segunda-feira, 22 de setembro de 2008

O POLIVALENTE ARTISTA SÉRGIO RICARDO

“Não é uma pena que existam
tantos eus para tão pouco vocês?”
(Orson Welles, cineasta e ator)

(...) a sensação é que mal raspei a
superfície de sua complexidade.

(Daniel Piza, colunista do Estadão, em
ensaio sobre a obra de Dorival Caymmi)


Artista nada simples de apresentar num texto, a sumidade que é este polivalente artista, o multimidiático Sérgio Ricardo. Adianto que, por ser grande admirador seu, suspeito sou para fazer uma apresentação. Procurar ser sinceramente objetivo e justo, como um juiz consciencioso e imparcial é difícil, pois sendo – como todo grande fã – sujeito a simpatias e admiração, posso ter meu julgamento influenciado por isso; assim, é complicado ter distanciamento crítico para fazer este tipo de análise – ninguém está incólume à certos deslizes da idiossincrasia quando se arvora em crítico.

Enfim, o difícil mesmo é não ceder à tentação de tirar conclusões definitivas sobre sua obra, mas afirmo convicto de que não se fala no legendário Sérgio Ricardo sem falar em diversidade cultural e pluralidade artística. Também queria deixar claro que não sou crítico de cinema e de música ou qualquer coisa que seja – apenas um músico e discípulo.

Um dia destes, lendo uma biografia de Olavo Bilac, vim a conhecer um personagem que imediatamente me lembrou o multidisciplinar Sérgio Ricardo – o gaulês Emilio Rouéde – o “judeu errante dos ofícios”, como o chamou Bilac –, pois este sujeito multifacetário era escritor, compositor, fotógrafo, regente de orquestra, pintor, dramaturgo, pianista, tipógrafo, industrial, etc., logo, uma enorme coincidência com o nosso ilustre Sérgio. Logo, são tantas as qualidades artísticas do Sérgio que temo não fazer uma descrição à altura da envergadura do seu talento, mas, enfim, mãos à obra.

SÉRGIO RICARDO, SINÔNIMO DE POLIVALÊNCIA

A presença de Sérgio no cenário artístico do país é mais do que vital, ainda que a mídia em sua miopia pouco o assedie e ele continue território pouco explorado pela massa e as novas gerações, presente apenas na “lembranceira” de fãs e um público especializado em artistas injustiçados. Nestes 50 anos de atividades, construiu uma reputação sólida que o tornou uma notoriedade, mas apesar de toda a bagagem de sua multiplicidade artística, não criou um renome que chegou a torná-lo uma popularidade que atravessou as últimas décadas. Em meio a este mercado inflacionado de músicas descartáveis e efêmeras, a presença artística de Sérgio Ricardo é um refúgio num oásis de cultura. Sérgio passa ao largo das mazelas musicais que infestam sem trégua nossos ouvidos, isto, lamentavelmente, com o aval da mídia imediatista e ditatorial.

País paradoxal, este o nosso – terra onde antropólogos franceses mexeram com a sensibilidade de índios do rio Orenoco em 1948 colocando Mozart para eles ouvirem, e agora, em pleno século 21, a massa, vítima do emburrecimento coletivo, se deslumbra ao som de músicas de conteúdo infantilóide e até mesmo cretinizantes – músicas sem vida própria compostas apenas para entreter o baixo ventre. Lamentavelmente as grandes gravadoras – hoje agonizantes – colocaram o gosto e a qualidade musical como item derradeiro na lista de suas prioridades, além de abrirem mão do compromisso com a educação musical do ouvinte. Pelo que notamos, no Brasil, Sérgio está muito aquém do que os ouvidos moucos à musica sofisticada costumam ouvir.

UM ARTISTA À FRENTE DE SEU TEMPO

Sérgio Ricardo, em sua integridade, em momento algum, fez concessão ao sucesso, como confessou certa vez à Guarabira. É um artista idôneo como poucos, sem jamais ter recorrido à atitudes extremas ou estratégias publicitárias apelativas para chamar atenção para a genialidade de sua obra. Não que isto fosse necessário – ele não faz marketing próprio, mas ao contrário do introvertido João Gilberto, é implacável – sempre fez declarações polêmicas e coerentes tanto em suas obras quanto na mídia.

Sérgio nunca, aos modos de certos artistas undergrounds estrangeiros, pensou em defenestrar pianos do alto de edifícios como forma de contestação ou posicionamento artístico. Apesar do vozeirão, não chegou a causar pane em estações de rádio pela potência de sua voz, como aconteceu – segundo reza a lenda –, ao seu também estentórico “irmão de voz”, o cantor José Tobias na Rádio Borborema de Campina Grande, décadas atrás. Sequer Sérgio quebrou seu violão, numa forma de rebeldia e atitude contracultural como fez o músico Jimi Hendrix (foto) naquele jogo de cena em que colocou fogo e estilhaçou sua guitarra no Festival International Monterey Pop em 1967, por sinal, o mesmo ano em que Sérgio quebrou seu violão no festival da Record (coincidência incrível, em se falando dos principais movimentos musicais do planeta na época!). Sérgio simplesmente protestou contra a alienação cultural de uma platéia insensata que não tinha noção do que fazia – vaiava por vaiar... Este pequeno texto de autoria de Augusto Buonicore, Historiador, mestre em ciência política pela Unicamp, extraído de www.contee.org.br/noticias/artigos/art168.asp, esclarece definitivamente o que aconteceu naquele dia:

