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domingo, 20 de julho de 2008

PARDAL, 100 ANOS DE BRASIL?


Não se pode imaginar a paisagem brasileira sem presença do café, a cana de açúcar, o algodão, certas espécies de bambu, o capim colonião, a mamona e o eucalipto – plantas exóticas introduzidas que promoveram uma verdadeira “colonização da paisagem” no país, dando a inúmeras regiões naturais uma característica estética que originalmente não era a sua, e que a maioria da população, há muito, sempre acreditou ser. Quanto às aves introduzidas, o que dizer, então, do “onipresente” pardal – pássaro exótico que em 2006, segundo o consenso geral, completou 100 anos de Brasil, ave cuja vocalização está entre as mais ouvidas dentre os pássaros que costumam habitar as zonas urbanas?

“Pardo pardal por que palras?

Palro e sempre palrarei

Porque sou o pardal pardo

Palrador d’El Rei.”

(Travalínguas colhido em 1954)



No ano 1983, o filósofo carioca Nataniel Dantas escreveu na revista “Cultura” do MEC (Ministério da Educação e Cultura): “Os pardais (Passer domesticus L.) estão fazendo 81 anos de Brasil, sem que um poeta, um cronista ou os jornais digam alguma coisa”. Ele pode ter se equivocado na estadia do pardal em terras brasileiras, mas agora que chegamos ao provável centenário da introdução deste pássaro no Brasil, é oportuno discorrer sobre ele e suas implicações, que, por ser ave introduzida, é acusado de trazer problemas aos locais onde apareceu, fato que não impediu os mexicanos de transformá-lo em ave símbolo. Sabe-se de naturalistas que tinham verdadeira aversão ao pardal. m deles, o conservacionista e taxidermista Willian Hornoday, em sua “História Natural” escreveu: “Deixa-me molhar a pena em ácido corrosivo; ferve-me o sangue ao pensar que devo escrever seu nome!”. O pardal é citado até mesmo na Bíblia em alguns salmos (84; 102). Nelson Vainer cita a famosa a história de Frederico Guilherme II da Prússia, o Grande, Rei da Prússia (1740-1786) “que, irritado contra os pardais, estipulava um prêmio de seis cêntimos pela cabeça de cada pardal morto. Resultado: a destruição desta ave foi rápida e os insetos, livres desse de seu terrível inimigo, atacaram de tal forma as culturas a ponto de as árvores frutíferas nem sequer chegaram a dar folha. Outro resultado: o mesmo monarca, certo que cometeu outro erro gravíssimo, revogou o seu decreto e estipulou outro preço – a importação de pardais!”

No Brasil é personagem de lendas de cunho religioso ou não. Seu nome foi popularizado entre as crianças brasileiras na figura do personagem de histórias em quadrinhos, o Professor Pardal, criado por Carl Barks para os estúdios de Walt Disney em 1952, cujo nome nos EUA é Gyro Gearloose, uma gíria, algo como a popular expressão “fora do cabo”. Na realidade, este personagem não é um pardal, mas sim um frango...

No Brasil, se tem introduzido aves exóticas desde os tempos coloniais. Com fins ornamentais trouxeram o pombo doméstico (Columba livia doméstica), os galináceos (Phasianidae) como provisão alimentar, e até aves com a finalidade de se combater pragas naturais, como o próprio pardal, e, em alguns casos, a introdução foi acidental, como aconteceu com o bico-de-lacre (Estrilda astrild). Pelo que leremos a seguir, poder-se-á constatar que o pardal adquiriu cidadania plena na Terra Brasilis, não honorária, naturalmente...

DISSEMINAÇÃO

É consenso que o pardal surgiu no Velho Mundo já no período Terciário, entre 65 e 2 milhões de anos atrás. A diáspora desta ave, pertencente à família dos Ploceídeos é impressionante: sua disseminação se deu a partir das regiões de entorno da Europa e da Ásia, invadindo, em seguida, a África. Foi introduzido na Austrália, Nova Zelândia, na América do Sul e na do Norte, aonde chegou primeiro a Cuba (1850), depois aos EUA, no ano seguinte, quando 100 pássaros foram soltos em Brooklyn, Nova Iorque. Hoje, a presença do pardal é garantida em quase todos os países do mundo, o que lhe caracteriza como uma éspecie exótica e bioinvasora. A bioinvasão é a chegada, o estabelecimento e a expansão de uma espécie exótica em um local onde não é o seu habitat natural historicamente conhecido, resultante de dispersão acidental ou intencional por atividades humanas (Carlton, 1996). Hoje é encontrado até mesmo no Pólo Norte ou nas estepes geladas da Terra do Fogo (foto) e na Argentina (1872). Consta que o pardal, por seu alto grau de especialização e grande potencial biótico para a vida em um novo meio, dobrou, durante cerca de um século, sua área de distribuição geográfica mundial como resultado de sua introdução, ora intencional, ora acidental, habitando atualmente mais de um quarto do globo, sendo considerado, numericamente, a segunda ou terceira ave do Mundo, tendo à sua frente a galinha doméstica, seguido pelo estorninho (Sturnus vulgaris). Como ave sinantropa, é imbatível, e ao contrário da África, por exemplo, não existem espécies congêneres de exigências bióticas semelhantes. É considerado pássaro com alto quociente de inteligência, estando sempre alerta e desconfiado, inclusive não se deixando domesticar. Sentindo ameaçado, foge imediatamente, estratégia que o tornou ave privilegiada dentre todas no que diz respeito à autodefesa.

