segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

RÁPIDAS OBSERVAÇÕES SOBRE O CURIOSO CICLO ALIMENTAR DO PÁSSARO MARTIM-PESCADOR


Lá estava ele, pousado num galho de sangra-d'água a fitar paciente o calmo espelho das águas do lago abaixo de si. À sombra, mantinha-se imóvel e vigilante, mas de quando em quando, um leve levantar da cabeça traíaa sua presença. 

Subito, ele defeca nas águas e peixinhos afoitos pululam sobre os dejetos. Num átimo, o pequeno pássaro se deixa cair sobre o cardume, e logra caçar um deles. Ele volta ao galho, engole o peixinho e enquanto faz a digestão, espera que outros peixes ressurjam. Um peixe solitário é atraído por um novo dejeto, e, após degluti-lo, habilmente consegue escapar da nova investida do vertiginoso mergulho do pequeno pássaro.

Notai então, caro leitor, um curioso fato , o dos peixinhos que escapam e ainda assim conseguem se alimentar dos dejetos, pois se alimentam daquilo que provavelmente se tornarão se caçados pelo martim-pescador: os próprios dejetos de que eles também sobrevivem. 

Se analisarmos mais fundo, notaremos então que, na verdade, há dois ciclos: um, o do peixe, que é uma espécie de "canibalismo" escatológico, já que ele come dejetos compostos por peixes digeridos; o outro, o da alimentação do martim, onde ele come o peixe que se alimentou de seus próprios dejetos! Estranhas maravilhas da natureza, amigos!



sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

LEÃO DO NORTE - "Bebida amarga da raça, que adoça o meu coração"


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Leão do Norte, acreditem, ao contrário da onipresente Coca & Cola é uma bebida impossível de se imitar, e digo mesmo de se  chegar à um sabor próximo ao que ela possui. Há inúmeras no mercado (Boite Show, Cangaceiro do Norte, San Martin,Trago Forte, etc.), mas nenhuma se equipara à ela.

A Pepsi conseguiu a façanha de parear com a Coca, mas a danada da Leão do Norte, ah, nunquinha, essa ninguém falsifica!

Quem a conhece, como eu conheço - e digo isto de "carteirinha" -,  identifica-a de olhos fechados - só pelo aroma -, e ninguém presisa ser um organoléptico para decifrá-la - uma simples provada em seu aroma, dentre todas as outras jurubebas colocadas à prova numa bateria de testes, basta para identificá-la imediatamente. O sabor também, é inimitável - amargor sui generis ao paladar.


Assim como o  Campari, ela é uma  bebida de sabor amargo, mas, convenhanos, o giló é o chimarrão seriam tão gostosos se não tivessem o amargor característico? Pois é, é no seu amargor peculiar que está o seu segredo, o seu charme...


A Leão do Norte é uma  bebida clássica, de tradição, "resultado da feliz combinação de vinho Tinto de mesa rio-grandense da melhor procedência (70%), macerado de frutas de jurubeba, associados a extratos alcoólicos de plantas aromáticas, decotos de plantas amargas, xarope de açúcar de cana e álcool etílico potável", segundo reza o rótulo no verso da garrafa. As propriedades medicinais das plantas que a compõem, vale dizer, são incontestáveis e afamadas - possuem qualidades hepáticas, digestivas, tonificantes e até  mesmo afrodisíacas!

Para finalizar, aproveito para elogiar esse "néctar dos deuses", citando o grande e saudoso  escritor, poeta e  folclorista dos pampas do Rio Grande do Sul, José Simões  Lopes Neto:

"Bebida amarga da raça, que adoça o meu coração."


HISTÓRICO SOBRE A BEBIDA

A empresa foi fundada em 1920, na cidade de Feira de Santana. Em 1932, mudou-se para Salvador a fim de melhor atender ao desenvolvimento das vendas e da área de consumo do seu produto JURUBEBA LEÃO DO NORTE.
Sua sede definitiva, edificada no Centro Industrial de Aratu em terreno de 125.000m2 e 12.000m2. Maquinário e equipamentos atualizados permitiram à indústria alcançar um alto índice de automação e produtividade.
O produto fabricado, em cuja composição, de acordo com a lei, entram 70% de vinho do Rio Grande do Sul da melhor procedência, é armazenado em dornas uniformes com capacidade para três milhões e meio de litros. Todos os componentes são analisados em laboratório de análises enológicas e bacteriológicas da própria fábrica, que dispõe de cromatógrafo computadorizado.
A fórmula e os processos de fabricação estabelecidos pelo fundador Paulo da Costa Lima, são obedecidos rigorosamente, o que justifica o conceito e a crescente aceitação do legítimo JURUBEBA LEÃO DO NORTE em todo território nacional, bem assim com as honrarias que lhe foram conferidas, desde os primeiros anos:
  • Diploma de honra do instituto Agrícola Brasileiro - antigo Ministério da Agricultura (1927);
  • Medalha do Ministério da Justiça e negócios internos, na Exposição do Centenário da Independência (1922);
  • Grande Diploma de Honra dessa mesma entidade (1936);
  • Medalha na Exposição Feira Mundial de New York (1936), entre outras.



