terça-feira, 10 de março de 2009

A DOENÇA DO MOVIMENTO ou NÃO ME ENGANA QUE EU NÃO GOSTO

"I Feel The Earth Move"
(Carole King)

“É certo que a percepção é ativa: continuamente 
extraímos padrões dos objetos que enxergamos, 
aguardando por uma comparação adequada.”
(REALIDADE. Os Neurônios. Nº 69, dez. 1971)

“...os olhos são comandados pelo cérebro,
e que esse, quando não entende uma
imagem, ou não está interessado em vê-la,
encontra o famoso ‘jeitinho’ para transformá-la
 em algo aceitável ou compreensível.”
(SAÚDE, set. 1987, Nº 48, pág, 41)


Quem não gosta de ilusões visuais e de desvendar os misteriosos mecanismos cerebrais? Eu sou um deles, curioso que sou desde menino pelas maravilhas da ciência! Vamos, então, a um desses casos que me intrigou desde menino.

Sempre que estou em uma rodoviária dentro de um ônibus esperando ele partir — estando ele ladeado por um ou dois ônibus —, se, por acaso, um destes ônibus começa a dar ré para partir, meu corpo reage como se o meu próprio ônibus estivesse partindo, e como não o é, isto me causa um mal-estar atípico, uma espécie de enjoo, quase vontade de vomitar. É um sintoma muito estranho, já que os olhos veem uma coisa e o corpo sente outra... Vale lembrar que neste, momento, estou concentrado em minha leitura, e se noto algo se movendo nos entornos, é com a visão periférica que percebo a movimentação. Quando a nossa visão periférica ─ que nos permite olhar de soslaio, como se diz: com o "rabo dos olhos" ─ capta o movimento que se desenrola, "por engano" são ativados mecanismos no cérebro que detectam essa movimentação. Uma matéria publicada na revista Mundo Estranho (julho 2009) sobre ilusões de ótica, comentava ao analisar uma ilustração Vale das Espirais Giratórias), cujas figuras pareciam se mover ao se passar os olhos sobre ela: 

"Esta sensação apurada da visão periférica foi muito importante ao longo da evolução de nossa espécie, funcionando como um alerta em relação à presença de presas ou de predadores."

Eis aí mais um dos casos entre a velha disputa entre percepção e ilusão, um caso de desorientação espacial, onde o envio de informações ao cérebro ocorre de modo equivocado.

Até então, tentando descrever o que eu sentia nestas situações, eu pensava que meu cérebro, ao receber estímulos visuais e sonoros, crendo que o ônibus que partia era aquele onde eu estava, reagia como se assim o fosse, e, uma vez equivocado, ficava incapaz de processar normalmente as informações tornando-se “confuso”, o que acabava por provocar o mal-estar. Esse mal-estar seria então provocado por uma falsa situação, num cérebro que fora enganado num estado de comportamento automático inconsciente. Explicando melhor, o movimento do ônibus vizinho era um estímulo visual que iludia meu cérebro, quebrando a ligação existente entre a autoconsciência e o corpo físico; assim, numa espécie de conflito multissensorial, meu sistema nervoso entendia o movimento do ônibus em que eu estava como real, mas, na verdade, não era o que acontecia, daí...


O QUE DIZEM OS CIENTISTAS

Acontece que, lendo recentemente um artigo da neurocientista Suzana Herculano-Houzel (foto), da UFRJ, pude confirmar as minhas ideias que comentei anteriormente. No artigo, Suzana afirma que os enjoos são originados no cérebro e não no estômago, como a maioria das pessoas pensa. Ela explica que o órgão sensorial se comporta como se estivesse recebendo informações espaciais contraditórias. Enquanto os olhos enxergam um movimento, o labirinto, que é responsável pelo equilíbrio do corpo, percebe outro, o que gera uma reação conflitante podendo acarretar enjoos e tonturas. Normalmente, os olhos captam informações visuais que contam ao cérebro, por meio do labirinto, onde o corpo está e em que direção se movimenta. Certas atitudes, como a leitura no carro em movimento, podem confundir o sistema nervoso sobre os dados recebidos dos olhos, ocasionando o enjoo. Hoje, sabe-se que um labirinto mais sensível é susceptível à vertigens.

Lendo também um outro artigo, de autoria do biólogo Fernando Reinach, colhi outros subsídios que complementaram as informações da neurocientista Suzana e me permitiram aprofundar mais ainda neste, diríamos, autoconhecimento biológico. 


Em seu artigo, Reinach (foto) discorria sobre o futebol e o sistema visual humano (SVH). Surgidos há centenas de milhões de anos, esse sistema foi evoluindo e se tornou mais rápido e sofisticado nas tarefas para as quais foi designado. Esse sistema permite que nosso cérebro, observando os movimentos das coisas ante nossos olhos, faça cálculos e seja capaz de ajustar nosso corpo à situação se necessário. Nosso sistema visual considera o corpo que habita como marco zero e ponto de referência. Reinach afirma que com o

“E“desenvolvimento do pensamento abstrato, nosso cérebro passou a dispor de dois mecanismos para compreender o mundo. Um, primitivo, baseado nas informações dos sentidos; outro, capaz de entender o mundo de forma analítica.”

No entanto, o cérebro humano tem dificuldade em aceitar conceitos abstratos que se chocam com observações diretas dos sentidos, e SVH, apesar de eficiente e rápido, é péssimo quando se trata de imaginar movimentos de um ponto de vista que não seja o nosso. Para exemplificar, Reinach cita como exemplo o movimento aparente das estrelas, assim entendido pelo cérebro primitivo, e diz que o analítico é quem foi capaz de descobrir o movimento de nosso planeta, que gira no sentido de oeste para leste, e esse movimento de rotação cria a ilusão de que são as estrelas é que se movem no céu, indo de leste para oeste.

