas concluíram que, embora o vírus da gripe espanhola tivesse de fato ‘nascido’ pouco antes de 1918, ele surgiu quando um vírus da gripe humana – que já naquela altura, circulava entre a raça humana entre dez a 15 anos – ‘capturou’ um gene de gripe aviária. Não foi um vírus das aves que ‘saltou’ inteirinho das aves para os humanos nem resultou de uma mistura com um vírus suíno.

Relatos da época dão conta de que os corpos ficavam tão arroxeados que era difícil distinguir um cadáver de um branco do de um negro. Sabendo-se hoje da ligação com o vírus da gripe, não deixa de ser curioso o que este site relatou:
                            
“Os médicos, também alarmados, não sabiam o que receitar e indicavam canja de galinha. O resultado foram saques aos armazéns atrás de frangos. Os jornais afirmavam que o tratamento deveria ser feito à base de pinga com limão ou uísque com gengibre.”

Em carta descoberta e publicada no British Medical Journal quase seis décadas após a pandemia, um médico norte-americano afirmou que a doença começava como o tipo comum de gripe, porém os doentes

"desenvolvem rapidamente o tipo mais viscoso de pneumonia jamais visto. Duas horas após darem entrada [no hospital], têm manchas castanho-avermelhadas nas maçãs do rosto e algumas horas mais tarde pode-se começar a ver a cianose estendendo-se por toda a face a partir das orelhas, até que se torna difícil distinguir o homem negro do branco. A morte chega em poucas horas e acontece simplesmente como uma falta de ar, até que morrem sufocados. É horrível. Pode-se ficar olhando um, dois ou 20 homens morrerem, mas ver esses pobres-diabos sendo abatidos como moscas deixa qualquer um exasperado”.

Dr. Narciso Gomes
Foi um ano muito difícil para a população da região que parecia viver anos de pragas e maldições bíblicas. Primeiro, foram as pragas de gafanhotos que surgiram vindos do Sul. Registros feitos em Mogi-Guaçu citam que uma nuvem imensa e compacta, com alguns quilômetros de largura, cortou o céu da cidade durante horas, seguindo em direção de Minas Gerais. Em Araras houve uma passagem em setembro de 1917 e outra em fevereiro de 1918. No Rio Grande do Sul (Panambi e Passo Fundo) já havia registros em 1906 e 1907, em época de forte seca. Em Araras os registros mais antigos datam de setembro, outubro e novembro de 1906 e maio de 1909. Como não se bastasse, meses antes do surto da gripe e depois da praga dos gafanhotos, ocorrera a grande geada dos dias 25 e 26 de junho de 1918, quando os termômetros chegaram a registrar 4 graus negativos comprometendo toda a lavoura cafeeira, destruindo-se 4 milhões de pé de café.

O Prefeito Coronel André Ulson Júnior, junto do Doutor Luiz Narciso Gomes, então Presidente da Câmara e Inspetor de Higiene Municipal, tomaram medidas preventivas, dentre elas, destacam-se algumas curiosas recomendações profiláticas:

— “Todas as pessoas que tiverem sido afetadas de gripe, deverão conservar-se em suas casas. Não devem cuspir ou escarrar nas ruas e calçadas, devendo fazê-lo somente em escarradeiras ou vasos previamente munidos de uma solução de sublimado que a Prefeitura fornece gratuitamente.”
— “As pessoas ainda não afetadas devem evitar as que foram e que tenham ainda tosse; bem como enquanto durar a epidemia, banir o modo comum de saudação por aperto de mão.”
— “Devem respirar pelas narinas e não pela boca.”
— “Afim de preservar aquelas de possível contaminação, poderão untar a mucosa, por meio de um pequeno tampão de algodão, com a seguinte pomada: ácido bórico 2 gramas, vaselina 30 gramas, mentol 10 centigramas.”

Prefeito André Ulson Junior.
Foi também colocado um guarda em cada casa que tivesse um doente, de modo que se evitava assim que as pessoas que tratam dos doentes e mesmo as que vivem debaixo do mesmo teto, se comuniquem com outra pessoa a não ser o guarda”. 

Pelo que se depreende ─ certamente para evitar contágios ─, nenhum dos doentes foi transferido para a Santa Casa da Misericórdia, que na época se situava num prédio na então praça Mário Tavares, entre a igreja Matriz e a atual Casa da Cultura.



A Santa Casa da Misericórdia, exatos 10 anos antes da febre amarela.