A PRIMEIRA INDÚSTRIA DE FEIRA (do texto "A Feira Antiga", blog de Antônio do Lajedinho)

Não sei exatamente a data da fundação da Fábrica Leão do Norte, mas lembro-me dela em 1930 situada entre os fundos da Prefeitura e o ABC (hoje, avenida Sampaio). Era a única construção em meio a um grande matagal. Ocupava uma área de uns 20.000 m², incluindo a chácara com a residência do seu fundador e proprietário, Paulo Costa Lima, o químico que criou a famosa Jurubeba Leão do Norte.

A fábrica tinha uma grande área construída dividida em escritório, salão das dornas onde ficavam umas 15 delas de 2 a 4 mil litros, salão de engarrafamento, rotulagem e acabamento, sala de carpintaria e embalagem, galpão de moagem com as primeiras máquinas a motor, sala de produção onde se faziam as bebidas, sala de tanoaria, sala de lavagem de garrafas, além de vários depósitos para carroças, dependências para operários e um sem número deles.

Durante todos os dias da semana havia muito movimento de carroças transportando caixas e barris de bebida para a Estação Ferroviária e para o comércio local. Nos dias de segunda-feira, dia da feira local, a fábrica ficava tomada de animais de carga que vinham de toda parte comprar bebidas e vinagre.

É díficil de se acreditar que uma cidade até então tão pequena tivesse uma fábrica daquele porte, mas era tão grande e boa que Feira ficou pequena para ela e o Paulo Costa Lima levou-a para a capital onde mais se desenvolveu e ainda hoje tem nome no Brasil e no exterior - a Jurubeba Leão do Norte, nascida em Feira de Santana.  

A minha permanência na Marinha durante a Segunda Grande Guerra e posterior residência em fazenda no sertão, me afastou da família de Paulo Costa Lima, mas como bom feirense não esqueço de D. Senhora nem dos seus filhos, especialmente Vivaldo, que era dos mais novos senão o mais novo. E já que falei em bom feirense, que tal se os senhores vereadores, nascidos ou residentes aqui, que também são feirenses, trocassem um desses nomes de rua como Los Angeles, Buenos Aires, Ayrton Senna etc. pelo nome do respeitável Paulo Costa Lima numa justa homenagem ao primeiro industrial de Feira de Santana, ao homem íntegro, ao pai que deu filhos ilustres a Feira de Santana, como foram todos os seus filhos. Vamos ser menos ingratos com os antepassados que conduziram Feira ao alto do progresso. Esquecer ou negar o nome de homens que fizeram a história da cidade não é só ignorância e ingratidão: é uma covardia.


Jurubeba Leão do Norte: foi o marketing que lhe deu vida (do site Memórias da Bahia)

Em 1920 Paulo da Costa Lima, tio me parece (não tenho certeza) do saudoso Epaminondas Costa Lima, criou a organização Jurubeba Leão do Norte, uma indústria de bebidas com base no extrato da árvore do mesmo nome, amarga de verdade. Na infusão com a cachaça e outras ervas como a quina, na época prescrita para a febre amarela e mais o popular e rasteiro fedegoso, ganhava um gosto menos carregado do cheiro original da casca.

Quase cem anos já se passaram e o produto continua a ser fabricado e tem grande aceitação ainda no interior do Estado e no Nordeste. Antes sugerido como digestivo e estimulante hoje é degustado na esperança de aumentar a potência sexual e nos bares é consumido como cachaça mesmo, uma dose atrás da outra. Foi o marketing que deu longa vida a este produto, uma das marcas de maior recall entre as indústrias de bebidas regionais.

Já nos anos 20 publicavam-se anúncios nas revistas como o deste post com um apelo medicinal. Não era propaganda mentirosa, mas um modismo da época de tratar os vinhos de folha como estimulantes com efeitos terapêuticos e recomendavam-se doses mínimas. Produtos similares como o Elixir de Nogueira, ou o Licor de Tayuyá seguiam a mesma linha discursiva na sua propaganda.

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quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

JIMI HENDRIX, O "DOMADOR DE RAIOS": O ESTILO E A ARTE DA IMPROVISAÇÃO

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O guitarrista Faiska - músico que admiro, que dispensa apresentações e é mestre em seu instrumento -, em recente entrevista à revista Guitar Player (nov. 2013), declarou num determinado trecho que "Ninguém improvisa o tempo todo. Solos inéditos, em minha opinião, não existem. Sempre nos repetimos e isso é que faz o estilo de cada um." Discordo da opinião do Faiska, e acho até contraditória sua colocação, pois subentende-se que quem está improvisando está criando coisas novas, inéditas...


Há pelo menos um músico, ao qual, pela sua própria genialidade, a opinião do Faiska não pode ser aplicada: nada mais nada menos que Jimi Hendrix. No meu entender e conhecimento, após décadas e décadas ouvindo e dissecando o estilo e a genialidade de Jimi, acredito que existem sim músicos que fazem solos inéditos, e que nem sempre os músicos se repetem improvisando. Mas acontece que o jazz, p. ex., está cheio deles. A verdadeira repetição só se dá à quem execute um solo através de uma partitura, e, do contrário, o que um guitarrista faz no máximo é repetir os truques e licks que aprendera, fazendo variações na escala. Na verdade, não esqueçamos que mesmo se executando uma música através de uma partitura, há execuções boas e ruins - a inspiração e interpretação contam muito -, e, p. ex., mesmo a versão de um maestro e sua orquestra para um famoso tema clássico pode ser superior à de outro maestro.