Numa reportagem publicada na revista Isto É (5-5-2010), cujo tema eram os danos causados à saúde pelo uso de imagens 3D, encontramos uma ótima explicação sobre o fenômeno:

“Estes incômodos são reflexos do esforço que o cérebro faz para entender e se ajustar ao que se está vendo e ocorrendo. Eles são mais comuns em pessoas que têm o labirinto — estrutura envolvida no equilíbrio — mais sensível. 

1- O sistema proprioceptivo (composto por receptores presentes em músculos e articulação) informa sobre os movimentos realizados;

2- O sistema vestibular (estruturas do ouvido interno) informa a direção dos movimentos. Por exemplo, se acontece de cima para baixo.

O cérebro entende como conflitantes as informações. Por exemplo: a visão indica que há movimento, mas o labirinto não. Tonturas e enjoos são consequências desse 'desentendimento'. Além disso o cérebro precisa se esforçar mais para conseguir obter a sensação de profundidade proposta pela tecnologia. Isso sobrecarrega o órgão, podendo causar fadiga visual e dores de cabeça." 


UM CASO SUPREENDENTE

O célebre aviador Charles Lindbergh (1902-1974), em seu livro A Águia Solitária (1928), onde narra sua pioneira travessia do oceano Atlântico, ocorrida entre os dias 20 e 21 de maio de 1927, em certo trecho comenta um desses conflitos envolvendo desorientação espacial, que costumam ocorrer em determinadas condições de voo, como, no caso, o chamado "voo cego":


“Estes incômodos são reflexos do esforço que o cérebro faz para entender e se ajustar ao que se está vendo e ocorrendo. Eles são mais comuns em pessoas que têm o labirinto — estrutura envolvida no equilíbrio — mais sensível. "Depois manterei meu curso, permanecerei sobre a camada de estratos da tempestade e abrirei um túnel através dos cúmulos que se erguem diretamente em minha rota. Uma coluna de nuvens priva-me da visão das estrelas à frente, espalhando-se pela parte alta como um enorme cogumelo brotado sobre o céu. Aperto bem o cinturão, faço descer um pouco o nariz e ajusto o estabilizador para voo nivelado. Nos minutos que medeiam enquanto me aproximo, faço o preparativo mental e físico para o voo cego. 

O corpo há de ficar severamente inteirado de que o espírito vai tomar o comando. Os sentidos devem ser convocados e postos em linha na mais estrita disciplina, enquanto a lógica ocupa o lugar do instinto como comandante. Se o corpo tem a sensação de que cai uma das asas e a mente afirma que não é assim (porque a bola e a agulha do indicador de giros continuam centradas no lugar devido), devem os músculos obedecer à decisão do espírito, por mais disparatada que pareça. Se os olhos imaginarem ver o fulgor de uma estrela embaixo, onde pensam que deveria estar o horizonte, se os ouvidos advertirem que o ritmo do motor é demasiado lento para o voo nivelado, se os nervos afirmarem que a pressão do encosto do assento está aumentando (como acontece numa subida), mesmo assim as mãos e os pés devem ainda obedecer às ordens da mente. 
Ela também efetua um esforço tremendo quando, desprezando os instintos corporais a que esteve muito tempo obedecendo, se vê obrigada a seguir a mecânica imparcialidade de umas agulhas que percorrem seus quadrantes. Por séculos incontáveis acostumou-se a fiar nos sentidos, capazes de manter o corpo erguido em meio da noite mais escura e adestrados a recuperar instantaneamente o equilíbrio a qualquer tropeço. Ainda privados da vista, são susceptíveis de manter a estabilidade do cego. Por que, então, haveriam de ser tão impotentes num aeroplano?"

CONCLUSÕES

Então, baseando-me nestas considerações, estando eu sentado num ônibus que meus olhos dizem estar em movimento, os dados sensoriais capturados por eles são enviados ao SVH, que tentam coordená-los. Apesar de meu sistema analítico compreender o engano – que não é o ônibus vizinho que se move –, o sistema primitivo insiste em me informar que o ônibus onde estou é o que se movimenta. Daí, as estruturas citadas, procurando fazer os ajustamentos posturais, ante a confusão de dados confrontados, provocam a sensação de vertigem. Enfim, poderia dizer que esse conflito se assemelha a uma espécie de timing, onde o “tempo” da visão” é diferente do “tempo” do labirinto. O que mais estranha neste fato é que, diria, estou sempre caindo nesta "cilada", sendo novamente enganado por ela sempre que uma nova situação semelhante aconteça. Uma reportagem publicada na revista Saúde (set. 1987) cita que “Conhecer o truque de uma ilusão não imuniza contra ela.”  Diz ainda que “os olhos são comandados pelo cérebro, e que esse, quando não entende uma imagem, ou não está interessado em vê-la, encontra o famoso ‘jeitinho’ para transformá-la em algo aceitável ou compreensível.”

Em suma, nosso sistema visual, que por milhões de anos foi selecionado para acompanhar o movimento dos objetos, está acostumado, diríamos, à uma rotina realista e essas situações aparentes induzem-no à erros de processamento de informação visual, forçando-o à um alerta inconsciente que provoca sensações desagradáveis quando ele fica “confuso”.


OUTROS "MALES" ALGO SEMELHANTES

Existe um fenômeno fisiológico que causa um mal-estar algo semelhante, chamado doença do movimento, ou cinetose, que é aquele enjoo que acontece ao se viajar em barcos em alto-mar, devido aos mesmos conflitos sensórios de interpretação do cérebro, mas já viajei em alto-mar e, felizmente, jamais sofri o mais leve enjoo. 