NO BRASIL

Não se sabe com precisão quando o pardal veio para cá disputar os beirais de telhados com as residentes andorinhas, e há diversas versões sobre sua introdução no Brasil. Entre as versões mais aceitas destacam-se duas: uma, é a que diz que o engenheiro e prefeito do Rio de Janeiro, Pereira Passos, autorizou, em 1903, a soltura de exemplares provenientes de Lisboa na região de Campo de Santana. O renomado ornitólogo Helmut Sick cita história algo semelhante, e, assim como Werner Bokermann, dá a data de 1906, e diz que foi Antônio B. Ribeiro, que trouxe de Leça da Palmeira, Portugal, 220 exemplares, para soltá-los na mesma região carioca com a aprovação de Passos, e acrescenta que “alegaram colaboração de Oswaldo Cruz na sua campanha de higienização da cidade, pois os pardais eram considerados inimigos dos mosquitos e outros insetos transmissores das enfermidades que grassavam no Rio”. Curiosamente, o professor Manoel Pereira de Godoy, ex-funcionário do CEPTA, de Pirassununga, em seu livro Contribuição à História Natural e Geral de Pirassununga(1974), citando Helmut Sick, num dado extraído da publicação Zoologia - Boletim do Museu Nacional do Rio de Janeiro, No 207, página 8,diz que “o Prefeito Pereira Passos mandou uma pessoa buscar 200 casais de melros... e trouxe pardais!”.


Na verdade, o pardal se alimenta basicama vacinação em massa, a situação já estava sobre controle e havia apenas 9 casos de febre amarela. A iniciativa de Pereira Passos teve também um conotação simbólica – o prefeito achou que os pardais iam “tornar o rio mais atraente”, fixando não só na terra como nos ares a imagem da civilização que ansiava. Segundo a professora Maria Ercília do Nascimento, por ser pássaro comum nas grandes capitais européias, o pardal foi associado à modernidade e ao progresso. Além destas duas versões, há outras, como a que atribui a um negociante português sediado no Rio Grande do Sul, a encomenda do primeiro casal, e mesmo ao jornalista Assis Chateaubriand, que os teria trazido de Paris para auxiliar as URBs brasileiras. Outra ainda, cita que foi o engenheiro e jornalista Garcia Redondo quem mandou vir pardais da Europa, e, considerando-os “muito proveitosos, sendo insetívoros por excelência”, soltou-os no Rio, em setembro de 1907.


Cita-se que no Recife, os minúsculos insetos conhecidos popularmente como “lacerdinhas”, Gynaikothrips ficorum (Marchal, 1908), infestavam figueiras ornamentais da espécie Ficus retusa (var. nitida Thumb.), do Parque 13 de Maio, e traziam problemas às pessoas que passavam por sobre estas árvores nas horas quentes do dia, caindo-lhes nos olhos, provocando forte irritação com o líquido cáustico que expeliam. Inicialmente cogitou-se de exterminá-los através de fumigação, mas constatou-se que o procedimento seria nocivo às árvores. Não se têm informações precisa sobre quem sugeriu a introdução de pardais neste parque como forma de se erradicar os “lacerdinhas”. Comenta-se que o primeiro casal a entrar no Recife (1964 ?), eram provenientes de Santos, trazidos por um Português. Em 1979, a Prefeitura do Recife, anunciou pela imprensa que iria acabar com a “praga de pardais”, mas temendo a polêmica que tal medida poderia gerar, desistiu de levar a empreitada adiante. Há registros de que estes insetos surgiram no Brasil em 1961, vindos da Ásia Oriental, invadindo, a partir de então, diversos estados brasileiros. Helmut Sick, em seu livro Ornitologia Brasileira, 1997, faz um amplo e minucioso apanhado com localização e datas sobre a disseminação do pardal no Brasil.