Quero afirmar com isso, que o Jimi Hendrix é um caso à parte, pois houveram coisas incríveis que ele fez que só se realizaram no momento da interpretação. Hendrix não planejava os solos, mas, com certa frequência, criava coisas na hora como que tirando truques inéditos da manga ou da cartola - era imprevisível, ao contrário da maioria dos melhores guitarristas de rock. Raros são os guitarristas sem vícios e clichês, que improvisam e criam coisas do nada - a maioria, ouvindo-os improvisar, a gente quase advinha o próximo passo que eles irão dar, fato que não se dá com o Hendrix! Ouvir Jimi improvisando era ouvir um músico inspirado e criativo inventando coisas jamais ouvidas - a coisa nascia ali, na hora, ao vivo! Há um termo em latim que define bem isto: Ex nulla re, ou seja, a criação de coisas a partir do nada.

O próprio engenheiro de som de Hendrix, o Eddie Kammer, definiu bem isso: "Sempre que ele fazia alguma coisa no estúdio - tocava uma guitarra ou usava um pedal - era um acontecimento. E eu ficava pensando: 'como vou fazer com que isso fique ainda melhor?'" Lembremos que um "acontecimento", por definição, é sempre uma coisa nova e inédita.

A pergunta que fica é: como é que ele poderia criar truques tão maravilhosos - verdadeiras joias da arte da improvisação -, e depois nunca mais repeti-los? Seria, antes que um desperdício, um enorme contra-senso. E convém não esquecer - o que é estranho -, que ele costumava gravar todas as  jams e shows que podia para ouvi-los depois e ver o que era aproveitável!...

No disco "The Genius of The Jimi Hendrix", lançado no Brasil em 1978, e com sessões de gravação feitas em 1966 (vídeo abaixo), pouco antes de ele ir para a Inglaterra, aos 4:50 minutos da canção "People, people", o Jimi faz um lick de blues tradicional, mas ao seu modo - de uma maneira inusitada e genial -, mas em tudo o que já ouvi dele depois - o que não é pouco -, ele nunca mais repetiu este lick desse modo! Ele foi utilizado em outros blues seus, mas nunca tocados dessa maneira.


"Peoples, Peoples" (1966)

Basta ouvir as várias versões de "Machine Gun" e "Hear My Train a Coming", e até mesmo (absurdo!) de "Little Wing", para constatar que Hendrix improvisava o tempo todo, mas sempre contava a mesma história de uma maneira diferente. Não há como negar que a versão de "Hear my Train..." do disco "Rainbow Bridges" (show em Berkeley, na California, no dia 30-5-1970), é fantástica e diferente de qualquer outra (veja o vídeo abaixo). A versão de "C# Blues - Bleeding Heart (People, People)", do disco "Experienced" (ver vídeo abaixo, trilha sonora do filme, de show no Albert Hall, Inglaterram 24-2-1969), é um caso à parte, uma versão onde ele faz coisas jamais feitas em outras versões, e muito provavelmente são as tais coisas inéditas que o Faiska não acredita... O desfecho da música é lírico, sutil e elegante, e não me recordo de ele finalizando um outro blues seu dessa maneira.



"Hear my Train a Coming"



"C# Blues - Bleeding Heart (People, People)"

Acredito que o solo mais violento, e um dos mais indecifráveis, que o Jimi fez em toda sua carreira, foi numa apresentação em um show no programa da cantora Lulu (a do "Ao Mestre com Carinho"), onde o Jimi destilou toda a sua raiva e violência após saber que a cantora havia depreciado o Cream com suas opiniões a respeito da banda. À partir dos 2:57 minutos da execução de "Voodoo Chile" (vídeo abaixo), não sei como, ele faz a guitarra rosnar e bufar agressivamente! - parece que ela vomita o som e o arremessa contra o ouvinte! Aliás, acho isto a coisa mais violenta jamais feita por um guitarrista de rock! Coloque em alto e bom som e tente entender o que ele fez, pois a câmera não mostra, infelizmente! Não estou falando em violência de solos tipo "Eruption" ou um solo ultra rápido do Malmsteen - a coisa é outra: ele "humaniza" o solo, ou melhor, a guitarra tem voz animal, orgânica e sentimentos de raiva! O trecho começa com um silvo ou assovio incomum numa guitarra, e depois descamba naquela agressividade toda, que deixa entrever toda a sua raiva ante o posicionamento infeliz da cantora. 

Outro ponto interessante deste show, foi em relação ao som do contrabaixo, que estava demais. E deve ter sido este timbre e potência de contrabaixo que, certa vez, embasbacou o guitarrista Larry Coryell, que assitia à um show da banda, quando afirmou que era o melhor som de contrabaixo que ele havia ouvido para esta linguagem!


E o mais incrível é que eu nunca mais vi ele fazendo isto do mesmo modo em outro solo durante toda sua carreira, porém, na canção "House Burning Down" (vídeo abaixo, ver aos 3:58 minutos), do disco "Eletric Ladyland", há outra variante desse truque que pode ser ouvida ao longo da música, mas não com o mesma violência com que foi empregada no show do programa da Lulu.


