sábado, 11 de abril de 2009

CHEIRO ELETIVO – ENTENDA ALGUNS INSUSPEITOS MOTIVOS DO PORQUE DE MUITOS CASAIS NÃO SE COMBINAREM



"A infância, a adolescência, a mocidade, a saúde e
a beleza sempre cheiram bem. A aca, o bodum, a
catinga, o xexéu, a inhaca, o chulé e o fartum são os
fedores corrompidos da maturidade, da velhice, do
desgaste, da doença, dos pré-cadáveres. O cheiro do
corpo normal é parte do halo sexual das criaturas. O
corpo humano, na sua superfície e cavidades acessíveis
é tão profundo e complexo como a alma que dizem que o
habita como sopro de vida ou divino. Ambos são difíceis
de explorar; mas o primeiro tem de sê-lo com todos os
sentidos: tacto, vista, gosto, ouvido, olfato. Os cheiros
do macho ou da fêmea são viceversamente afrodisíacos."
(Galo das Trevas. Pedro Nava. 1981)


No final da década de 1980, comprei uma revista de Psicologia – da qual hoje só me resta uma xerox–, onde havia uma curiosa matéria denominada Eros versus Tanatos, de autoria de tal de U. R. Num de seus tópicos, o articulista comentava sobre a teoria da afinidade eletiva (isto é, de eleição, de escolha, de aceitação), afirmando que ela é de origem psicológica: gostamos de estar na companhia de quem gosta de estar conosco, gostamos de conversar com quem tem gostos e idEias semelhantes às nossas. Esta atração pode ser de dois tipos: circunstancial ou essencial. Exemplo de afinidade circunstancial: a que se estabelece entre dois poetas, dois bêbados, dois esportistas. Ela decorre do interesse por questões de auto-satisfação: servimo-nos da companhia de alguém em busca de bem-estar, para se completar e sentir o prazer da convivência. Já a afinidade essencial é mais rara: ela extravasa do psiquismo para se radicar na pessoa em toda a sua plenitude – ela não é apenas psíquica, mas psicofísica, uma vez que nossas emoções têm bases químicas.

A matéria comentava também a teoria do “cheiro eletivo”, cujo autor é o sexólogo alemão Fritz Kahn (1888-1968, foto), que escreveu o clássico livro “Nossa Vida Sexual” (1939). De acordo com esse conceito, um casal deve, antes de tudo, “cheirar-se um ao outro”. Segundo ele, há moças lindas que permanecem solteiras porque o seu “cheiro” a ninguém agrada e em ninguém encontra correspondência. Por outro lado, quando há afinidades no cheiro de ambos, essa química entre homem e mulher poderá mantê-los em união permanente, mesmo que haja ausência de afinidades psicológicas. Quando a união se complementa positivamente com esse último ingrediente, tem-se o chamado “casamento de eleição”. 


No entanto, acho que o Fritz Khan afirmar que há moças lindas que permanecem solteiras porque o seu “cheiro” a ninguém agrada, é colocação indevida. O correto seria ter escrito “pessoas” e não “moças lindas”, já que o cheiro independe do sexo e da beleza da pessoa.

Como se vê, essa teoria guarda relações com a supracitada teoria da “afinidade eletiva”, a mesma que batizou uma obra do escritor, poeta e filósofo Johann Wolfgang Goethe (1749-1832, gravura), o famoso livro “As Afinidades Eletivas” (1809).


OLFATRÔNICA, UMA CIÊNCIA ESQUECIDA?

Num exemplar de 9 de janeiro de 1969 da revista Fatos e Fotos, encontrei uma reportagem com assuntos envolvendo olfato e odores. À título de curiosidade, vou comentar os trechos pertinentes ao tema. 

Dizia ela, embasada em pesquisas levada à cabo por uma nova ciência, a Olfatrônica, que o homem emite cerca de 100 substâncias sob a forma de vapores, e que as pessoas sempre deixam uma parte de seu cheiro nos lugares em que passam ou frequentam, e desses 100 vapores, 30 a 50 são comuns a todos nós. 

As pesquisas foram empreendidas pelo Dr. Andrew Dravnieks (1912-1986), então chefe do Departamento de Olfatrônica do Instituto de Pesquisas Tecnológicas, e um dos pioneiros em diversos campos de estudos relativos a olfato e odores. Segundo ele, “o retrato olfatrônico de uma pessoa é formado pelo desenho ou pelo padrão das substâncias específicas dela emanadas.”