Em 5 de abril de 1914, num artigo publicado no jornal “O Estado de São Paulo”, Rodolpho von Ihering, então assistente do Museu Paulista, atacava violentamente o pardal e sua importação. O professor acusa o pássaro estrangeiro de granívoro e, portanto, destruidor de lavouras. Ressalta ainda o fato do pardal afugentar os úteis pássaros nativos como o tico-tico (comedor de insetos), a corruíra, os anus, os bem-te-vis e as tesouras. Citando um relatório norte-americano sobre a nocividade do pardal, Ihering pediu imediata caça e destruição da ave. Mas Nelson Vainer cita que, mais tarde, Ihering também fora realista com a situação, do qual transcreveu: “Apesar de sermos inimigos declarados desta ave estrangeira (...), devemos agora incluí-lo no rol da nossa fauna, pois em vários pontos do país já se acha o pardal acimado, de forma a não mais podermos nutrir a esperança de um dia vê-lo desaparecer.”


A introdução deliberada de animais, feita sempre sem nenhum estudo científico levando em conta seu impacto, é praticada em todo o planeta e em todas as épocas. Mesmo assim, são imprevisíveis suas implicações, pois nunca se sabe se uma espécie exótica virá a se tornar praga, seja por competir com as espécies nativas, seja comprometendo o meio ambiente e o próprio ser humano. Eurico Santos, denominando-o “calamidade de pena e bico”, acusou o pardal de atacar a corruíra (Troglodytes aedon) e o tico-tico (Zonotrichia capensis), chegando mesmo há afirmar que não havia mais corruíras nos litorais e havia rareamento de tico-ticos. Uma publicação no Nordeste, sob o tema ecologia, apresentou-o como “mau caráter”. Herman von Ihering, afirmando que todas as suas credenciais são negativas, definiu-o como “briguento e egoísta”. A má fama do pardal chegou mesmo a ser cantada em uma marcha lançada no Carnaval de 1948 (Continental, 78 rpm), pelo grupo “Namorados da Lua”, do qual o cantor Lúcio Alves fazia parte.

Há relatos antigos sobre matanças de pardais na Europa. Thomas Keith em O homem e o mundo natural: mudanças de atitude em relação às plantas e aos animais (1988), diz: “Quanto aos pardais, a mesma paróquia (Deeping St. James, Lincolnshire) viu, entre 1764 e 1744, a destruição de cerca de 14 mil, mais 3500 ovos. Freqüentemente, esses troféus eram expostos nos adros das igrejas ou pendurados no estábulo – que Gilbert White (The Natural History of Selborne. 1788, carta para Pennant) chamava ‘o museu do campônio’.”. EM outra passagem menciona: “No começo do século XIX na Inglaterra, o foco deslocou-se novamente e houve uma proliferação de clubes suburbanos de pardais, cujos membros competiam para ver quem matava maior número dessas aves”.

O escritor Sergio Milliet cita que, por volta de 1810, a Câmara de São Paulo insistia sobre a urgência da matança em massa dos tico-ticos e viras, considerados altamente prejudiciais às lavouras. Mais, tarde, em 1820, um edital (Reg. Geral XVI, 119) mandado publicar em todas as freguesias, estabelecia um limite de 24 assassínios para cada “cabeça de casa em particular” e uma multa de 1$200 “contra aquele, ou aqueles, que assim não cumprirem”. Milliet menciona também que os “pássaros continuaram a viver e proliferar, com exceção do pobre tico-tico, hostilizado pelo pardal, que outro administrador entusiasta introduziu no Brasil”.

No município baiano de Souto Soares, em janeiro de 1994, o Centro de Recursos Ambientais da Bahia tentou dar cabo de uma praga de pardais que invadiu a cidade com a ajuda de dois gaviões carijó (Buteo magnisrostris) e quatro caracarás (Polyborus plancus), considerados predadores naturais destas aves. O biólogo Geraldo Aquino, que levou as aves do zoológico de Salvador até a cidade, afirmou que este é um tipo de controle de praga biológico e eficiente. “Um sobrevôo das aves predadoras já é suficiente para espantar os pardais da zona urbana”, citou. Como “pagamento”, as aves ganharam a liberdade.

Em todo o planeta há relatos de competição de aves autóctones com alienígenas, geralmente sempre em detrimento das primeiras. Todas as espécies translocadas que têm se adaptado à novas situações ecológicas, ou se apoderaram de um nicho disponível – o que é bem pouco provável na maior parte dos casos – ou tomaram-no das aves residentes. No caso do Brasil, Sick assevera que ele “encontrou um ‘nicho’ aberto” e sua introdução foi mais artificial do que natural, e houve mesmo quem, se aproveitando do fato de que ele era desconhecido entre as populações do interior, chegou a negociá-lo como ave de gaiola, situação em que o pardal chega a viver 23 anos.