"House Burning Down"

Para fechar este texto com um exemplo primoroso da arte de Jimi Hendrix, como afirmar que a interpretação do Hino Nacional Norte-Americano em Woodstock foi uma repetição, se Jimi nunca improvisara esta canção daquele modo?! A versão pode ser julgada numa palavra: perfeita! Como dizer que alguém não faz coisas inéditas e se repete, usando tudo o que havia ao seu alcance para interpretar uma música? Além das cordas, alavanca, pedais e palheta, havia o pedestal do microfone, um anel ocasional, o cotovelo, os dentes e o genial uso controlado da microfonia?! "Star Spangled Banner", na versão de Woodstock, é - me permitam um neologismo - irrepetível, uma versão que músico algum conseguirá executar e interpretar como Jimi, que ele fez, acredito, coisas indecifráveis ali que só um gênio faria!

Enfim, amigos, a verdade nua e crua é que Hendrix era um improvisador por excelência, no que ele ultrapassava os limites da lógica. Em suma, ele era a própria definição do seu estilo em particular - tinha sua própria marca registrada sonora, e não foi à toa que a crítica de rock Ana Maria Bahiana criou uma excelente expressão para definir a maestria de Jimi: "Domador de Raios"!... 


"Star Spangled Banner" - Woodstock, 1969

terça-feira, 6 de agosto de 2013

PIONEIROS DO PUNK EM ARARAS

Neste ano em que se comemora os 30 anos do movimento Punk Rock, ou seja, 2006, tenho algo para contar sobre minha modesta carreira musical, e assim,  fazer uma homenagem a cinco amigos falecidos. Tudo começou em meados de 1976, quando eu (foto) havia ido para Campinas para comprar uns discos de vinil na antiga loja Carlos Gomes, na rua Treze de Maio. Na volta, quando entrei na rodoviária, fui até a banca central e comprei um exemplar da revista Rock, a História e a Glória, o Nº 25, cuja biografia era do Frank Zappa, lançada em 21 de outubro de 1976. O destaque do Jornal de Música, que era o encarte  da revista, trazia uma matéria de duas páginas, em letras miúdas, sobre um novo movimento musical que surgia na Inglaterra – o Punk Rock. A matéria, muito interessante, foi lida por mim numa só passada. Infelizmente, este jornal perdeu-se, logo eu, tão cuidadoso com meu arquivo musical. E essa reportagem mexeu comigo de tal forma que, em pouco tempo, eu já havia comprado os primeiros discos do Clash, Television, Dr. Feelgood, Vibrators e Eddie and The Hot Rods; também o primeiro das gatinhas Runaways, e os segundos do insólito Stranglers e do ótimo New York Dolls.

No ano seguinte, em outubro de 1977, o Brasil conheceria esse movimento musical através da famosa revista POP – precursora da BISS –, que lançaria o incrivelmente famoso LP “Punk Rock” (foto), com, nada mais nada menos, que o Sex Pistols, Ramones, Runaways, The Jam, Stincky Toys, Eddie and The Hot Rods e Ultravox. Foi uma verdadeira paulada em nossas cabeças – um disco clássico e histórico: discoteca básica. No mesmo ano, um amigo nosso nos apresentava o histórico primeiro LP dos Sex Pistols – foi um arraso. Eu cheguei a tirar todas as músicas do disco – uma glória para mim: um adolescente que mal havia estreado na guitarra. Outro disco que nos fez cabeça, foi o excelente primeiro LP do Joelho de Porco – ainda hoje é um disco que surpreende pela qualidade.

Bem informados do novo movimento, formamos a primeira banda (e turma) punk de Araras. Recordo-me que tocávamos músicas do Clash, Sex Pistols, Dr. Feelgood, Joelho de Porco, Made in Brazil e algumas do disco da POP. (na foto à esquerda, Mário Silvestre, de Araraquara)

Uma curiosidade: lembro-me, em 1977, de minha turma na escola Alberto Feres (“Industrial”), e que íamos assistir aula todos de punk. Um dia o diretor entrou em nossa classe e estávamos todos alinhados no fundo, impecavelmente trajados de jeans, jaquetas de couro ou terno, correntes e alfinetes, botas, ray-bans, etc. Ele, o “Seu Felício”, colocou o dedo indicador acima dos lábios e olhou-nos detidamente de cima para baixo; depois, sem nos repreender, saiu da classe meneando a cabeça e com um leve sorriso nos lábios...

No mesmo ano, fomos o destaque do carnaval da Associação Atlética Ararense. Éramos cerca de dez caras, todos de punk e chamávamos a atenção por onde passássemos por nossos trajes bizarros. Certamente, um bando de jovens vestidos de maneira provocativa e estranha compuha uma imagem de grande apelo simbólico – uma imagem forte, que atraia o olhar de quem se deparava conosco.  Compunha esta turma, eu, meu irmão Weber, Mábio Francatto (in memorian), Fernando Neodini, Fernando Martins, Cláudio Bizão (in memorian), Sudenir Franco, Mário Silvestre (de Araraquara, foto acima), Marcelo Aragão, Lourival, “Pulenta” (in memorian) e José Mário Cabrini, dentre outros. Houve uma foto clássica neste dia, todos juntos da polícia, que, infelizmente se perdeu. Convém ressaltar: não éramos um bloco e nem estávamos fantasiados. Na foto acima, Lore Cabrini, Cida Chiarotto (in memorian) e Fernando Neodini, no carnaval da A. A. A.