A Santa Cruz foi uma das ruas bastante afetadas pelo surto, na época, uma rua ainda de terra batida, com casas com esgoto à céu aberto e latrinas, bem como locais de criações de animais como porcos e aves, enfim, lugares propícios ao aparecimento de ratos e a famigerada peste bubônica, bem como de mosquitos, devido à sua proximidade com o ribeirão das Furnas e seus brejais adjacentes, mas não se sabe se estas condições colaboraram para o avanço da epidemia. De todo modo, já no ano anterior ao surto, havia em Araras um rigoroso serviço de inspeção de quintais. Em maio de 1917, foram inspecionados os quintais das 71 residências existentes ao longo desta rua. O fiscal municipal era o senhor José da Luz, que notificou os proprietários de cinco casas, e “foram intimados a fazer os serviços e limpezas necessárias, adotando certas medidas higiênicas, indispensáveis”.

A rua e a capela de Santa Cruz, exatas três décadas após o surto de febre amarela

No início de novembro do ano seguinte, Araras tinha suas primeiras vítimas de febre amarela: o jornal Tribuna do Povo noticiava no dia 3 que houve uma vítima na rua Santa Cruz, no “prédio no 17”; no dia 10, na casa de no 29, era notificada mais uma vítima; na no 55, duas vítimas, e na de no 89 outras duas. Nesta mesma data iniciava-se a distribuição de mantimentos às vítimas pobres. Para 60 pessoas necessitadas que não podiam trabalhar devido à doença, foram distribuídos: café, chá, açúcar, leite, pão, biscoitos, arroz, feijão, fubá, farinha de mandioca, maisena, sal, toucinho, sabão e querosene, sendo que na rua Santa Cruz, foram contempladas três pessoas da casa no 14, e duas pessoas da casa no 17. Em 24 de novembro surgiam novos casos na mesma rua: duas vítimas na casa no 5; um na casa no 13; uma na no 23; dois na no 55 e uma na no 57. No dia 8 do mês seguinte, mais quatro surgiam na casa no 6. No dia 15, outra em prédio não citado, e no dia 29, nova outra vítima na casa no 38. Como os dados foram colhidos pelo citado jornal e inexistem os exemplares do mês janeiro, não se soube o que ocorreu neste mês, mas no início de fevereiro não mais se noticiava o surto. No final, computou-se que morreram 31 pessoas na cidade.

No sopé, a rua Sta Cruz, o casario e quintais, e a várzea do ribeirão das Furnas. Déc. 1940

A semelhança existente entre o vírus da gripe espanhola e o atual vírus causador da gripe das aves na Europa e da Ásia é impressionante, e sugere que foram necessárias mutações relativamente pequenas para que um vírus aviário como o de 1918 passasse a infectar humanos. Assim, a mutação do vírus da gripe comum de 1918 é semelhante à que surgiu nos casos da gripe aviária (H5N1) ou gripe suína (H1N1). Nestes casos, como não era fácil identificar o organismo que estava causando a doença, não era possível encontrar um tratamento eficaz, tornando a doença fatal na maior parte dos casos.

Sobre a pequena Araras desse ano crítico, o senhor Luiz Rubini, nascido em 1909, comentou em entrevista ao Opinião Jornal em fevereiro de 2003:

“Viemos para a cidade em 1918. A cidade daquele tempo era muito ruim. Não tinha calçamento, rede de esgoto, privada patente. Quando a gente vinha pra escola o cheiro das fossas se espalhava pela cidade. Ela começou a melhorar quando o Zurita foi prefeito”
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quinta-feira, 27 de setembro de 2018

NÓS, VIOLONISTAS, E NOSSAS MAL-AMADAS UNHAS!...

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Trato aqui de um problema que envolve os violonistas que costumam tocar com unhas longas, recurso usado para poder melhor dedilhar o instrumento, e com mais precisão de ataque, assunto este dedicado às mulheres.



Minha cisma é o porquê as unhas, quando estão sujas, é só a parte de baixo que conta! E porquê é tão difícil limpar esta parte inferior delas, que sujam que nem o diabo?!


Quem é violonista e trabalha com materiais que normalmente sujam as mãos - como no meu caso, que era desenhista -, sabe o quanto elas se sujam facilmente, bem como o trabalho que dá para limpá-las, tendo as vezes que fazer uma verdadeira raspagem em baixo. 
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O verdadeiro problema disto é que um violonista pode se passar por um pessoa mal-asseada ao se surpreendido (ocasionalmente) com as unhas sujas. 