ALIMENTAÇÃO, CARACTERÍSTICAS E PROCRIAÇÃO


Gregário por excelência, seus bandos podem atingir até meio milhar de exemplares. Como não se bastasse a sua onipresença e alta capacidade sinantrópica (adaptação às zonas urbanas), o pardal é onívoro e se alimenta de tudo o que lhe seja possível comer. Sick cita que “é extraordinário como o pardal descobre sempre novas fontes de alimento graças à observação atenta, verificando logo se há vantagem de um novo prato”. Surpreendentemente, em março de 1971, o pardal foi encontrado no Atol das Rocas, ilhas situadas a 250km do continente. Convém ressaltar que neste atol não há água potável e os dois exemplares encontrados – um casal – estavam em péssimo estado. Sobreviveram comendo beldoegra-da-praia (Portulacaceae?) e minúsculos crustáceos conhecidos por “pulgões-da-praia”. Em 1985 foram encontrados 16 exemplares saudáveis, o que denota a alta capacidade adaptativa deste resistente pássaro. O jornalista Nóbrega da Cunha relatou, em pesquisa publicada na revista “O Campo”, uma experiência que sobre a voracidade do pardal. Em um sítio seu em Jacarepaguá, plantou um lote de sementes de um sorgo norte-americano. Em sua experiência, documentada com fotografias, ele menciona que foram devorados 95% dos grãos. Não é consenso geral que o pardal cause prejuízos em hortas e pomares, danificando sementeiras e brotos de mudas de árvores, bem como culturas diversas. Há, porém, estudos comprovando que ele tem preferência pelo arroz, seguindo-se o milho, hortaliças, grãos e frutas.


Apesar de ser pássaro muito conhecido, muitos o confundem ainda com o igualmente popular tico-tico. O macho distingue-se da fêmea (pardoca) por seus tons castanhos mais escuros, possuindo uma coroa cor de chocolate e o bico escuro. Destoa da parceira também pela larga gravata preta no peito e pelo filete castanho-avermelhado que se estende dos olhos à nuca, mais escuro nele. Chamam também a atenção duas listas brancas na coberteira das asas.


À cada estação de acasalamento, o pardal, que é monógamo, procura uma pardoca que esteja próxima para procriar. Eurico dos Santos menciona que um tal de Clark matou as fêmeas de um casal de pardais do dia 25 de março até 1o de junho, e, em princípios de junho o macho já estava com sua quinta fêmea. Os ninhos, enormes em relação à ave, são construídos entre fevereiro e maio. Os lugares para a construção do ninho são os mais diversos, como em vãos de forros de telhados, buracos em edifícios e muros, estruturas de semáforos, campânulas de luzes urbanas, ocasionalmente o fazendo em ocos de árvores e coqueiros, etc. A verticalização das grandes cidades não é favorável à sua acomodação e acarreta seu declínio populacional. Cita-se também que a umidade excessiva exerce influência negativa no pardal e, fato comum, são muito frágeis à temporais e chuvas de granizo. Atualmente, se vê ninhos de pardais até mesmo no emaranhado das fiações elétricas improvisadas nas favelas do país, as populares “gambiarras” (foto). Uma vez pronto o ninho, ele se exibe à companheira eriçando a penugem negra do pescoço. Se isto a seduzir, ela entra no ninho e ambos estão prontos para constituir família. O ninho é macio no interior, forrado de vegetação seca, penas, fios de cordas e papel, porém, bastante desleixado no lado externo, onde já se encontrou até fios de cabelo. No Rio de Janeiro, na época de carnaval, o pardal costuma forrar o ninho com confetes. De um a cinco ovos são postos, e ambos podem incubá-los, revezando em períodos pequenos de alguns minutos cada, com incubação durando até 14 dias. A taxa de mortalidade dos filhotes em seu primeiro ano de existência é alta, mas há referências de que a procriar até três vezes por ano. Eurico dos Santos menciona que um certo Th. Bisschop retirou do ninho de um pardal os ovos, cada vez que eram postos, e, no transcurso de 4 meses, obteve 29 ovos. O mesmo menciona que o pardal, às vezes, se apodera de ninhos de andorinhas e joões-de-barro. Sick menciona que também se aproveita de pombais.