Nosso primeiro show como banda punk se deu na Biblioteca Municipal de Araraquara, onde um dos nosso músicos, o Mário Silvestre, morava. Inicialmente, a banda era composta por Marcelo Aragão na guitarra, Mário Silvestre no baixo, Borg nos vocais e eu na bateria. Em 1979, com nova formação, tocamos em Araras no então restaurante “Forasteiro” (foto). O nome da banda dizia tudo: “Os Vândalos”... O dono da casa ficou louco com o tipo de música que tocamos, e o tempo todo pedia para que levássemos um sambinha, por que “que atrairia mais público”... Com a insistência, à certa altura, revoltado, fiz o show de bateria mais barulhento e nervoso de minha vida só para desforrar.  Outro show memorável se deu na antiga discoteque “Don Diego”, no mesmo ano, casa noturna cujo palco ficava num mezzanino. Houve dois fatos curiosos neste dia: o primeiro, se deu com o falecido “Helião” (Hélio ) – um sujeito enorme e muito forte, e que era fã do Borg –; como se a banda demorasse para subir ao palco e tocar, a certa altura, ele “abraçou’ o palco e começou a chacoalhá-lo pedindo que a banda começasse o show. O segundo, mais tragicômico, foi o próprio Borg surrupiar do caixa, na surdina, aquele que foi o primeiro cachê da banda...

Na foto ao lado, no Forasteiro, Lore Cabrini ao fundo, no contra-baixo; ao centro, Mábio Francatto na guitarra e o vocalista Borg Domingues, ambos falecidos. Weber Daltro também dividiu os vocais com Borg por um período. Na foto seguinte, eu na bateria.

Enfim – verdade seja dita –, posso afirmar sem modéstia que, além de ser o introdutor do punk em Araras, toda a nossa turma fomos punks em consonância com a própria Inglaterra, e isto, antes mesmo que a movimento se solidificasse na própria São Paulo capital, o que se deu no início dos anos 80. Não nos esqueçamos que Araras vivia em plena efervescência da chamada onda discoteque, com shows e festivais de dança na maioria dos clubes da cidade. Nós, por nossa vez, "pregávamos", sem eco algum, num deserto cultural chamado Araras!...

É tudo.

sexta-feira, 21 de junho de 2013

O “CENTRO HISTÓRICO” DA CIDADE DE ARARAS/SÃO PAULO...

* Trecho do livro “Do Barreiro das Araras à Capela de Santa Cruz – Revelações históricas sobre o município de Araras”, livro em andamento desde 2003 (Wenilton Luís Daltro)


Detalhe do "centro histórico" de Araras, em meados do século 20.

Daquilo que se poderia chamar o “centro histórico” de Araras, pouca coisa restara; a saber: o sobrado do Albino Cardoso, a igreja Matriz, a Casa da Cultura, o Solar Benedita Nogueira, o prédio onde se situava a gráfica Odeon, o City Foto e a bicicletaria São Luiz, o cine Santa Helena e a residência adjacente à ele (a do falecido Darci de Lima), o casarão da esquina da rua Silva Telles com a Coronel Justiniano, os grupos “Zurita”, e, mais adiante o “Justiniano”. Do pouco que permanece, a maioria são construções centenárias, mas não em número suficiente para se compor algo que possa ser nomeado centro histórico; melhor dizendo, todos os exemplares arquitetônicos que compõem esse acervo da região central estão diluídos em meio às construções modernas e suas altas densidades volumétricas, e essa descontinuidade e a conseqüente descaracterização visual, impede que se desfrute um visual panorâmico que represente fielmente uma “vitrine” histórica – o centro ficou com tantas caras e ao mesmo tempo com nenhuma! Assim, é comum ver casas e edifícios antigos próximos de construções feitas com elementos arquitetônicos que se repetem, os mesmo elementos pré-fabricados e a insuportável monotonia: a terrível moda dos prédios de cores berrantes, verdes ou azuis, revestidos de vidros brilhantes e pastilhas, com interiores padronizados e aparelhos de ar condicionado em constante funcionamento.

Uma das funções de um centro histórico é reproduzir um pouco do clima da época em que ele foi erigido – tem que ter “sabor histórico” –, e, nesse quesito, ele falha completamente – estes restolhos arquitetônicos que sobraram na “alma da cidade”, por sua própria descontinuidade, não nos permite uma viagem sentimental, não chegando a constituir um documentário vivo onde, nas horas do presente, ainda possamos ver e sentir a nostálgica atmosfera de encantamento e saudade que, num misterioso vínculo, deveria nos invadir e contagiar, fazendo com que nos sentíssemos seculares, arrebatados aos tempos de outrora. O acervo que estaria mais próximo daquilo que se possa chamar “museu ao ar livre”, seria o composto pelos edifícios históricos da praça Monsenhor Quércia e entorno. Como disse o arquiteto mexicano Ricardo Legorreta, lugares assim são áreas em que "mexer nelas tem impacto até psicológico.” E a velhice, nas demandas da atual sociedade industrial, é extirpada em seus gratos lugares e recordações. As mudanças promovidas pelo “progresso” do avanço imobiliário é maléfico para a velhice, pois destrói-lhes o palco e o cenário de sua biografia os recantos tão caros das andanças de toda uma vida. O sentimento de continuidade da pessoa é rompido de modo abrupto e irreversível; além disso, o fato constitui uma séria ameaça às maiores realizações culturais e artísticas da civilização ararense.