Mas, lembremos que há vários tipos de sujeira, dependendo das substâncias com que se trabalha, e muitas vezes não é sujeira propriamente dita, mas apenas um produto químico inócuo qualquer , assim como o são os próprios esmaltes de uso feminino, lembrando que o problema que relato pode ser considerado exclusivamente de alçada masculina, e você já vão ver o por quê.




Um parênteses aqui: alguém já ouviu falar da "francesinha de mecânico"? Se não, é aquela eterna sujeirinha escura que os mecânicos trazem nas unhas, mesmo curtas, e que dão a maior trabalheira limpar, necessitando até de produtos químicos...  Pois é, e não se pode, necessariamente, falar que esses caras são "porcos"...

Então, alguém aqui já viu uma mulher com as unhas sujas? Sim, certamente elas limpam as unhas, mas acredito que só a parte visível... Assim, considerando que todas usam esmalte, mesmo que elas estejam com a parte de baixo das unhas suja, quem vai conseguir reparar isto? Impossível, né, amigo!... E mais: alguém aqui acredita que elas fazem uma inspeção diária na parte de baixo das unhas para se evitar isso? Eu nunca vi ou soube!... E, convenhamos, não é todo dia que elas vão à manicure... Mas, enfim, queridas mulheres, se verem um sujeito com unhas longas e "sujas", perguntem antes de criticar se ele é um violonista, ou, no mínimo, dê-lhe um desconto imaginando que seja... Afinal, estas unhas sujas podem fazer uma serenata arrebatadora na tua janela!...

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domingo, 8 de julho de 2018

CONSIDERAÇÕES SOBRE OS DESÍGNIOS DE GERALDO VANDRÉ

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Vandré, no exílio europeu em 1970.
O Geraldo Vandré encerrou carreira em 1973, e certamente nunca mais voltará, por nada neste mundo, por dinheiro nenhum, nem que lhe paguem mais que ofereceram pela volta dos Beatles. Pensando bem: ele encerrou carreira ou ela está em aberto? Em se tratando do excêntrico Vandré, tudo se pode esperar...

As vezes eu fico pensando na qualidade do novo material que o Vandré poderia ter colocado no mercado, e chego a desconfiar que ele havia se esgotado e, por isso mesmo, encerrou carreira, mas, obviamente, a coisa não era bem assim.

Victor Jara (1932-1973)
Se analisarmos claramente, veremos que ele abandonara o lado romântico e bossanovista (em que ele também era ótimo) da virada dos anos 50/60 e partira depois para o Novo Regionalismo (ou Música de Protesto) junto com, p. ex., o Sergio Ricardo, mas, finalmente, entrara de cabeça naquele estilo chileno (que muita gente acha que é estilo original dele, mas, infelizmente não é) e foi até o final com ele. Ouçam a ótima Quilapayún, uma banda chilena de música folclórica, e constatem como o Vandré tem muito do estilo. Há quem diga que Victor Jara ─, o maior cantor chileno ─ é “o Vandré do Chile”, mas eu acho que é o contrário: é o Vandré que é o Victor Jara do Brasil... Numa incrível coincidência, nosso grande vate encerrara carreira no mesmo ano em que a ditadura chilena matou Jara, inclusive chegando antes ao horror de decepar suas mãos com um facão!

Das Terras de Benvirá, gravado na França, 1970.
Andei ouvindo outras gravações do período e era, com todo o perdão da colocação, a mesma ladainha chilena de sempre, aquele estilo de “Caminhando” ou "Réquiem para Matraga”, sempre baseado em poucos acordes. “Fabiana”, uma de suas últimas canções (dos anos 90) ─ que por sinal tem uma poesia que eu acho absurdamente linda, num estilo que só ele tem ─, me decepcionou melodicamente falando, pois é mais do mesmo. Neste período final de sua carreira, a impressão que se tem é que ele se viciou neste estilo ou não conseguia mais fugir dele Haveria o Vandré se esgotado e não conseguia mais compor nada que fosse além de três acordes neste gênero chileno? Assim sendo, talvez um novo material seu correria o risco de se mostrar enfadonho, porém, quem ouve dele por exemplo “Depois é só chorar”, sabe das coisas complexas e tocantes que ele era capaz de compor mesmo sendo um violonista de modestos recursos.