PREDADORES


Muitos falcões e corujas (suindara, Tyto alba) caçam o pardal. Já gatos, cachorros, ratos, gambás (Didelphis sp.), morcegos (Desmodus rotundus) e muitas espécies de serpentes se alimentam de seus filhotes e ovos. Cita-se um caso, que em Rio Claro/SP, “revelou perspectivas de vir a ser controlado pela comuníssima ave parasita brasileira, o chupim, Molothrus bonariensis”, mas, na realidade, todos estão muito aquém de exercer controle populacional sobre o fecundíssimo e “imperialista” pardal. No rio Grande do Sul, o gavião chimango, Milvago chimango, bem como o anu-branco, Guira guira, foram vistos saqueando ninho de pardais.

O pardal, no que tange ao tema “aves nocivas ao homem”, não chega a ser pior que outras aves residentes com características semelhantes (vide caturrita, o próprio chupim, etc), aliás, o também exótico pombo-doméstico tem se mostrado bem mais nocivo que o pardal. Seus ninhos podem abrigar o barbeiro, percevejo transmissor da doença de Chagas, e, tempos atrás, foi realmente confirmada no pardal a presença de Toxoplasma gondii, micróbio causador da toxoplasmose, mas não há relatos de epidemias. Werner C. A. Bokermann, biólogo do zoológico de São Paulo, diz que ele é responsabilizado pela transmissão da bouba, virose comum a aves domésticas. Apesar de ser acusado de competir na alimentação com canários-da-terra ou afugentar pássaros como as andorinhas e corruíras, desalojando-os de seus ninhos, o fato não chega a constituir um problema sério. O pardal também tem seus pontos positivos: há relatos de que, em época de reprodução, destrói quantidades consideráveis de insetos em plantações, e colabora com a limpeza das cidades se alimentando de resíduos e lixos domésticos. Não há mais nada o que se fazer para se erradicá-lo do país, talvez seja mesmo desnecessário. Helmut Sick chegou mesmo a considerá-lo “inexterminável”, mas não se sabe com precisão se a situação é irremediável. Em 1972 foi proposto a “Semana de Combate ao Pardal”, campanha que acabou não vingando. Assim como as cobras, o pardal veio a se tornar vítima de propaganda injusta, baseada apenas nas opiniões nem sempre corretas do senso comum, com direito ao primeiro lugar no pódio de animal nocivo pela Portaria no 1 de 5-1-1957. É oportuno relembrar o escritor Vivaldo Coaracy: “Não haverá nisso muito preconceito, talvez até um pouco de xenofobia, por ser o pardal ave importada?”.

Gustavo Pacheco, membro do OAP - Observadores de Aves de Pernambuco, comentou:“Certamente, se um dia acontecer de todas as espécies nativas abandonarem os centros urbanos, ficará o fiel pardal para nos consolar”. Curiosamente, na obra de ficção científica “A Máquina do Tempo” (1869), o escritor H. G. Wells, menciona a existência de pardais no ano de 802.701. Caluniado como é, só restaria ao “raçudo” pardal o reconhecimento de granjear, tal como as baratas, a fama de antediluviano – per omnia saecula saeculorum...


BIBLIOGRAFIA

Contatar autor.



INTERNET

www.sombras.com.br/lucio/lucio.htm

www.saudeanimal.com.br


– Foto P&B do pardal nas fiações elétricas: Robson Fernandes. O Estado de São Paulo, 2003.

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quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

HÁ QUASE 70 ANOS, O PARDAL CHEGAVA À ARARAS

Analisando as pessoas desse velhos tempos, há pouco mais de 60 anos atrás, é difícil acreditar que alguém pudesse ter sua atenção despertada por um simples e exótico animalzinho alado chegado pela primeira vez a cidade, a ponto de, anos depois, registrar o fato num jornal. Mas foi o que aconteceu, e, no mínimo, a pessoa devia ter uma relativa queda por pássaros.

Foi nesta época que, dando continuidade à sua ferrenha e vitoriosa bioinvasão, um novo pássaro originário do Oriente Médio começava a se espalhar pelas cidades do interior paulista. Como vinha ocorrendo desde 1903 à partir do Rio de Janeiro, onde fora introduzido, esse pássaro estrangeiro aportava em nossa cidade, e o fato não passara em branco para um atento articulista de um jornal local, que por uma feliz iniciativa, registrara o acontecimento numa breve crônica, apesar de o fazer mais de uma década após o acontecido. Explica-se: na época, o observador era um aluno de grupo escolar.

Antes de mais, nada, gostaria de informar que o que escrevi aqui, só foi possível devido ao fato de ter ganho um valioso presente, que me fora ofertado por um velho amigo das letras, o professor e escritor Alcyr Matthiesen, uma coleção completa de um extinto jornal ararense que, de cabo a rabo, eu já pesquisara anos atrás. O que não me conformo é que a citada crônica de onde retirei as informações para redigir este post, eu não descobrira durante estas pesquisas e passei batido por ela, logo eu que sou que sou tão meticuloso e atento...