Analisando-se o conjunto das edificações modernas do quadrilátero da praça Barão, conclui-se que, ele vai tendo um destino semelhante ao da Avenida Paulista, em São Paulo, que teve seus suntuosos casarões dos barões do café, bem como os palacetes dos industriários da década de 1920, demolidos para dar lugar à um conglomerado econômico e comercial. O advento dos bancos e casas comerciais (mais aqueles que estas) foram os responsáveis diretos pelo demolição de importantes edifícios de valor altamente histórico e de expressiva arquitetura. Nefasta e impiedosa essa estranha força centrípeta que ainda hoje atrai os bancos para a praça principal das cidades interioranas! Em nosso caso, pôs-se abaixo verdadeiras relíquias como, p. ex., o casarão do barão de Araras (Edifício Zurita), o palacete do barão de Arari (banco Itaú), a residência de Ignácio Zurita Júnior (hoje estacionamento), a Rádio Zurita (banco HSBC), a Sociedade Italiana (Nossa Caixa), o Araras Clube (Casas Bahia), o Círculo Operário Ararense (Cebrac Cursos), o Hotel dos Viajantes (antigo Unibanco), o cartório etc. Dentre todas as demolições, as mais lamentáveis foram as dos citados casarões dos barões, pois ambos eram as residências dos beneméritos doadores do terreno que deu origem ao núcleo urbano que gerou a cidade. Sobre a residência do barão de Araras, numa crônica intitulada “À maneira de Manoel Bandeira”, em 28-8-1955, o radialista e jornalista Cardoso Silva, escreveu:


“E aquele casarão da esquina? Que tinha um quintal muito grande, onde as árvores copadas eram um enfeite lembrando que se a gente fosse poeta aos 8 anos não havia de existir canto melhor do que aquele que devia cantá-las? Aquelas árvores? Caíram? Foram cortadas. O quintal grande não existe mais. Foi loteado. A casa da esquina desapareceu. Em seu lugar um prédio moderno grita progresso dentro da sua cidade do passado. O cenário, enfim, que foi do seu conhecimento está mudado. Profund-mente!”



Detalhe do "centro histórico" de Araras, em meados do século 20. Os dois casarões da extremidade da rua ainda existem.

Em suma, pôs-se abaixo todos aqueles “vestígios” do passado que nos permitiam recordar os grandes “feitos de nossa nação”. Todos eram fontes de produção de conhecimento, pois conferiam maior importância às realizações de nossos antepassados, bem como às técnicas e às tradições que se manifestavam naquilo que erigiram, em suma, eram fontes que permitiam o pleno exercício de cidadania.

Parodiando Rudyard Kliping, Araras é uma cidade que parece demolir-se diariamente, para ser reconstruída sempre mais moderna, pois há uma redefinição constante do traçado urbano, e no prazo de meros dois meses, uma pequena volta pelo centro revela novos e surpreendentes estabelecimentos, e até de grandes proporções. Pode-se dizer que inexiste na cidade orgulho de seu passado arquitetônico. Por exemplo, com as constantes demolições de residências surgidas a partir da década de quarenta e a construção de estabelecimentos comerciais em seu lugar, podemos concluir que o “centro velho” que deu origem à Araras urbana vem se descaracterizando irremediavelmente e perdendo suas feições originais, o que, convém ressaltar, não acontece na vizinha cidade de Rio Claro, como se verá. Isto constitui um dos mais bem acabados exemplos de insensibilidade e desrespeito para com a herança arquitetônica histórica. Ironicamente, ao contrário das cidades que preservam o máximo que podem de seus centros históricos, Araras não padece dos problemas decorrentes da perda de prestígio econômico das áreas centrais, pois com a baixa incidência de casas e prédios históricos tombados, não se dá a desvalorização da riqueza pública e privada, que, do contrário, transferiria a riqueza das áreas velhas ara as novas áreas de centralidade, através da redução do valor da propriedade na primeira e aumento na segunda. Araras, antes converteu a pluralidade à condição de unicidade, ou seja a maior parte do que era histórico foi demolida para dar lugar ao comércio, de modo que o antigo centro histórico não passa hoje de um centro comercial dominado por lojas.

Se relembramos,  então, o que aconteceu com a nossa rica malha ferroviária, é algo que tem que ser pranteado eternamente. Fábricas e galpões de empreendimentos diversos que remontam ao início da industrialização da cidade, vêm desaparecendo paulatinamente, em surdina, e ninguém se dá conta. Belíssimo exemplar posto abaixo no início deste século era a serraria Fachini, situada em frente aos galpões da Fepasa, e que não despertou o protesto de uma só alma viva! É um truísmo que ainda impera na cidade a ideia de que as construções antigas engessam o desenvolvimento urbano. Temos de manter os acessos à diversidade da memória pois ele têm um valor histórico e estético que permitem melhor qualidade de vida e pode tornar a cidade mais atrativa e agradável. Lembremos da cidade de Barcelona, que, impulsionada pelo advento das Olimpíadas, conseguiu manter seu centro histórico e seus bairros medievais sem prejudicar seu desenvolvimento.



Casarão "Quicha Lotto", necessitando de restauração urgente.