“Das Terras de Benvirá”, sua ultima gravação ─ que eu acho soberba ─ é seu canto do cisne, e ela é incrível por vários motivos: um disco impressionantemente acústico e composto basicamente com músicas de dois acordes, variando nos estilos nordestino e chileno ─ imaginem um disco feito totalmente com dois acordes: isso é Vandré, isso é “Das Terras de Benvirá”! Penso que nunca ninguém deste país, na amargura do exílio, compôs um disco tão intenso, a um tempo amargurado, revoltado, agressivo e terno. “Saudades do Brasil” do Tom Jobim é lindo, mas esse disco do Vandré é, parodiando o nosso hino, “um choro intenso”! Ele sussurra, geme, grita e berra, talvez de saudades do Brasil, e com aquela voz que só ele tem: inimitável, máscula e depurada como nunca. Aquela gravação numa TV alemã em 1970 (foto) mostra bem isso, aquela intensidade interpretativa que só ele tinha.


Esquecendo o Jara, talvez o Vandré fora – em que pese a comparação, mas querendo nivelar por cima ─ o melhor e mais original equivalente ao Bob Dylan que tivemos no Brasil!
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domingo, 13 de maio de 2018

ROCK, GAROA E QUEBRA-PAUS!


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São Paulo: "Terra da Garoa"

Apesar de todo o crescimento da capital São Paulo, apesar de todo o desmatamento geral, apesar de toda a poluição, apesar da severa alteração microclimática, apesar de todas as “ilhas de calor” da megalópole, e, enfim, apesar de toda a selva de concreto que se tornou a maior cidade da América Latina, o secular e famoso fenômeno paulistano cantado em mil versos de poetas e letras de compositores, a querida garoa de São Paulo ainda existe, ou subsiste! Meninos eu vi! Me encontrei com a ela por duas vezes em São Paulo.

O Monsters of Rock em 2 de setembro de 1995, estádio do Pacaembu

A primeira foi em 2 de setembro de 1995 ─ inverno, portanto, quando fui assistir ao Monster of Rock, no Estádio do Pacaembu, no que tive a oportunidade de ver meu grande ídolo Alice Cooper, retornando novamente ao país após 21 anos. Pagamos ─ até hoje eu não acredito ─, a bagatela de R$ 20,00 na arquibancada! Vale lembrar que havia um enorme receio de se fazer esse evento, pois, dias antes, as torcidas do São Paulo e do Palmeiras haviam promovido o maior quebra-pau no estádio. Desse modo, bebidas foram proibidas no show, e muita gente quis brigar devido à essa proibição!... Mas, deixemos de enrolação, e vamos à garoa, então. Lá pelo meio do show, do nada, surgiu um imenso borrifo de água do céu, um lençol de gotículas que 
desceu sobre nós lentamente ─ não era cerração nem chuvisco, mas um meio termo, algo incrível que surgiu e baixou discretamente sobre as 45 mil pessoas que curtiam esta excelente 
Alice Cooper no M onsters!

noitada rockeira! E o tal borrifo, que chegava a molhar a pele, era frio pacas. Falei para meu amigo: “Paulão, será que é a tal da famosa garoa de São Paulo?!”. Ele respondeu: “Mas, Cobra, isto ainda existe em São Paulo, apesar de tudo?!” O que eu sei dizer é que ficamos abestalhados, e, em meio àquela friagem úmida, surgiu um sujeito também do nada ─ como que caindo do céu também ─ a vender capas plásticas! Não pensamos duas vezes em comprar uma!... 
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O Cartaz do show.

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A lanchonete do sósia do Kajuru
A segunda vez foi recente ─ há uns três anos ─ quando fui trabalhar em São Paulo. Uma certa noite, estava eu a tomar cerveja parado na porta eu numa lanchonete em frente ao Centro Operacional do Metrô, na avenida Vergueiro, um lugar por onde passam muitos estudante de Direito. O engraçado é que ─ não deu para não notar ─ o dono do estabelecimento era a cara do  locutor esportivo Jorge Kajuru (o original ─ vejam só!: sujeito que nasceu um dia antes de mim...). E, eu ali, bebericando e me deleitando com aquele desfile de uma legião de belíssimas mulheres que só São Paulo tem, todas saindo das aulas e muitas parando nas lanchonetes que há ao longo da avenida. 

Vale lembrar novamente, que a cerveja que não pude beber no Monster ─ proibiram cerveja no show!... ─, descontei nesse dia nesta lanchonete!... Eis que, de repente, vem uma umidade com a brisa e eu estranhei aquilo; olhei para cima e lá estava a danada!