Mas, afinal, de que pássaro estou falando?

No distante 1941, o popular e cosmopolita pássaro conhecido como pardal (Passer domesticus), chegava à cidade para ficar, e o já citado articulista, cujo nome era João das Neves, em sua coluna no Jornal de Araras denominada Bilhete de Araras, rememorava o “feito”, registrando a histórica data numa singela e simples crônica. No entanto, eram passados 13 anos do fato, mas mesmo assim, João das Neves, em 11 de março de 1954, registrava para a posteridade o curioso acontecimento.

Não se sabe se o pardal viera sozinho, ou em bandos, como era de se esperar – se é que alguém esperasse... O que João das Neves vira fora apenas um discreto casal que timidamente aportava na cidade... Mas qual fora o lugar que ambos buscaram para estabelecer domicílio na pacata cidadela de então? Seria um arbusto, uma árvore ou um buraco num barranco, como era de se esperar de um pássaro? Nenhuma das alternativas – não fugindo às suas natas tendências sinantrópicas, o casal forasteiro escolhera uma boca de jacaré – uma dessas tubulações que escoam a água das chuvas, nos altos do telhado daquela que é a primeira, e única de então, escola pública de Araras, o “Grupo Justiniano”. Será que ali, num estabelecimento de ensino, os pardais obteriam melhores informações sobre a pequena cidade que escolheram para se fixar?


Na foto, uma reconstituição que fiz do casal na “boca de jacaré”, remetendo ao ano de 1941.


João das Neves, na época, era aluno desta escola, e as informações que recebera sobre o novo passarinho foram passadas a ele e para todos os alunos pelo célebre professor Vicente Padovani, docente que, por sinal, fora professor de meu pai e, décadas depois, já idoso e em fim de carreira, deste que vos escreve. Padovani, informado que era, já tinha ciência da diáspora promovida pelo novo pássaro introduzido no país décadas atrás, e, exceção à regra, estava a espera, mais dia menos dia, de sua chegada à cidade. Chegado, enfim, o dia aprazado, e instado sobre tal, fez questão de repassar a novidade a todos a escola. O que não se sabe é se ele ciceroneu o casal mostrando-lhes as vantagens de se fixar na modesta e promissora cidade em que se instalavam, mas convém reconhecer que ambos foram se instalar justamente na escola em que trabalhava um professor que bem conhecia a sua espécie, e seus hábitos...

Mas, enfim, aqui, o precioso texto histórico de João de Deus:

“Nossa atenção vinha sendo despertada alguns dias, por um casal de passarinhos que vinha habitando uma das bocas de jacaré por onde saem as águas das chuvas, lá do Grupo Escolar naquela época, mas hoje como outros surgiram, foi necessário a designação pelo nome, Grupo Escolar Cel. Justiniano W. de Oliveira.

Desde vários dias vinha­mos olhando para aqueles passarinhos, dos quais nenhum de nós havíamos vis­to e por isso ninguém sabia o nome. Eram desconhecidos para nós. Era aquela a primeira vez que víamos passarinhos como aqueles. E eles continuavam, dias após dias, a chilrear, com o corpo parece que estufado. Em um grupo escolar ou em qual­quer reunião de garotos, e comum aparecerem os 'entendidos', os quais davam nomes aos passarinhos. Nunca certos porém.

Certa manhã, logo ao entrarmos em classe, o prof. Vicente Padovan nos explicou alguma coisa sobre eles. Pouco eu me lembro. Só sei que eram passarinhos que alguém trouxera de Portugal, e que aqui encontrara ambiente para criação. Em São Paulo, Campinas, eles já eram conhecidos, e vinham agora se alastrando mais para o interior. Aqueles eram os primeiros a aparecerem em nossa cidade.

Estávamos no ano de 1941, e eram aqueles os primeiros pardais que por aqui arribavam.”

Sete anos depois, o pardal já era muito comum na cidade, e inclusive servia como personagem de crônicas nos jornais locais. Em 20 de junho de 1948, um tal de Zezinho publicava uma crônica no jornal Tribuna do Povo, denominada “Os pardais e os pobrezinhos”, onde, pela voz dos pardais, citou que na época, havia setenta engrates meninos trabalhando na praça Barão, e que o prefeito queria acabar com os bancos “do jardim, para acabar com os namoros”.

Em seu livro Contribuição à História Natural e Geral de Pirassununga (1974), o falecido professor Manoel Pereira de Godoy, ex-funcionário do CEPTA, de Pirassununga, registrou a chegada do pardal à esta cidade no ano de 1943, e sete anos depois em Cachoeira das Emas, portanto, o pardal atingiu Pirassununga dois anos após Araras e, ao que se pode depreender, Leme um ano depois.