O astrônomo Carl Sagan (foto), em clássico seu livro Dragões do Éden (1978), Prêmio Pulitzer – para muitos a mais bela obra do autor –, cita numa passagem, uma dessas curiosas “peças” que o cérebro nos prega:



“Crises convulsivas (...) têm sido relatadas quando um paciente epiléptico está dirigindo um automóvel ao pôr ou ao nascer do sol ao longo de uma cerca de estacas pontiagudas entre ele e o sol: a uma determinada velocidade, as estacas interceptam o sol na exata velocidade crítica capaz de produzir uma oscilação na frequência ressonante para iniciar tais crises.”

Sagan, provavemente se referia ao fenômeno epilético descrito pela primeira vez pelo Dr. Marcel Lapipe, então médico do Hospital Sainte-Anne, de Paris, fenômeno este considerado “insólito, mas verossímel”, usado para explicar uma série de mortes estranhas em acidentes de trânsito na Rodovia 7, entre Briare e Montargis (ambas, comunas francesas), acidentes recorrentes que mataram inúmeros membros da família Michelin entre 1937 e 1949:

“Um indivíduo que recebe nos olhos 10 flashes por segundo entra em crise, se é predisposto à epilepsia. Quando o sol se põe atrás da fileira de árvores da Rodovia National 7, um automobilista que vá a 120 quilômetros por hora, recebe, pelo jogo de sombra e claridades, entre os troncos e as ramadas, 10 flashes luminosos por segundo.”


EPÍLOGO

Não, amigos, definitivamente eu não sofro de crises convulsivas, tampouco da doença do movimento diante de ilusões visuais. E, neste último caso, o meu problema não é com veículos aquáticos e a água, melhor dizendo, com o vaivém das águas, mas tão-somente com ônibus e carros – e eu sentado num banco ou poltrona, lendo ou olhando para fora da janela –; aliás, sempre tive o costume de ler dentro de ônibus e carros e sempre sentia mal-estar, mas isto são páginas viradas na minha vida – de tanto insistir, meu corpo se adaptou. No entanto, a ilusão do falso movimento e o sintoma do enjoo ainda persistem; na verdade, penso que eles surgiram depois que o meu cérebro concordou com minha insistência em ler dentro de veículos em movimento. 

Leitor voraz que sou – e, no caso, aquele que perde o ponto onde devia descer –, meu corpo tinha mais é que se adaptar mesmo, para fazer jus à essa necessidade inata de ler em qualquer lugar de que “padeço”, seja em pé numa fila, seja andando pelas ruas, no banheiro etc. Às vezes penso que meu dia deveria ter 48 horas, só para poder passar metade deste tempo lendo, mas... 


Enfim, não sei de alguém que após saber que as estrelas não se movem, sentiu tonturas com a rotação da Terra, sujeito do tipo maluco beleza – “Pare o mundo que eu quero descer!”, mas, brincadeiras à parte, imagino que o acontece com meu cérebro, nestas situações dentro de ônibus, deve ser um protesto seu, que ainda guarda memórias do tempo em que eu não podia ler com veículos em movimento – hábito que, decididamente, não lhe fazia bem –, e hoje, nos momentos de ilusão de falso movimento veicular, ele deve bradar lá no seu íntimo: – “Não me engana que eu não gosto!”



BIBLIOGRAFIA:  11 fontes; 
contatar o autor.
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sábado, 28 de fevereiro de 2009

OS SÁBIOS, E SUAS SÁBIAS RESPOSTAS...

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Sempre gostei de colecionar fatos curiosos sobre as pessoas que admiro, imaginando que um dia eles tivessem alguma serventia. O advento dos blogs veio viabilizar essa minha idéia. Assim, trago hoje duas histórias interessantes e semelhantes que aconteceu com dois dos maiores gênios da humanidade.

Esta curiosa passagem, se deu com o compositor Beethoven (1770-1827). Nela, podemos notar que o gênio, sabiamente, se poupou de explicar inutilmente sua arte à uma pessoa leiga e inconveniente, por sinal, uma condessa...

Conta-se que, certa vez, quando ele executava uma de suas sonatas, uma condessa que o ouvia lhe perguntou:

- "Muito bem, mas o que quer dizer com isso?"
Ele tornou a sentar-se ao piano e repetiu a peça. Ao terminar, explicou:
- "Isto mesmo"


Com o pintor e escultor Michelangelo (1475-1563) se deu fato semelhante, e ele também se esquivou com maestria da pessoa importuna, desta vez um papa...

Quando o grande mestre renacentista começou a pintar a capela de Sistina, como trabalho fosse demorado e houve imprevistos no percurso, o papa Julio II começou a pressionar o artista para ver a pintura. Esse diálogo entre os dois que ficou célebre:

- "Quando vai terminar" perguntou o papa.
- "Quando tiver terminado" - respondeu ele.

Ambas as histórias nos ensinam que, muitas vezes, ao lidar com gênios, todo cuidado e semancol é pouco, ou, como o Paulo Henrique Amorim já disse sobre o Romário: "tolere o gênio"... Na verdade, gênio mesmo do futebol é só o Pelé. Aliás, nem o Maradona é gênio, que, enquanto o Pelé se promovia com Vitasai, o argentino ia de cocaina...
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quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

HÁ QUASE 70 ANOS, O PARDAL CHEGAVA À ARARAS

Analisando as pessoas desse velhos tempos, há pouco mais de 60 anos atrás, é difícil acreditar que alguém pudesse ter sua atenção despertada por um simples e exótico animalzinho alado chegado pela primeira vez a cidade, a ponto de, anos depois, registrar o fato num jornal. Mas foi o que aconteceu, e, no mínimo, a pessoa devia ter uma relativa queda por pássaros.