Dizia ainda a reportagem que

“Como todos os odores humanos resultam de processos biológicos, as alterações nas assinaturas olfatrônicas poderão alertar os médicos para determinados distúrbios, prevenindo doenças, muitas delas de alta gravidade. Já se sabe que os centros médicos mais avançados usam o olfato no preparo de diagnósticos e que cerca de 50 condições patológicas estão associadas a odores.”

Dizia ainda que “um dos fatores que mais alteram o retrato olfatrônico é a dieta alimentar”, e que “os perfumes não abalam o registro olfatrônico.”


A HIPERSENSIBILIDADE OLFATIVA NUM TEXTO LITERÁRIO


O escritor Luís Jardim (1911-1987, gravura), numa das curiosas passagens de seu livro ótimo de memórias, "O meu pequeno mundo" (1976), descreve com minúcias as complicações que teve desde a infância com seus problemas de hipersensibilidade olfativa, destacando-se o fato de o quanto o distúrbio complicou-lhe a vida social e afetiva:


“Às vezes admito, em vagos instantes de bom devaneio, que lhe sinto o cheiro resinoso que vem de longe. Vem do distante onde mora a impossível saudade – a saudade que se misturou com as coisas mortas.
O cheiro travoso do meu querido Cajueiro... Em relaçäo a cheiro fico cheio de curiosidade. Indeciso mesmo, reavivando lembranças do meu passado infantil, estranho, triste e atrapalhado, porque entre as minhas esquisitices avultaram os cheiros. Era, e ainda é hoje, e bastante, como se eu tivesse um instinto meio canino. Realmente, näo era pelos olhos que eu orientava as minhas paixöes – simpatia e antipatia, de modo particular. Digo a verdade: era pelo olfato. O julgamento que no meu íntimo eu fizesse de quem quer que fosse, dependeria do cheiro que eu sentisse. Como me afastava de pessoas que recendessem forte ou das que, pior ainda, tresandavam cheiros acres! O vinagre me causava repugnância, assim como o cheiro de sola, razão por que jamais me acerquei da tendinha onde Dona Sapateira trabalhava. Suor antigo, embebido em camisa de menino ou homem, em blusas de menina ou mulher, obrigava-me a que eu tivesse de quem as vestia uma impressão restritiva: mau gosto, porcalhões, faltos de inteligência, provocadores das narinas alheias. Para lavar essa primeira impressão, desprimorosa, era preciso tempo, certeza de que água e muita água enxaguara os panos de mau cheiro.
A partir de oito ou nove anos, época dos primeiros namoros inconsequentes, jamais me engracei de nenhuma menina sem antes me aproximar dela para sentir-lhe o odor. Muita paixão se derreteu, uma me deixou longa lembrança, mas por infelicidade a graciosa menina encheu-se de perebas, e o enxofre foi o remédio que lhe aplicaram. O odor sulfúrico incompatibilizou-me de tal maneira com essa menina, que passei a detestá-la, como se a garota fosse um diabinho de saia com o mau cheiro infernal das lendas.
Nenhuma força ou autoridade me obrigaria a pegar em candeeiros de querosene. Certa vez, não sei como, sujei as mãos de gás, como se chamava querosene. A consequência foi a presença imediata de Joca, o farmacêutico irmã de Seu Veloso, meu tio afim, para me dar remédio forte que estancasse os meus vômitos incoercíveis. De tanto vomitar, acabei tendo uma sincope.
De onde me veio essa repugnância olfativa, essa idiossincrasia, se nenhum ascendente meu em tempo algum demonstrou sinais de ojeriza mórbida? Nasci assim, talvez, com a vida complicada como previra a minha Nanã. Poderia também ser antecipação da asma, que já se manifestava, obrigando-me a roncar como um gato. A asma passou – eu já com uns dez anos – e qualquer que tenha sido a causa dessa estranha anomalia, dela ficaram fortes resquícios que até hoje me indispõem, física e moralmente, contra certos cheiros.
Reluto ainda agora, fiel às minhas esquisitices de criança, com a ideia de que o bonito possa cheirar mal, assim como conservo a noção antiga de que beleza tem relação ou é forma objetiva de bondade.
(É preciso esclarecer desde já que as palavras, digamos adultas, que emprego hoje e tentam exprimir os meus sentimentos, as minhas impressões e reações de menino, correspondem – é compreensível – ao estranho que já pairou, vagueou no íntimo do garoto complicado que fui. Paradoxalmente, sofro ainda hoje, já velho e a finar-me, a herança de mim mesmo, representada por esquisitices e atitudes que nÃo me facilitaram, ao contrário me atrapalharam bastante a vida. Não sei se diga bem, mas sinto que a minha sombra escura de menino não larga o adulto que sou. Nasci predestinado a tarja quase permanente.”) 