O locutor esportivo Jorge Kajuru
Mirando a luz do poste acima, pude ver novamente o tal borrifo, que feito uma água espargida por um spray, passava com um lençol esvoaçando com a brisa. Fui até o caixa e perguntei para o xará do famoso locutor esportivo:

“Ô, Kajuru, por acaso esta cerração que chegou agora é a tal da famosa garoa de São Paulo?” 

Ele riu do “Kajuru” e disse: 

“Até você me acha parecido com o maldito locutor?! Mas, sim, amigo, é a velha garoa mesmo ─ ela não desapareceu!”.

No primeiro caso, se houve, porém, um “demônio da garoa” naquela noite, esse cara não foi o monstro das trevas Ozzy Osbourne, mas o Alice Cooper, que tocou antes e fez o maior quebra-pau no palco durante a música “Street Fight”, mas, mesmo assim, a plateia não pegou fogo a contento, que faltou cerveja e sobrou garoa fria!... Quanto ao Kajuru da lanchonete, não sei se ele e ainda está lá, enquanto o da TV sumiu de vez, depois que um lutador de boxe quase lhe quebrou a cara na TV ao vivo; mas, e quanto à velha garoa que versejara o poeta Mário de Andrade, repito: meninos eu vi! E 45 mil rockeiros também!...
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quinta-feira, 11 de janeiro de 2018

SELETA DE PENSAMENTOS SOBRE ALIMENTAÇÃO E BEBIDA NUMA CHUVOSA E ENTEDIANTE NOITE DE QUINTA-FEIRA (criação: Wenilton)

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- Grão de milho: a arte de escapar à cozimentos, à dentadas, à ácidos estomacais e sair intacto do outro lado.

- Trigo integral: algo que, para o brasileiro, é tão difícil de falar como expressão, quanto ingerir como alimento.

- Páscoa: quando crianças, a gente começa por comer chocolate em demasia; quando velhos, terminanos comendo bacalhau a dizer chega.

- Relatividade I: nunca gostei de comer pipoca em cinema quando criança, assim como hoje, adulto, não gosto de telões em festa junina.

- Banzo: com comichão de comer terra, comi terra do chão.

- Sutis diferenças I: rico toma um trago de vinho para abrir o apetite; o pobre toma um trago de pinga para enganar a fome.

- Ituana: de passagem por Itu, aproveitei para comer um espetinho de coração (de boi).

- Relatividade II: nunca comi comida de bordo, mesmo porque nunca voei num jato, mas, amigo, o que eu já me alimentei com minha mãe fazendo aviãozinho numa colher é brincadeira!...

- Atinações I: adolescente é o tipo de pessoa que passa a juventude comendo porcarias, e quando fica velho, com a saúde estragada, só fica lembrando da "comida da mamãe".

- Relatividade III: não é que eu não goste de gatos, mas gosto demais de tamborins; não é que eu não goste de cachorros, mas eu sou louco por comida chinesa.

- Atinações II: com frequência, a comida mais cheirosa e deliciosa, na hora da evacuação é a que dá a maior catinga dos diabos.

- Sutis diferenças II: rico com fome vê comida e fica com água na boca; já o pobre baba.

- Batismos: nome para uma competição regada à maconha: "Gincanabis"; para outra regada à bebidas: "Torneio Ébrio da Bebida".

- Sutis diferenças III: antigamente, era o clichê do cão São Bernardo com o barrilzinho de bebida atado ao pescoço; depois veio o Vinícius de Moraes com o tal do cachorro engarrafado.

- Ano Novo, Vida Nova: sim, sim, amigo, eu disse que ia parar de beber de uma vez, pois ultimamente andava vendo leões toda vez que enchia a cara, mas acontece que agora eu ando armado...
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quinta-feira, 4 de janeiro de 2018

"O PALHAÇO RI NO PALCO, E DEPOIS CHORA NO CAMARIM"...

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Tem gente que não acredita que pessoas engraçadas, brincalhonas e bem humoradas possam, no fundo, ser pessoas deveras tristes e melancólicas. Compreensível este conceito, uma vez que são situações opostas, antagônicas.

Li, décadas atrás, esta quadrinha de um trovador nordestino:  "O palhaço ri no palco, e depois chora no camarim". Algo que é pura verdade em muitos casos. E não está cheio de artistas que detonam no palco, e na vida particular são recatados, quietos, pouco falantes e ridentes?