Foi nesta época que, dando continuidade à sua ferrenha e vitoriosa bioinvasão, um novo pássaro originário do Oriente Médio começava a se espalhar pelas cidades do interior paulista. Como vinha ocorrendo desde 1903 à partir do Rio de Janeiro, onde fora introduzido, esse pássaro estrangeiro aportava em nossa cidade, e o fato não passara em branco para um atento articulista de um jornal local, que por uma feliz iniciativa, registrara o acontecimento numa breve crônica, apesar de o fazer mais de uma década após o acontecido. Explica-se: na época, o observador era um aluno de grupo escolar.

Antes de mais, nada, gostaria de informar que o que escrevi aqui, só foi possível devido ao fato de ter ganho um valioso presente, que me fora ofertado por um velho amigo das letras, o professor e escritor Alcyr Matthiesen, uma coleção completa de um extinto jornal ararense que, de cabo a rabo, eu já pesquisara anos atrás. O que não me conformo é que a citada crônica de onde retirei as informações para redigir este post, eu não descobrira durante estas pesquisas e passei batido por ela, logo eu que sou que sou tão meticuloso e atento...

Mas, afinal, de que pássaro estou falando?

No distante 1941, o popular e cosmopolita pássaro conhecido como pardal (Passer domesticus), chegava à cidade para ficar, e o já citado articulista, cujo nome era João das Neves, em sua coluna no Jornal de Araras denominada Bilhete de Araras, rememorava o “feito”, registrando a histórica data numa singela e simples crônica. No entanto, eram passados 13 anos do fato, mas mesmo assim, João das Neves, em 11 de março de 1954, registrava para a posteridade o curioso acontecimento.

Não se sabe se o pardal viera sozinho, ou em bandos, como era de se esperar – se é que alguém esperasse... O que João das Neves vira fora apenas um discreto casal que timidamente aportava na cidade... Mas qual fora o lugar que ambos buscaram para estabelecer domicílio na pacata cidadela de então? Seria um arbusto, uma árvore ou um buraco num barranco, como era de se esperar de um pássaro? Nenhuma das alternativas – não fugindo às suas natas tendências sinantrópicas, o casal forasteiro escolhera uma boca de jacaré – uma dessas tubulações que escoam a água das chuvas, nos altos do telhado daquela que é a primeira, e única de então, escola pública de Araras, o “Grupo Justiniano”. Será que ali, num estabelecimento de ensino, os pardais obteriam melhores informações sobre a pequena cidade que escolheram para se fixar?


Na foto, uma reconstituição que fiz do casal na “boca de jacaré”, remetendo ao ano de 1941.


João das Neves, na época, era aluno desta escola, e as informações que recebera sobre o novo passarinho foram passadas a ele e para todos os alunos pelo célebre professor Vicente Padovani, docente que, por sinal, fora professor de meu pai e, décadas depois, já idoso e em fim de carreira, deste que vos escreve. Padovani, informado que era, já tinha ciência da diáspora promovida pelo novo pássaro introduzido no país décadas atrás, e, exceção à regra, estava a espera, mais dia menos dia, de sua chegada à cidade. Chegado, enfim, o dia aprazado, e instado sobre tal, fez questão de repassar a novidade a todos a escola. O que não se sabe é se ele ciceroneu o casal mostrando-lhes as vantagens de se fixar na modesta e promissora cidade em que se instalavam, mas convém reconhecer que ambos foram se instalar justamente na escola em que trabalhava um professor que bem conhecia a sua espécie, e seus hábitos...

Mas, enfim, aqui, o precioso texto histórico de João de Deus:

“Nossa atenção vinha sendo despertada alguns dias, por um casal de passarinhos que vinha habitando uma das bocas de jacaré por onde saem as águas das chuvas, lá do Grupo Escolar naquela época, mas hoje como outros surgiram, foi necessário a designação pelo nome, Grupo Escolar Cel. Justiniano W. de Oliveira.

Desde vários dias vinha­mos olhando para aqueles passarinhos, dos quais nenhum de nós havíamos vis­to e por isso ninguém sabia o nome. Eram desconhecidos para nós. Era aquela a primeira vez que víamos passarinhos como aqueles. E eles continuavam, dias após dias, a chilrear, com o corpo parece que estufado. Em um grupo escolar ou em qual­quer reunião de garotos, e comum aparecerem os 'entendidos', os quais davam nomes aos passarinhos. Nunca certos porém.

Certa manhã, logo ao entrarmos em classe, o prof. Vicente Padovan nos explicou alguma coisa sobre eles. Pouco eu me lembro. Só sei que eram passarinhos que alguém trouxera de Portugal, e que aqui encontrara ambiente para criação. Em São Paulo, Campinas, eles já eram conhecidos, e vinham agora se alastrando mais para o interior. Aqueles eram os primeiros a aparecerem em nossa cidade.

Estávamos no ano de 1941, e eram aqueles os primeiros pardais que por aqui arribavam.”

Sete anos depois, o pardal já era muito comum na cidade, e inclusive servia como personagem de crônicas nos jornais locais. Em 20 de junho de 1948, um tal de Zezinho publicava uma crônica no jornal Tribuna do Povo, denominada “Os pardais e os pobrezinhos”, onde, pela voz dos pardais, citou que na época, havia setenta engrates meninos trabalhando na praça Barão, e que o prefeito queria acabar com os bancos “do jardim, para acabar com os namoros”.