NOVIDADES

Recentemente, numa matéria publicada pela revista Veja, em maio de 2008, intitulada "A genética da paixão - A ciência começa a desvendar um dos mistérios do comportamento humano: a escolha do parceiro amoroso", voltei a ter novidades sobre o assunto. A articulista da revista, a certa altura, perguntava:

“Por que nos apaixonamos por determinadas pessoas e não por outras? Quais os mecanismos que deflagram a atração por alguém?”

Na matéria, eram apresentadas “novidades” científicas que provavam que por trás da beleza da pessoa desejada, há outras coisas que pesam muito na escolha de uma companhia ideal, ainda que a maioria das pessoas não se dêem conta disso, ou, pelo menos, não lhes dê a devida atenção. Acontece que algumas destas “outras coisas” já era conhecida dos antigos, e foram estudadas há muito tempo atrás, como os estudos do sexólogo Fritz Kahn. As citadas pesquisas recentes revelaram que a atração romântica e sexual é despertada não só pelos quesitos beleza física, charme pessoal e inteligência, mas também por mecanismos mais complexos. São processos que, além de envolver os cinco sentidos, incluem também o sistema hormonal e, principalmente, a predisposição genética peculiar de cada ser humano. E essas características só são descobertas e analisadas depois que um homem e uma mulher ultrapassam o estágio crucial da descoberta da atração mútua.


Sabe-se que o ser humano separou-se de outros animais ao comunicar-se de forma verbal, emitindo conceitos, raciocinando por analogia, e isto resultou na diminuição de diversos sentidos seus – ele possui olfato, visão e audição pouco sensíveis, sendo que o olfato é o menos apurado. Este seria, a grosso modo, o motivo de a maioria das pessoas não levarem seus cheiros e sabores em conta na hora de se elegerem como parceiros.



VIVÊNCIAS PESSOAIS

Tomando-me como exemplo dessa questão de afinidade de cheiros, lembro-me que, na virada das décadas de 80/90, larguei de uma namorada, pois o cheiro natural dela, de certo modo não me agradava, e não estou dizendo que ela cheirava mal – era questão de compatibilidade química,mesmo. E mais, nem o sabor do beijo dela me agradava, e repito, não era questão de higiene bucal nem má conservação de dentes.

Lembro-me de um amigo que me disse, certa vez, que dois tios seus que moravam na roça, gostavam do cheiro natural um do outro, e, por isso, dispensavam o uso de sabonete e perfumes: a mulher, dizia que o marido cheirava à goiaba, e ele, dizia que a mulher também tinha aroma de fruta, mas eu não me recordo qual. Lembro-me que tive namoradas que tinham um cheiro natural delicioso, e era muito bom ficar abraçado à elas, cheirando-as...

Certa vez, eu disse à um cunhado meu que, estando eu com os olhos vendados, reconheceria (e reconheço mesmo) uma namorada em meio à dezenas de outras mulheres só pelo cheiro. Ele riu de mim e disse que isso era impossível. Eu respondi: – “Então, acho que você não deve conhecer muito bem a sua esposa...”

A má higiene, do mesmo modo que os perfumes, pode “esconder” o cheiro natural de uma pessoa – obviamente, uma pessoa má asseada, com o corpo contaminado por resíduos estranhos, tem seu cheiro natural alterado de modo a não ser possível, às vezes, reconhecer seu cheiro, diríamos, original. A alimentação também conta muito no cheiro corporal. Eu mesmo, certa vez, tomei cápsulas naturais de óleo de alho, bem como cápsulas de complexo B, com a finalidade de espantar insetos pois ia acampar, e, na época, meu pai me disse que eu estava com um cecê danado – problema que jamais tive. Foram as benditas cápsulas!...