Para quem quiser melhores e mais detalhadas informações sobre o pardal, como sua controversa introdução no país, bem como sua bem sucedida difusão, poderá obtê-las neste mesmo blog, cujo link é:

http://apologo11.blogspot.com/2008/07/pardal-100-anos-de-brasil.html

FONTES (4):
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quarta-feira, 15 de agosto de 2012

AVE FOLCLÓRICA SE INSTALA NA PRAÇA BARÃO DE ARARAS

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Além de ornitólogo amador e pessoa de ouvido refinado, versado nas vozes da natureza, sou velho frequentador da praça Barão de Araras como observador de aves, de modo que qualquer pássaro novo que aparecer ali e cantar dificilmente escapará à minha atenção. Foi o que (novamente) aconteceu no sábado passado de manhã, dia 11.

Pois bem. Saindo de algumas compras na loja Seller, tão logo adentrei a praça, ouvi quatro assovios fortes e vibrantes, e disse para mim mesmo: “Tem ave nova na praça, e deve aquela tal ave folclórica!” Como quase sempre ando com uma máquina fotográfica à tiracolo, tentei localizar a ave no altos de um pé de Sibipiruna, mas nada de encontrá-la!... De repente, a ave parou de cantar e lamentei: “Mas onde esta bendita foi parar?!”
Parti frustrado, e quando já ia atravessando a praça do outro lado, eis que ela volta a cantar! Peguei a máquina e voltei à sua procura. Nisto, pude vê-la lá no alto das folhagens, e notei que parecia ser mesmo a ave que eu desconfiava – e vale dizer que eu já estava à espera dela na praça há tempos! Explico. Há cerca de 4 meses, estive em São Paulo, e em pleno centro da Praça da Sé, pude ver incrédulo esta avezinha cantando à pleno pulmões, isto como se estivesse à vontade em plena Serra do Mar! A tal avezinha era, nada mais nada menos, que a popular Jugovira, que quem mora na zona rural de Araras muito bem conhece, ou pelo menos a ouviu, que é ave impossível de não ser notada por seu canto. Me refiro ao Cyclarhis gujanensis, ave que por certas características suas tornou-se folclórica em todo o país. Quando fiz, em 1992 (abaixo), um levantamento das aves que frequentavam a cidade, desde a periferia até a zona central, ela ainda não era vista na praça Barão, e eis que, finalmente, exatas duas décadas depois, parece a Jugovira veio para ficar! Sorte nossa!



O que aconteceu à este pássaro, a ciência dá o nome de Sinantropia, ou seja, o fenômeno pelo qual um animal selvagem adapta-se ao meio urbano, lembrando-se que outras aves já passaram por isso, inclusive na praça Barão, como se deu em janeiro do ano passado, envolvendo o pássaro Ararapaçú-do-cerrado (Lepidocolaptes angustirostris), que já foi visto procriando nas praças centrais da cidade, inclusive, tendo ele um canto que chama muito a atenção, pois consiste de uma espécie de gargalhada descendente diferente de tudo o que e ouve na cidade. O que mais intriga neste fenômeno da sinantropia, é notar que, por algum motivo, motivo este que imagino ainda não desvendado, diversas aves invadiram as zonas urbanas de cidades muito distantes uma das outras, e isto, todas num mesmo lapso de tempo! Inclusive, aves de ambientes aquáticos, e arredias aí, passaram a ser vistas em movimentadas zonas centrais de cidades e em lugares onde nem mesmo há água our refúgio semelhante disponível!

Pouco maior que um pardal, a Jugovira é, no entanto, ave difícil de se ver, mas é facilmente reconhecível, pois tem o corpo verde-oliva claro, os olhos em tons que vão do amarelo ao vermelho, cabeça grande e bico grosso lembrando um pouco um bico de papagaio mais comprido.

Na época de reprodução, quem tem habilidades para imitar pássaros – como este que voz escreve – facilmente poderá atraí-la, ou pelo menos atrair as aves mais novas que não têm tanta malícia. Dois exemplares foram vistos – e podem ser um casal –, indício de que podem vir a procriar na praça este ano mesmo (de julho e novembro) e aumentar sua população, se espalhando assim para outras praças, como a da Biblioteca, do Tiro de Guerra e o Lago Municipal, onde, à esta altura, com certeza já frequenta. O naturalista Eurico Santos escreveu: “O casal vive numa harmonia perfeita e parece que deveras se amam muito. Quando um bárbaro caçador abate um dos consortes, o outro facilmente pode também ser sacrificado, porque não se afasta do local onde caiu o companheiro, procurando-o, chamando-o, numa evidente ansiosidade.” E é interessante observar o casal a se chamar mutuamente por horas à fio, enquanto se alimentam pelo arvoredo. Também ocorrem duelos de machos que vocalizam intensamente quando um se aproxima do território de outro. Abaixo, filagem da Jugovira num pé de Sibipiruna na praça Barão de Araras.