Mas, convenhamos, se uma pessoa tem o dom de ser humorada, porque ela iria cometer a insensatez de andar cabisbaixa pelaí, se arrastando com cara de tristonha e acabada como que a cobrar comiseração e compaixão das pessoas? Aliás, quem sabe se esse uso do humor não seja uma forma discreta de camuflar a tristeza, de não deixar que as pessoas perceberem a sua mágoa particular.

É sempre assim: em casa depois, quando as luzes da ribalta do dia-a-dia se apagam, a pessoa deixa o artista para trás e volta a ser quem realmente ela é: o cidadão comum com todo o seu verdadeiro drama: o arsenal de dores, doenças, seus problemas enfim - é, quando surge a triste realidade, a hora de se desfazer das fantasias e lavar a pintura psicodélica da face com as próprias lágrimas incolores!

Um grande palhaço do meu tempo, o Arrelia, mesmo com suas tristezas na vida particular, costumava dizer algo como: o palhaço não chora, mas ele ampara os que choram (e isso era coisa de palco), e lembremos que os Doutores da Alegria são a mais fiel tradução desse conceito.

A vida é assim, aliás, as pessoas insensatas e sem empatia são sempre assim: acreditam piamente numa eterna alegria do palhaço, mas ninguém crê em suas secretas lágrimas, no seu verdadeiro drama pessoal! E, pior, se estes flagrassem o palhaço chorando, o tratariam  como certos adultos tratam uma criança e diriam: "Oras, oras, deixa disso! Homem que é homem não chora!"...

Mas acontece que o palhaço também é uma criança! E uma criança que chora tanto quanto! Mas, uma coisa, amigos: há Doutores da Alegria para amparar nossos queridos palhaços?...
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domingo, 19 de novembro de 2017

VELHO ESCRAVO DA FAZENDA SANTO ANTONIO (Araras-SP) INSPIRA FAMOSO QUADRO DO PINTOR MODERNISTA LASAR SEGALL!

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Lasar Segall
A famoso quadro "Bananal", do pintor Laser Segall (1891-1957), teve por base um estudo detalhado, a lápis-carvão, que ele fez de um senhor negro e idoso, chamado Olegário, que fora escravo dessa que é uma das mais antigas de Araras, surgida no distante 1831.
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Segundo LuDiasBH:
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"Segall mais uma vez, como fez em Menino com Lagartixas, destina a parte inferior da tela, reduzida aqui à metade, para colocar o único personagem da composição, preenchendo todo o resto com as folhas verdes das bananeiras.
Como o título induz-nos a pensar, o negro Olegário é apenas parte da densa vegetação, pois, como na vida, nunca fora visto como pessoa, mas como parte disso ou daquilo, subordinado ao trabalho, mandado por seus donos.
A figura de Olegário, vista a partir do longo pescoço para cima, traz profundos sulcos na testa, que denotam não apenas preocupação, mas também marcas do tempo e do trabalho servil. Seus olhos são pequenos e verdes como o verde das folhas do bananeiral. O nariz anguloso e achatado mostra enormes narinas abertas. A boca grande e grossa, mesmo fechada, expõe os lábios carnudos. Dois profundos sulcos cercam-na, partindo das narinas, e indo até os cantos esquerdo e direito.
O cabelo curto e emaranhado da cabeça de Olegário encontra-se com a barba crespa, como se fizessem uma moldura em torno do rosto do ex-escravo. Seu olhar é ao mesmo tempo duro, desesperançado e sofrido."
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GoffredoTelles Junior.
Quem se recorda dele servindo de modelo para o futuro quadro, era aquele que no futuro viria a se tornar um dos maiores juristas do país, o então menino Goffredo Telles Júnior (1915-2009), que passava os dias nesta fazenda de seus avós junto com o grupo de modernistas da Semana de 22 que aí frequentou durante a década de 1920:.
"Lasar Segall, por exemplo, me fascinava. (...) Ele tinha um modo de olhar para as coisas do mundo como não vi em mais ninguém. Olhos muito abertos, infinitamente curiosos, numa fisionomia de extrema doçura... Extasiei-me ao vê-lo em plena criação, no terraço da fazenda, retratando, a carvão, na tela do seu cavalete, a cabeça do velho Olegário, antigo escravo de meus bisavós. Nenhum de nós podia imaginar que ali se estava produzindo o primeiro esboço do famoso quadro Bananal."
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