Quando trabalhei em São José dos Campos, conheci uma menina lindíssima e me apaixonei por ela – trabalhávamos lado a lado, até que chegou o verão... A garota suava às bicas, deixava marcas de suor em sua camiseta branca, e o cheiro era forte, e não era por questões de higiene – era condição natural de si mesma. Final das contas: desisti da garota. Por outro lado, a vi namorando dois sujeitos pelo menos, no tempo em que morei em São José. Numa empresa em minha cidade, Araras/SP, trabalhei com um chefe cujo suor cheirava à urina e, repito, não era falta de higiene, além disso, ele namorava uma garota da mesma empresa. Fica pergunta: Será que, em ambos casos, eles não sentiam este cheiro “anormal” de seu parceiro, ou o cheiro não os incomodava? A genética talvez responda este mistério. Mas lembremos que existem pessoas com olfato (ou o paladar) tão privilegiado e sensível, que essa qualidade pode virar uma rentosa profissão se elas souberem aproveitá-la. Assim, essas pessoas podem vir a se tornar requisitados profissionais como provadores de perfumes, cafés, queijos e vinhos. Eu mesmo, tenho um olfato tremendo, e talvez seja essa minha “qualidade” que me faz sentir cheiros que talvez poucos sintam...


CASOS HISTÓRICOS


Sabe-se que o imperador francês Napoleão Bonaparte (1769-1821, gravura ao lado), quando estava voltando de alguma campanha no exterior, mandava avisar com antecedência sua bela esposa Josefina de Beauharnais (1763-1814, gravura abaixo), que estava chegando a cidade e que era para ela não tomar banho até ele voltar. O libidinoso general queria que ela assim procedesse de modo a recebê-lo com seu cheiro natural de mulher...

Há quem veja nisto um pouco de exagero e excentricidade do imperador, mas é uma realidade para para certas pessoas. Cá no Novo Mundo, curiosamente, a história nos diz que, na época do descobrimento, era uma situação assaz desagradável para os nossos índios (que normalmente tomam banho diariamente), receberem os portugueses mal-cheirosos, com toneladas de roupa ensebadas, sem tomar banho há meses em suas caravelas!


AINDA AS NOVIDADES

A mesma matéria publicada na Veja, citada anteriormente, entrou fundo nestas questões endócrinas e comportamentais. Eis o trecho publicado com o assunto que nos interessa:

“Prosaico como possa parecer, o cheiro – não o dos perfumes, mas aquele que o corpo exala naturalmente – também serve como um filtro na escolha do parceiro ideal. Entre os muitos genes que influenciam o funcionamento do sistema imunológico está o chamado complexo de histocompatibilidade (MHC, na sigla em inglês). Esse grupo de genes, presente em todas as espécies de mamífero, codifica as proteínas que agem no sistema imunológico. Quando essas proteínas são secretadas via suor, deixam um odor característico. No caso de o MHC dos pais ser muito parecido, há risco de a gravidez ser interrompida. Pesquisas com ratos provaram que, ao cheirarem a urina uns dos outros, eles evitam copular com os que têm MHC semelhante. Um estudo da Universidade de Lausanne, na Suíça, mostrou que o mesmo ocorre com humanos. Os autores do trabalho pediram a um grupo de mulheres que cheirasse camisetas usadas por homens durante duas noites, sem a influência de desodorantes ou perfumes, e apontasse qual odor mais lhe agradava. As mulheres preferiram o cheiro de homens com o conjunto de genes ligado ao sistema imunológico diferente do seu. O MHC está presente também na saliva. Em conseqüência disso, os beijos trocados entre homens e mulheres, sem que eles saibam, podem atuar como um teste para verificar se o MHC de cada um é adequado a um relacionamento que inclua a constituição de uma prole. 'E como se a evolução direcionasse as espécies a formar casais capazes de gerar descendentes imunologicamente mais aptos', explica a geneticista Maria da Graça Bicalho, coordenadora do Laboratório de Imunogenética da Universidade Federal do Paraná. Aos poucos, o estudo dos genes mostra como nos movemos para eleger o parceiro ideal.”



CONCLUSÕES E DICAS

Curioso e surpreendente, não é, amigos? Então, daqui para a frente, para o meu, o seu e o nosso próprio bem, manda a conveniência que, honrando nossos instintos ancestrais, lancemos mão dessas propriedades organolépticas “adormecidas” que normalmente passam despercebidas de nós, como o olfato e o paladar. Então, cheiremos previamente a pessoa que desejamos ter como companheira para o resto de nossos dias, bem como a beijemos com mais atenção, atentando para as sutilezas que ambos os atos implicam, fazendo-o como quem cheira e prova um vinho finíssimo. Recomendo também, para quem já namora, que preste mais atenção ao cheiro de sua companhia depois de um banho de ducha, rio ou mar, isto, sem que ele tenha o seu cheiro natural embotado por sabonetes, protetores solares, repelentes e outros artifícios. Assim, amigos, o verdadeiro cheiro da pessoa que você elegeu para sua companhia poderá ser sentido em toda a sua plenitude.



Fontes (7):
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