Em seu livro Contribuição à História Natural e Geral de Pirassununga (1974), o falecido professor Manoel Pereira de Godoy, ex-funcionário do CEPTA, de Pirassununga, registrou a chegada do pardal à esta cidade no ano de 1943, e sete anos depois em Cachoeira das Emas, portanto, o pardal atingiu Pirassununga dois anos após Araras e, ao que se pode depreender, Leme um ano depois.

Para quem quiser melhores e mais detalhadas informações sobre o pardal, como sua controversa introdução no país, bem como sua bem sucedida difusão, poderá obtê-las neste mesmo blog, cujo link é:

http://apologo11.blogspot.com/2008/07/pardal-100-anos-de-brasil.html

FONTES (4):
Consultar autor

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

MAIS FRASES DE HUMOR DO V-NEWTON...

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DÚVIDA

Dizem que a corda estoura sempre do lado mais fraco. Os violonistas ainda não descobriram se é do lado das tarrachas ou do tampo do violão.
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CAPACIDADE
O elevador panorâmico desceu vazio, e de dentro dele saiu o David Coperfield.
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SHOW BIZZ
Jimi Hendrix começou empunhando uma vassoura. O Ozzy Osbourne preferiu sair voando numa.
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GREENPEACE
A farra do boi em Santa Catarina deixa a vaca louca na Inglaterra.
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PRESIDENTES...
O Collor disse certa vez que, se comparado aos estrangeiros, os carros brasileiros são umas carroças. É o mesmo que dizer que, se comparado aos estrangeiros, os presidentes brasileiros são uns jumentos.
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!OÃÇNETA ATSERP, ORRUB Ô
.iuqa ivercse ue euq od adan rednetne ári oãn ,oirártnoc oa otsi rel oãn êcov eS
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CONVERSA DE MINEIROS
- Você sabe onde os cães Huskyes siberianos urinam, na falta de rodas nos trenós ?
- Não.
- Na calota polar, uai!
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SE ORIENTE...
Eu nissei de nada, nintendo disso, sansei que não sou japonês.
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O CASAL DE CONFEITEIROS
Enquanto ele estava molhando o biscoito, ela estava queimando a rosca.
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MESSALINA
Ela sempre dizia aos amantes aquela famosa frase do Samuel Lover: 'Venha morar em meu coração e não pague aluguel.', mas aos ouvidos dos que já a manjavam, isto soava como aquela do Dante Aliguieri, escrita na entrada do Inferno, em seu polêmico livro: ' Toda esperança abandonai, vós que aqui entrardes.'
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BANHEIRA DO GUGU
Não vejo problema algum em homem agachar para pegar o sabonete, desde que ele tenha a Luiza Ambiel lhe agarrando por trás.
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LÓGICA DE PORTUGUES
Gosto do horário de verão por dois motivos: um, quando ele inicia, por sair mais cedo do serviço, e outro, quando ele termina por poder dormir até um pouquinho mais tarde.'
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sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

DR. NARCISO GOMES ATENDE PACIENTE MESMO DEPOIS DE MORTO! FOLCLORE ARARENSE? NÃO, CASO VERDADE!

Uma das histórias mais marcantes envolvendo o célebre dr. Narciso Gomes (1857-1923) – o “Pai dos Pobres” – foi recolhida pelo locutor e radialista Cardoso Silva e publicada no extinto Jornal de Araras, em 25 de junho de 1953. Décadas depois, o escritor Emilio Wolff publicou-a em um livro biográfico e, mais recentemente, o professor Adilson Costa Oliveira transformou-a numa história em quadrinhos.

Essa história narra uma curiosa passagem envolvendo esse famoso médico, uma história de cunho sobrenatural, mas que o espiritismo explica normalmente, em que ele, mesmo depois de morto, fora atender um paciente na zona rural da cidade. O ocorrido se deu em Araras, cidade do interior de São Paulo, sendo considerado fato histórico na cidade. Foi no distante 24 de agosto de 1923, data de falecimento do médico.



NARCISO, VESTIDO DE BRANCO

por Cardoso Silva

Terça feira chuvosa. Ruas velhas borradas de lama. E uma espécie de fúnebre pregão reboando em todos, os cantos da velha Araras

– Doutor Narciso morreu!...

há embaixo, na rua Tiradentes, na casa que ficava quase à esquina, junto da desaparecida Farmácia Auro­ra (onde hoje é loja de calçados) foram chegando as pessoas amigas, os políticos, o povo, enfim, que levava uma lágrima sentida ao cadáver do pai dos pobres na e mais tocante das homenagens silenciosas!...

A cidade ficou soturna. Um movimento lento levava as criaturas para o esquife de Narciso Gomes. Feriado local. Luto nas almas companheiras do homem de grande caráter. Do médico de confirmada sabedoria. E a noticia se espalhando, cada vez mais:

– Doutor Narciso morreu!...

Naquela tarde o chouto surdo dos pés acompanhantes levariam o cadáver do político honesto em caixão pranteado para a Necrópole Municipal. A chuva continuava. Dir-se-ia, que também, chorava a natureza sincera da Araras que já aconteceu!

* * *

Chuva cai. Lama vermelha nos caminhos molhados. Uma casa de caboclo. Uma enferma, esquálida, muito pálida, sobre cama humilde. Arqueja. Arfa. Pneumonia dupla. Uma cliente do dr. Narciso Gomes. O marido – um caboclo magro e forte – nervoso. Percebe a febre dominando a pobre esposa. E pensa:

– Chove muito. Ele não virá.