Essa região central da cidade, com o constante boom imobiliário, é de uma mutação arquitetônica assustadora, e poucos são os que se incomodam com essa transformação caótica, que leva à perda de referência e identidade. Com isso, a memória se perde e a cidade vai distorcendo sua personalidade. A impressão que se tem é que as construtoras e imobiliárias, mais que o poder público, é que planejam a cidade. Com isso, o mercado não é capaz de regular-se e vive de construir novos imóveis em detrimento dessa região antiga e nobre. Essa forma de produzir-se novas centralidades que congregam tudo – comércio, diversão, educação, alimentação, estacionamentos, concessionárias etc. –, acaba por criar uma região exclusiva dos comerciantes e investidores. Os da elite – deveras alienados dos valores estéticos e históricos de seu imóvel –, demolem-no, e o terreno resultante, com o passar dos anos, vai agregando valor de mercado por se situar numa região nobre. Suas virtudes para com esse patrimônio moribundo parecem estar adormecidas e são insensíveis ao valor de um imóvel que possua história e características culturais. Estes, a que o arquiteto Paulo Mendes Rocha chamou de “sociedade amarga”, alugam seus apartamentos e vão residir em condomínios e subúrbios ricos; ou mesmo podem vir a residir nos edifícios erguidos na região central. Já os antigos moradores da classe baixa, e mesmo média, numa espécie de segregação social, são pressionados e expulsos pelo movimento do mercado, quando não pelos próprios investidores, e vão residir em bairros populares da periferia ou mais distantes, e, nos piores casos, em locais precários muitas vezes à beira de córregos e áreas de mananciais.

Arquibancada do Comercial Futebol Clube, década de 1948, demolida na virada das décadas de 1980 e 90.

Pode-se dizer que o setor imobiliário de Araras sempre primou pelo caráter especulativo e pelo agravante das dificuldades de se manter o pouco que restou de seu bens históricos, em especial, os citados casarões erguidos pela elite cafeeira. A cidade teve uma origem fundiária embasada por este caráter especulativo e manteve essa vocação durante os ciclos da cana-de-açúcar, do café e da industrialização. A análise da situação permite afirmar essa ideia de que ainda prevalece na cidade essa política voraz de especulação, e isso é comprovado pela não conservação e demolição de bens que não tiveram a sorte de sobreviver até o surgimento do órgão local de preservação, o COMPHAC, entidade que fez Araras ingressar em uma etapa superior de civilização, mas nem sempre trabalhou para que outros bens de incontestável valor cultural situados além da região central fossem preservados. O descaso do órgão também se estende no que diz respeito ao registro e preservação de bens culturais de natureza imaterial, ou seja, os bens históricos que não podem ser tombados – “bens culturais intangíveis” – e são passíveis de receber seu registro no órgão responsável pelo patrimônio histórico local, porque carregam valores culturais importantes para a identidade cultural de um lugar, como, por exemplo, as comidas, as procissões, danças, músicas, irmandades, grupos folclóricos, os toques de sinos, etc. Em 24-3-2005, em reportagem no Tribuna do Povo, o autor – que já se empregou como desenhista e fotógrafo do próprio COMPHAC – listou cerca de oito comidas tradicionais que integram a “gastronomia patrimonial” ararense e são passíveis de tombamento, bem como se ofereceu ao próprio órgão para coletar e redigir o trabalho, mas não obteve respaldo algum, sequer resposta, lembrando-se que o processo de tombamento de uma iguaria é bastante simples se comparado ao do tombamento de um edifício. No caso da célebre e sexagenária pizza de mussarela do Bar Sônia, a proprietária confessou e lamentou que os próprios filhos não têm interesse em aprender a receita.



Palace Hotel, em 1949, antiga residência do Barão de Arari, onde hoje se situa o banco Itaú.

Voltando ao tema dos prédios históricos, os citados erros são frutos ainda não totalmente erradicados de uma época em que se dava mais valor à natureza utilitária em detrimento da estética, como se as administrações quisessem desmontar a cidade, despindo-a de sua arquitetura histórica. O fato ajuda a entender um pouco do porquê desse “atavismo” cultural, dessa tradição da gente do lugar: a moldagem do tipus ararensis que foi se delineando desde o período colonial até os dias atuais – os ecos que ainda repercutem na sociedade ararense contemporânea: o mal da “memória de incinerador”, o gritante descaso para com os monumentos antigos que raramente sobrevivem à “picareta do progresso”. Uma coisa é certa: aqui, o bairrismo nem sempre implica em amor pelas coisas do passado, assim como o ufanismo e a mentalidade conservacionista raramente se ajustam pelo mesmo compasso. Araras é uma cidade que vive de forma obsessiva sob o signo da modernidade, e o denominador comum parece ser a ostentação pessoal, o valor ao que se possui e se pode exibir – truísmo tão criticado por forasteiros que aqui vem residir, trabalhar ou estudar. Os problemas culturais gerados pelo fenômeno in loco desse passado distante em que surgiu, são os motivos da existência de um processo personalíssimo e bem-definido que reflete ainda na maneira de ser, pensar e agir do ararense – é fato crônico e entranhado, e quase impossível de se desarraigar. Inda que seja uma comparação injusta, que abismo há entre Araras e uma São Luiz do Maranhão e seus 5.600 monumentos históricos preservados, e que discrepância entre o ararense e a notória atração e simpatia da opinião pública dos maranhenses por seus bens culturais – tinham tanto para preservar e o preservaram; tínhamos pouco para preservar e muito pouco preservamos!...


SAIBA MAIS:

AS SETE MARAVILHAS DESAPARECIDAS DA CIDADE DE ARARAS/SP

http://apologo11.blogspot.com.br/2008/12/as-sete-maravilhas-desaparecidas-da.html

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FRASES E PENSAMENTOS DE PERSONALIDADES "PSEUDO-PSICOGRAFADAS" (by V-Newton)

Aqui vão algumas frases e pensamentos criadas por mim, extraídas de um livro que venho fazendo aos poucos. Nele, fui recriando falas e frases famosas alterando-lhes os temas, ou inventando pensamentos seguindo a linha de raciocínio de cada personagem inserido nele, como se eu fosse um médium espírita que os tivesse psicografado.