Existe desde o México, indo até a Argentina, onde o povo diz que ela canta: “Don Libório, Don Libório”, ou “Caballero, Caballero”, ou ainda ou ainda “Juan Chiviro”, nomes que remetem à sonoridade de seu canto, fato que também ocorre em nosso país. Constataram que a fêmea tem seu próprio canto e o macho apresenta oito cantos diferentes, por isto, a ave recebe um batismo diferente em cada região, como: “Tem-cachaça-aí” (Espírito Santo) ou “Pitiguari” (Pernambuco). O ornitólogo Dalgas Frisch escreveu que há pessoas que (pasmen) interpretam seu canto como “A chocolateira quebrou!”... O nome se refere ao antigo utensílio usado pelos tropeiros para fazer chá ou café. Outro nome, muito comum desde a Bahia, é Gente-de-fora-vem, e isto devido à uma particularidade sua, que, dizem, é a de cantar toda vez que vê um ser humano se aproximando do sítio, fazenda ou mata onde ele se encontra. A mesma reação se dá com anuns, quero-queros, pica-paus-do-campo e corujas-buraqueira, aves que tem aguçado senso de posse de território, e se mantém em contante alerta, dando alarme mal pressintam ameaça. Eurico Santos confirma o fato e diz que: “Na Paraíba do Norte crêem que, quando canta o Pitiguari, é certo que vai parecer visita ou, ao menos, uma boa notícia.” O folclorista Câmara Cascudo registrou outros nomes que remetem à mesma crença: “Olha o caminho, que vem gente” (Pernambuco), “Olha pro caminho, que já vem” (R. G. do Norte). Cascudo diz ainda que, em outros tempos, a ave avisava também de visitas sorrateiras em fazendas de homens tentando raptar donzelas!...
  
Sua fama levou a ser homenageada na música “Meu Pitiguari”, da dupla André & Mazinho, e também pelo violonista mineiro Tavinho Moura em “Gente-de-fora-vem” (da trilha sonora do filme “Noites do Sertão”). Curiosamente, “Meu Pitiguari” é o nome de uma companhia de danças de Santa Catarina, e “Gente-de-fora-vem” o de um grupo de teatro baiano.
  
Naquela vez em São Paulo, lembro-me que pensei comigo: “Mas, caramba, se a Jugovira existe no centro dessa loucura que é a paulicéia, porque não ocorre lá na calma praça Barão de Araras?! Daí, imagine-se naquele sábado a minha alegria ao encontrá-la finalmente frequentando a nossa velha praça! E, pensando bem, vai ser ótimo vê-la fixar-se ali, pois é ave que canta todos os meses do ano, tem repertório diversificado e volume muito alto de voz, tanto o é que naquele dia flagrei diversas pessoas na praça tentando ver quem fazia aquela cantoria toda. E isso enriquece muito a nossa praça: novos animais, novas vozes! Portanto, daqui para diante, se você estiver na praça Barão e gostar de observar os pássaros ali existentes, não precisará se esforçar muito para notar um canto alto e vibrante no alto das árvores, diferente de tudo que se está acostumado a ouvir pela cidade, e poderá conhecer então a lendária Jugovira, que provavelmente, ao te ver por ali, vai cantar dizendo “gente-de-fora-vem, gente-de-fora-vem!”...

Mas, enfim, é bom ver o Jugovira dividindo a cidade conosco? Sim e não. Do lado bom, desnecessário dizer. Do ruim, quase todos os seus antecedentes poéticos cairão por terra, e os seu histórico folclórico se anula na cidade: o seu canto misterioso se dilui em meio aos ruídos urbanos, e poucos ouvirão e entenderão os seus apelos “gente-de-fora-vem, gente-de-fora-vem!”, “gente-de-fora-vem, gente-de-fora-vem!”...

Jugovira, desde já, seja bem-vinda à nossa secular praça Barão de Araras, e que você procrie e cante muito aí!!!

Veja aqui outra ave folcórica que passou a frequentar a praça Barão em 2003, a belíssima Lavadeira!


PARA SABER MAIS:
Textos e fotos:
http://www.wikiaves.com.br/pitiguari
Ouça e memorize seus cantos:
http://www.xeno-canto.org/browse.php?query=cyclarhis+gujanensis