A doente geme. O marido sofre. Derrepente, panca­das secas na porta de velhas tábuas. O caboclo atende. Ë o médico que chega. O dr. Narciso, em pessoa. E co­mo sempre:- todo vestido de branco. Terno de linho branco. Sapatos brancos, de praia. Meias brancas. Gravata branca numa camisa branca de duro colarinho branco. E – curioso! – cabelos brancos. Entra. Cumprimenta cordial, afável. Como sempre. E atira a clássica pergunta:

– Como vai a nossa doente ?

Vão ao quarto. A alegria do caboclo é tanta que nem repara que ainda está chovendo muito, lá fora, mas, que o querido médico não está molhado. Que seus pés não trouxeram barro do caminho. Que não havia, sequer, um cabriolé à porta. O caboclo nem se lembra de perguntar sobre a maneira pela qual dr. Narciso ali chega­ra. O médico examina sua paciente. Sorri e afirma:

– Você, compadre, ainda hoje mande aviar es­ta receita que vou dar. Não precisarei vir mais, entende? Sua mulher está salva. Basta que tome, direitinho, o re­médio que receito.

– Sim, senhor, doutor. Ainda hoje...

E, após ter feito a receita, assina e data. Depois, num sorriso paterno, carinhoso, despede-se da sua cliente. E o caboclo:

– Quando é que volta, doutor?

– Não sei – suspirou dr. Narciso.

E vendo que o médico se afastava do quarto, o caboclo:

– Já se vai? Não quer que lhe acompanhe?

– Não – foi a resposta. Para onde vou, preciso ir sozinho.

E a um gesto seu fez com que o marido ficasse junto da doente. E saiu. O caboclo escutou quando a porta se abriu e o ruído foi acompanhado pelo ribombo de um trovão mais forte. A chuva continuava cair...

* * *

A mesma tarde de chuva. O caboclo entra em Araras e percebe o ar de tristeza que envolvia a cidade to­da. Ruma, direitinho, para a Farmácia Aurora. Encontra-a fechada. O caboclo pensa que é feriado nacional. Bate ao portãozinho, de lado. A senhora do farmacêutico atende e o caboclo, molhado de chuva:

– Tarde! Vim mode aviar uma receita!

– Meu marido não está. Foi ao cemitério, no enterro... O senhor, se quiser, pode entrar e esperar na farmácia. Não há-de ficar sob a chuva!

– Brigado, eu espero!

Na foto, a Farmácia Alemã, de Paulo Kuhlmann, 1914 (atual Sapataria Buzolin), onde se deu o corrido.

E esperou. Sentado num banco característico da conhecida botica da cidade velha. Veio o farmacêutico. Saudou o freguês, num sorriso. Mas, o caboclo notou tristeza no rosto amigo do simpático farmacêutico. Explicou, ao que vinha, O espanto foi natural:

– Mas, o senhor está certo do que diz? Isso foi hoje?

– Sim, senhor. Hoje... ali pelas duas horas. De­pois que ele saiu tomei do cavalo e vim depressa por­que ainda hoje devo começar a dar o remédio p’ra mulher!

O farmacêutico não aguentou mais:

Não posso crer! Nessa hora estávamos fazendo sentinela ao cadáver do dr. Narciso Gomes e ele, de fato, estava inteiramente vestido de branco.., até os sa­patos! Se estou chegando do cemitério agora mesmo! Se estou vindo do enterro dele...

É justo! O caboclo empalideceu. Começou a suar frio. Tomou novo alento e estendeu a receita. Ali estava a assinatura autêntica do dr. Narciso Gomes. Ali estava a data assinalada.

Mesmo depois de morto, dr. Narciso, vestido de branco, fora socorrer mais um dos seus pobres. O cabo­do estava lívido. E o farmacêutico desmaiou.

S. Paulo - junho de 1953

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

HÁ 100 ANOS, PRAGAS DE GAFANHOTOS EM ARARAS

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Houve um período em Araras, que a impressão que se tinha é que a cidade parecia viver sobre uma forte ameaça apocalíptica, como as que ainda ocorrem no Egito (foto, 17-11-2004), sendo “castigada” por uma trindade de pragas naturais, doenças endêmicas e fenômenos climáticos. O fato se deu entre os anos de 1906 a 1918, mas não foi apenas Araras quem padeceu dessa “maldição” – toda a região, bem como outros estados, esteve envolvida no processo. Primeiro foram as nuvens de gafanhotos, depois a “grande geada” e por fim a terrível “gripe espanhola”. Mas o que nos interessa aqui é somente as pragas de gafanhotos.

Os registros mais antigos sobre as pululações de acrídeos na cidade, ou seja, do aparecimento de grandes nuvens de gafanhotos, datam de um século atrás, em setembro, outubro e novembro de 1906, e, anos depois, em maio de 1909, em setembro de 1917, e outra em fevereiro de 1918. Nos princípios deste último ano, um tenente coronel, o senhor Fernando Silva, proprietário da fazenda Japuana, no Rio de Janeiro, comunicava à Sociedade Nacional de Agricultura que o pássaro anu era um excelente destruidor de saltões. Segundo uma reportagem do extinto jornal Cidade de Araras, de 21 de outubro de 1906, os ararenses estavam sentindo-se ofendidos, pois os tais insetos teimavam em não aparecer na cidade, ao contrário das cidades vizinhas: “Já estava doendo ao nosso amor próprio local a desatenção com que os gafanhotos, correndo por toda parte, ‘fazendo pouco bem e muito mal’, no dizer da canção, – esqueciam-se descortezmente de nós”. Em setembro, uma pessoa vinda da Capital, trouxe alguns exemplares, que ficaram expostos na redação do jornal, e a mesma afirmou que os gafanhotos “limitavam-se a interromper o trânsito dos bondes, o que não é pequena proeza para bicho tão pequenino”.