"Quando a pavor de adoecer gravemente pelo vício do fumo se torna maior que a dor da dificuldade de abandoná-lo, a pessoa finalmente deixa de fumar." (Sigmud Freud )
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"Se um estripador aprende a manejar um bisturi, isso é progresso." (Nelson Rodrigues)
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“Só dei este beijo mais longo que o de costume por não ter tido tempo de dá-lo mais curto.” (Blaise Pascal)
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“Pesadelo que se sonha só, é um pesadelo que se sonha só, mas pesadelo que se sonha junto é despertar com a sogra em nossa cama.”
(Raul Seixas)
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“Um homem sem emprego é um cidadão comum; um homem com dois empregos é um político canalha.”
(Bernad Shaw)
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“Fora os homossexuais, o único homem que não pode viver sem homens é o urologista.”
(Arthur Schopenhauer)
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Rui Barbosa: - Tenha o obséquio de providenciar a obséquia deste inopioso.
Manoel funerário: - O quê?
Rui Barbosa: - Tenha o obséquio de providenciar a obséquia deste inopioso!
Manoel funerário: - Não estou te entendendo!
Rui Barbosa: - Enterre este mendigo, caramba!!
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sexta-feira, 17 de maio de 2013

“ETERNAL LIFE TO THE GUITAR!”. AND MPB ALSO! OBVIOUSLY...



Quando nasci, no ano de 1961, um executivo da Decca Records – um daqueles bestas que esnobaram os Beatles!... –, falou: “Grupos que tocam guitarra estão com os dias contados”!!!

Quase uma década mais tarde – e eu já era menino –, havia ainda um verdadeiro ódio contra a guitarra, e, por consequência, contra os cabeludos, e era comum ouvir dos mais velhos e conservadores: “Um dia o rock vai acabar!” – e minha mãe dizia isso! Ingênuo que era, eu ficava preocupado, pensando (e "esperando"...) quando é que esse dia ia chegar!...

Nesta época, 1969, as guitarras eram consideradas “aberrações norte-americanas”! No Brasil, muito antes, porém, em 16 de fevereiro de 1957, o então governador de São Paulo – o maluco Jânio Quadros –, proibia o rock em bailes. Ironicamente, novamente em 1961, o então ministro cubano – o não menos maluco "Che" Guevara –, foi condecorado pelo presidente da Republica – novamente o maluco do Jânio Quadros!... –, com a "Grã Cruz da Ordem Nacional do Cruzeiro do Sul"!... (antes condecorasse a guitarra!). Sim, o Che Guevara, o mesmo sujeito sanguinário que, depois, por ironia do destino, seria cegamente idolatrado pelos rockeiros mundiais!...


Uma década depois – mais precisamente em 17 de julho de 1967 –, com o slogan “Defender O Que É Nosso”, a “Passeata da MPB” – que ficou conhecida como a “Passeata Contra A Guitarra Elétrica” –, era realizada em São Paulo contra o inocente instrumento musical. Saindo do Largo São Francisco, a passeata desembocou diretamente no Teatro Paramount, na avenida Brigadeiro Luís Antonio, onde ocorreria o programa” Frente Ampla da MPB”. Na liderança, estava nada mais nada menos que Elis Regina, amparada por outros artistas como Jair Rodrigues, Zé Keti, Geraldo Vandré, Edu Lobo, MPB-4, e até Gilberto Gil, que, por sinal, entrou de gaiato no movimento. Essa passeata colocava em confronto duas tendências musicais: uma conservadora – a MPB, e outra renovadora – o rock (ou iê-iê-iê).



Nesta época, o então guitarrista dos Rolling Stones, Brian Jones, escreveu numa canção: “Andam dizendo por aí que o rock vai morrer/ Mey Deus! O que é que eu vou fazer?/ Ah... já sei, vou me matar também!”

Curiosamente, a história parecia ser levada à serio ainda na década seguinte: o compositor Carlinhos Vergueiro, em sua música “Comentário”, cantava: “E tem gente falando que o rock/ Falando que o rock/ Vai acabar/ “E tem gente falando que o samba/ Falando que o samba/ Não vai aguentar/ ”.  Ironicamente, na mesma época, do outro lado, o cantor Franco, dementia tudo com o seu medíocre “Rock Enredo”, onde cantava: “Andam dizendo por aí/ Que o samba vai acabar/ Que a batucada está por fora/ E o samba já não dá/ E o negócio é rock, e o negócio é rock/ E o negócio é rock and roll."”

Porém, nem o samba nem o rock acabaram – e não dão o mínimo sinal de que acabarão um dia. Ao contrário deste, o pobre do Brian Jones acabou, e precocemente! Mas eu – que nasci sob o signo da morte da guitarra –, sobrevivi e estou aqui de pé e vivinho para testemunhar mais que a “Long live rock and roll”, pois hei de ouvir antes de morrer: “Eternal life to the guitar!”. And MPB also! Obviously... 

Extraido do livro (em curso): "O MENINO DA USINA. Vol. 1 – Childwood – janeiro de 1961 a março de 1967"