Quando alguém, numa roda de bate-papos, se aventura a contar algum fato curioso que diga respeito a uma de nossas principais aves de estimação – o papagaio – o assunto, invariavelmente, sempre acaba descambando para o anedotário, e muito raro é o se ouvir histórias verdadeiras sobre esta cômica ave. O que poucos sabem é que este danado é uma personagem literária que estrelando histórias do gênero desde a Idade Média.
Hoje, trago aqui doze destas raras histórias que compilei ao longo dos últimos anos. O interessante nelas, é que, apesar de sua veracidade, todas não estão isentas de um certo conteúdo cômico tão inerente à "biografia" desta afamada espécie de pássaro. A maioria são história antigas, centenárias, mas nenhuma indigna de nota, e tanto o são que sugiro lê-las acompanhadas de uma boa taça de Rum Montilla, sim, aquele rum do pirata com o papagaio no ombro...
“G. Birdwood conta que, em 1869, estando no Palácio de Cristal, viu no aviário um papagaio verde, tão murcho que fazia pena olhar para ele. Falou-lhe, chamou-o de Loiro, fez-lhe festinhas, mas o papagaio não se moveu.
Birdwood lembrou-se, então, que o papagaio poderia ser indiano e saudou-o com Ram-Ram! Falando-lhe em maiata (língua da Índia Central). No mesmo instante, o loiro saiu do marasmo em que estava, pôs-se a saltar e a gingar, respondeu trepando às grades até chegar-se à Birdwwod, e encostou a cabeça aos nós de seus dedos.
Daí em diante, todas as vezes que Birdwood ia visitá-lo, ficava o papagaio contentíssimo e corria para ele.”
“Conta-se que, de volta da batalha d’Ácio, Augusto ouvira de um papagaio:
“Eu te saúdo, César vencedor!”
E como o informassem de que o dono possuía outro exemplar falante, ordenou sua vinda.
Chegado que foi, pronunciou com grande escândalo:
“Eu te saúdo, Antônio Vencedor!”
Compreende-se: o mestre, na incerteza da sorte das armas, ensinara cada ave a felicitar um dos antagonistas no prélio.”

“De resto, afirma La Mettrie , isso já aconteceu, segundo depoimento do príncipe Maurício de Nassau, que jurou ter mantido no Brasil uma conversa perfeitamente racional com um papagaio. Como a ave falava em tupi-guarani, é bastante provável que o príncipe tenha sido enganado pelos intérpretes e que, em vez de ser o autor de uma observação científica, Maurício de Nassau tenha sido o inventor involuntário da primeira anedota de papagaio de nossa história. O comentário não é meu, e sim de Afonso Arinos, que conhecia bem esse episódio. De qualquer modo, La Mettrie acreditava na veracidade da narrativa, e é o que importa.”
Um leitor da revista Nossa História, Aureliano Moura, do Rio de Janeiro, enviou a seção Almanaque uma curiosa história, mas de papagaio que, segunda a revista, “merecia, por seu patriotismo, pelo menos uma medalha”...
“No livro Siete años de aventuras en el Paraguay, Jorge Federico Masterman, um boticário inglês, descreve a desolação que tomou conta de Assunção, sob bombardeio brasileiro, no final da Guerra da Tríplice Aliança. Como a população se retirara, levando consigo seus
cães, milhares de gatos famintos tomaram conta da capital uruguaia, atacando os galinheiros ainda existentes. Nove papagaios sobreviveram graças à proteção do ministro Washburn, chefe da legação norte-americana, que prontamente lhes concedeu asilo, acomodando-os num enorme poleiro e alimentando-os com cubinhos de mandioca. Certo dia um papagaio causou pânico entre os asilados que, como eles, estavam hospedados na legação. Esse louro, que era o mais falante e corajoso de todos, bradou de repente no mais puro português: “Viva d. Pedro II!” Todos corriam perigo. Uma demonstração de simpatia ao Brasil àquela altura podia ser vista pelos paraguaios como traição. “O que é isso, perguntou Washburn, atônito. Como resposta, o papagaio repetiu: “Viva d. Pedro II!”. “Torça-lhe o pescoço imediatamente,” ordenou o ministro, desesperado, a seu secretário, mr. Meinke. Não se sabe o destino do louro monarquista, pois Masterman, embora tenha testemunhado o fato, não registrou o fim da história.”

O livro O Homem e o Mundo Natural: Mudanças de Atitude dm Relação às Plantas e aos Animais, 1500-1800, de Keith Thomas, traz uma interessante história de papagaio, mas é inegável que ela resvala para a piada:

Aqui, três outras histórias colhidas na Internet, no blog Recanto das Palavras:
“Há uns dois anos, os jornais noticiaram a história de Ziggy, um papagaio que à época contava 8 anos de idade e dedurou a sua dona, que dava umas voltas no namorado com um tal de Gary. Ziggy, zeloso de suas atribuições parlantes, toda as vezes que ouvia o nome “Gary” vindo de um programa de televisão, danava a imitar beijinhos estaladinhos e, para jogar de vez as cinco letras que não cheiram bem no ventilador, quando o telefone celular da sapeca tocava, ele dizia languidamente… ‘Oh… Gary’. Está pensando que parou por aí? Nada disso! O dedo duro completou com a frase que incriminou de vez a cachorra: ‘Gary, eu te amo’, imitando a voz da dona, que ficou sem o namorado, agora sabedor de todas as chifradas que andou levando.
(...) Casanova, o maior de todos os amantes, certa vez comprou um papagaio e o ensinou a dizer ‘Miss Charpillon é tão puta quanto sua mãe’, tentando, assim, vingar-se de duas mulheres que tentaram passá-lo para trás.”
Jacob Penteado, em seu livro biográfico sobre poeta Martins Fontes (1884-1937), traz duas histórias de papagaio. Numa delas, cita uma conferência: “O que as aves e os pássaros nos dizem”,
Na segunda história, Fontes fala de um português que bateu à porta de uma casa e ouviu uma voz: – “Entre!” Ele foi entrando, foi entrando, até chegar à sala onde estava um papagaio, que lhe disse: – “Sente-se!” E o chegadinho da terra, de chapeirão braguês, calças de cano de espingarda, respeitosamente se curvou e disse: – “Tenha a bondade de me desculpar, pois não sabia que o senhor era um passarinho”.



Mas, afinal, os papagaios realmente sabem o que estão falando? O livro O Império do Grotesco, de Muniz Sodré e Raquel Paiva (2002), traz o seguinte esclarecimento:
“Esse argumento não parecerá tão absurdo a alguns cientistas contemporâneos, como o etólogo Donald Griffi,, da Universidade de Harvard, para quem é possível conceber-se uma ‘consciência’ animal, inclusive com faculdades comunicativas, do tipo das dos macacos africanos Cercophythecus pygerithrus, cujos gritos de alarme ‘transmitem a identidade dos predadores específicos: cobras, águias ou leopardos.’ Garante Griffin: ‘Tenho a impressão de que, se os cientistas realmente se aplicassem a estudar esses problemas, como fazem com outros, não demorariam a perceber que existem muitos animais - como o papagaio cinzento africano de Irene Pepperberg - que, quando falam, falam sério.”
BIBLIOGRAFIA - 11 fontes
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