Finalmente, os visitantes tão esperados apareceram: “Ora afinal chegou a vez: estão entre nós os gafanhotos”. A seguir, nova decepção: “Não vieram em nuvens negras, de obscurecer os sol, conforme o gáudio dos telegramas”. As nuvens passaram voando alto e “Nem a binóculo!” foram vistas... Numa sexta-feira, porém, os insetos resolveram dar as caras: (...) vieram em número maior e desceram à terra, naquela desordem inestética de que falamos”. O povo foi ao delírio: “houve quem visse nuvens negras, galhos vergados, campos literalmente cobertos, caminhos entupidos e etc.”. Estranhamente, a reportagem dizia que não houve prejuízos nas lavouras, mas, do contrário, os gafanhotos teriam de arcar com as perdas: “Não nos conta que os amáveis hóspedes tenham feito estragos dignos das crônicas, mas se alguém se julgar prejudicado que lhes apresente a conta no mais breve prazo”.. Quem saiu ganhando foram os animais: “As aves de terreiro fartaram-se, rachando de cheias, e graves perus, muito sérios, assonsados, banzando como bobos, de asas largadas, a não poder mais”... Em novembro, o mesmo jornal distribuiu um folheto com orientações de como combatê-los, época em que os saltões principiavam a brotar da terra e os fazendeiros começaram a “guerreá-los com método”, e havia “fiscais exclusivamente encarregados de vigiar-lhes a explosão”.

Ironia do destino, uma semana depois, tudo levava a crer que os tais insetos haviam mesmo se simpatizado com a cidade e resolveram ficar... e não se fizeram de rogados:“Há cerca de dez dias tem feito permanência em nosso município grandes bandos de gafanhotos, em mais ou menos abundância”. No entanto, houve prejuízos relativos, com “campos, mais ou menos arrasados, árvores e até galhos de café danificados e pequenas roças novas de milho completamente e radicalmente destruídas”. Uma nova preocupação surgia, então: eram os ovos colocados no chão e o surgimento dos terríveis “saltões” – a fase jovem do gafanhoto. Era “época de plantações de milho, cujas roças deverão nascer pelo tempo em que os saltões a saírem dos ovos postos agora hão de estar em plena fase de atividade destruidora”. Em novembro o jornal falava da “formidável eclosão dos gafanhotos”, da “calamidade destruidora”, e, apesar do “grande empenho em destruir os ovos (...) surgiram da terra (...) nuvens e nuvens de gafanhotos”. De um fazendeiro que não se precaveu, escreveu-se sobre o cafezal novo e os replantes, que tiveram suas folhas e rebentos verdes destruídos pelos saltões:

“Vimos em um terreno, talvez excepcionalmente estranho a esses cuidados, tão densa, compacta e cerrada mancha de saltões a evoluírem, fazendo seus estragos, que não se pode medir o estrago que eles vão fatalmente causar antes de levantarem vôo.”

O mais engraçado é que neste período, além de uma “semana de crimes”, um vento forte e constante, vindo do Noroeste, castigou a cidade, que por esta época, tinha suas ruas de terra: “E quando se abria a boca para falar, ao descompasso de tantas hostilidades, vinha uma nuvem de pó dar a resposta(...)”...

Em outubro de 1909 a coisa piorou e os gafanhotos vieram em maior número. O Cidade de Araras citou que grande parte de Araras foi invadida por gafanhotos e “A invasão foi talvez maior que a que se deu há cerca de três anos.”

Segundo o historiador Ricardo Artigiani (Mogi Guaçu – Três séculos de história), após a “grande geada” ocorrida entre os dias 25 e 26 de junho de 1918 em nossa região – fenômeno que atingiu toda a lavoura cafeeira, com os termômetros registrando 4 graus abaixo de zero –, surgiram grandes nuvens de gafanhotos, que diziam ser oriundas do sul do País, mas hoje, sabe-se que é limitada a capacidade de deslocamento dos enxames, ao contrário do que se supunha anteriormente. Registros citam que uma nuvem imensa e compacta, com alguns quilômetros de largura, cortou o céu da Mogi durante horas, seguindo em direção de Minas Gerais.

Em setembro de 1917 e fevereiro de 1918, meses antes de acontecer essa geada, houve em Araras dois novos surtos. No R. G. do Sul (Panambi e Passo Fundo) já havia registros desde 1906 e 1907, em época de forte seca. Os relatos sulistas surpreendem: em setembro de 1917, desceu nas proximidades da Estação Bocca, em Santa Maria, uma nuvem com extensão aproximada de 2 quilômetros “que obscureceu completamente o sol”. Dizia ainda a reportagem sobre a incrível dimensão do fenômeno: “Uma nuvem que apareceu em Julio de Castilhos até Val da Serra, tomava uma extensão de 32 quilômetros, tudo devastando”. Pragas de gafanhotos apareceram também em Paraibuna e S. J. dos Campos, e eram tantos que os pés de milho nas plantações vergavam ao peso dos insetos. Outra passagem revela um cenário inimaginável: “os caminhos tomavam um aspecto estranho, tapizados pela espessa camada verde de gafanhotos. Na sua obra destruidora, a infinidade de insetos fazia um ruído semelhante ao trovão de longe”. A escritora Zica Bergami – a famosa compositora da canção “Lampião de gás” –, escreveu que, em 1918, passou sobre São Paulo, Capital, uma nuvem de gafanhotos. Em seu curioso relato, ela escreveu:

“Deu-se pela manhã quando chegou aos nossos ouvidos, um ruído muito estranho, vindo do alto. Olhamos assustados, para cima e avistamos uma enorme mancha negra de milhares desses insetos, voando, todos jun­tos, desesperadamente.

Perguntamos ao nosso tio, o que era aquilo. Mas, antes da resposta, começaram a cair gafanhotos mortos por todas as partes. Nos telhados, no chão, nas árvores, onde ficavam dependurados, nos peitoris das janelas e até dentro de casa.

Tivemos receio de que nos atacassem, mas, felizmente, depois daquele estardalhaço todo, zumbindo, zumbindo, os doidos foram-se distanciando, desaparecendo no infinito.”

Em Araras, além dos milharais, outras culturas que sofreram com a praga foram a de cana-de-açúcar e de arroz. As reportagens não descrevem qual era a espécie de gafanhoto, mas deve ser a Rhammatocerus schistocercoides. Estudos recentes sobre a bioecologia do gafanhoto concluíram que as pululações estão ligadas ao regime das chuvas, especialmente durante os meses de agosto, setembro e outubro, que é o período crítico no ciclo de vida do gafanhoto.

Uma descrição fiel do que é um ataque maciço de uma legião de gafanhotos, foi feita por E. Souza de Almeida, em seu livro O Homem e os Insetos (1946), mas o texto é sobre um ataque de “gafanhotos marroquinos” (Docitaurus maroccanus Th.), ocorrida no norte da África e sul da Europa.

“Em cada muda que sofrem param e sobem aos arbustos, prendem-se com as garras das patas posteriores e dependuram-se de cabeça para baixo. E nesta posição que se dão as metamorfoses.

Nas primeiras mudas não têm asas e denominam-se, em linguagem vulgar, saltões. Na 3a idade aparece nos gafanhotos marroquinos a cruz branca do tórax, bem característica da espécie e passam ao estado de ninfa, caracterizada pelos cotos das asas.

Depois da última muda atingem o estado de adulto. Ficam imóveis 2 a 8 dias há espera que os tegumentos endureçam. Passam depois alguns dias em ensaios de vôo. Nesta ocasião, a quem observa de longe, parece que a superfície do terreno está em ebulição e atirando com jatos para o ar. São os gafanhotos nos vôos de ensaio. Até que uma manhã, em geral quente, e com ligeira brisa, todo o bando, como a um sinal dado, levanta vôo e parte, seguindo em geral a direção do vento. Este primeiro vôo é pesado e curto, mas em cada dia mais adiantam e, normalmente, podem fazer 80 a 50 quilômetros diários. Tem-se registrado, porém, 400 a 100 quilômetros e mesmo mais. Os Açores têm sidos atingidos com vôos que partem da costa de África a mais de 2.000 quilômetros.

Tais vôos são impressionantes e levam a desolação e a fome às mais ricas regiões.

De repente, na linha do horizonte, desenha-se uma nuvem negra de contornos irregulares, simultaneamente ouve-se forte sussurro, que aumenta rapidamente e lembra a zoada que faz a aproximação de forte aguaceiro.

Em breve a nuvem cobre todo o horizonte e o Sol escurece. Começam a cair gafanhotos, como chuva viva, e não tarda que todo o solo, todas as árvores e todos os arbustos estejam cobertos.

Mal se vê, tão densa e negra, a nuvem dos acrídeos que continuam a passar. No solo formam uma massa movediça de muitos centímetros de altura. As árvores vergam ao peso dos corpos de milhares de insetos que sobre elas pousam Passam-se horas, e os gafanhotos continuam a cair como granizo. À meia tarde a nuvem adelgaça-se pouco a pouco até que desaparece; os gafanhotos pousaram. Então o Sol mostra-nos um espetáculo que jamais esquece. Quanto a vista alcança está coberto de gafanhotos entretidos a roer tudo quanto apanham. Durante a noite ouve-se perfeitamente o ruído que fazem milhares de mandíbulas. Encontram-se gafanhotos por toda a parte, nas casas penetram pelas janelas e portas mal fechadas, e precipitam-se às centenas pelas chaminés abaixo. Os depósitos e poços ficam atulhados. Nos cursos de água os corpos dos que morrem afogados formam montões e sobre eles passam os outros.

No dia seguinte, a uma certa hora da manhã, já com o Sol alto, todo o imenso bando levanta vôo e segue na mesma direção levando para mais longe a devastação e a fome.

Nada se pode comparar ao aspecto em que fica uma região devastada pelos gafanhotos. As searas desapareceram, das hortas nem vestígios, onde havia pomares e veigas verdejantes hoje só se vê o chão negro, como que queimado. E, no meio desta desolação, as árvores levantam os braços nus o descascados como que implorando socorro.

É a miséria, a mais negra fome, a conseqüência desta devastação formidável!

Há poucos anos, numa invasão que sofreu a nossa província de Angola, numa povoação perto de Luanda, os gafanhotos, depois de terem devorado toda a vegetação, viraram-se ao capim seco que cobria as palhotas dos pretos e deixaram-lhes somente a armação. Entraram pelo teto de um armazém e destruíram tudo quanto encontraram: os panos de ramagem que os negros tanto apreciam, o peixe defumado, as massas, e até uns presuntos que estavam dependurados e ficaram reduzidos aos ossos.

No fim de uma série de vôos os gafanhotos param e fazem as posturas.

Pouco depois da fecundação das fêmeas os machos morrem.

Após a postura os bandos, muito dizimados, iniciam os vôos de regresso, mas parece que alcança o ponto de partida; as epidemias e os inimigos em breve os destroçam por completo. Mas ficam ovos na terra que na primavera dão origem a nova invasão.”


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BIBLIOGRAFIA

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SEM PALAVRASl, by V-Newton

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* Em 15 de dezembro de 2008, no jornal Estadão, a empresa Enel - Green Power fez uma ilustração semelhante. Notar que a minha é de 2005.
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