"
O clima no auditório estava extremamente tenso. As vaias, organizadas pelos fãs-clube, haviam entrado em moda naquela temporada. Elas, muitas vezes, atraiam mais atenções que as composições ali apresentadas. Poucos se davam ao luxo de escapar dos apupos e apitos ensurdecedores. (...) A parada era duríssima. Entre as finalistas estavam as antológicas 'Ponteio', 'Roda Viva', 'Alegria Alegria' e 'Domingo no Parque'. O circo já estava montado quando Sérgio Ricardo, acompanhado por um coral de operários da Willys e pelo Quarteto Novo, entrou no palco. Antes que soltasse os primeiros versos da bela - e incompreendida – 'Beto bom de bola' ouviram-se novamente as vaias."

Não só Sérgio fora vítima deste protesto convencional e populista – Caetano, Cinara e Cybele e Nana Caymmi também amargaram o mesmo. Porém, como Hendrix, a atitude lhe rendeu o maior ibope e ganhou as páginas dos noticiários internacionais, o que, ao contrário do afamado guitarrista, não o impediu de ser relegado a um relativo esquecimento. Vale lembrar que, nessa mesma época, outro arauto da canção de protesto, o norte-americano Bob Dylan, incomodado com a título de “cantor de protesto”, inexplicavelmente sumiu do cenário por dois anos, só retornando em 1969. Por outro lado, se diz que um dos motivos do trabalho musical de Sérgio ser pouco conhecido da massa, é que grande parte de sua obra foi voltada para o cinema, em filmes também não populares.

A “noite da violada” não foi um maldição que selou se destino artístico, colocando-o na lista negra dos candidatos à esterilização midiática – Sérgio, esse dínamo criativo da canção engajada – mesmo que no lusco-fusco de um relativa discrição, está aí ainda hoje criando como sempre, sem se deixar jamais apanhar pela armadilha da acomodação – é como disse o crítico Tinhorão: um rio subterrâneo que às vezes aflora à superfície. Nada foi premeditado naquela polêmica noite, ao contrário do que afirmou o sensacionalista apresentador Flávio Cavalcante (foto). Curiosamente: um livro sobre rock lançado na segunda metade da década de 1990, encarou esta revolta de Sérgio como uma das primeiras atitudes punk no cenário musical brasileiro!

Basta ouvir os temas do filme de “Deus e o Diabo na Terra do Sol” (isto em 1964) e notar que muito antes do advento do rock brasileiro, a "violência" entrou no cenário musical brasileiro pelo violão e pela voz de Sérgio Ricardo (“Perseguição” é uma paulada, reconheça-se).

Se não cometo um engano aqui, um grande jornal publicou no início desta década que surgiram bandas de rock compondo ao estilo das trilhas sonoras de Sérgio para os filmes de Gláuber Rocha. Por outro lado, lembremos que a cosmopolita bossa nova é, hoje em dia, inspiração para grupos de música pop ou híbrida em todo o planeta – gente como Sean Lennon, filho de John, e a neobossanovista Bebel Gilberto, além dos veteranos Marcos Valle e Joyce vem atestar este fato. Antes disso, a neobossa, na década de 1980 na Inglaterra, já reinava pelas mãos de grupos como Matt Bianco, Everything But a Girl e Style Council, o que arrancou comentários humorados de Tom Jobim.

MÚSICA SUI GENERIS

O colunista do Estadão, Daniel Piza, 24-8-2008, em matéria sobre o falecimento do grande ídolo do nosso contemplado, o não menor Dorival Caymmi, escreveu algo que pode ser estendido ao próprio Sérgio:

"(...) é difícil de imaginar música ainda tão longe de ser compreendida em sua grandeza. Acho que isso acontece porque ela ainda é vítima de (...) apreensões: as do que não percebem a sofisticação de sua arte (...). Mas como água, sua música escorre pela brecha entre o rural e o urbano, o sociológico e o colonizado, o autóctone e o globalizado."

A meu ver, é difícil classificar a música do Sérgio – uma música que fala tanto ao intelecto quanto à sensibilidade –, mas ensaiando uma possível definição, creio que ela só poderia mesmo ser rotulada por meio de superlativos: “gigante”, p. ex. Sim, “música gigante” – é assim que a vejo, é assim que ouço essa música “viril”, saída da verve de um artista de sensibilidade e criatividade impar – uma música impositiva e forte na exteriorização de idéias e sentimentos. Impossível não se deslumbrar ouvindo pérolas como “Ponto de Partida”– uma canção que merecia, sem dúvida, estar ao lado da “música do século” – a eterna “Águas de Março” de Tom. Ali, uma letra de poesia tocante e inteligente; o violão – a um tempo sutil e vigoroso; a voz – possante, mas doce e maviosa como poucas; a melodia, ora emotiva, ora sutilmente agressiva, enfim, uma obra prima em todos os sentidos! Que dizer da beleza, da serenidade e do finesse de “Toada de Ternura”, “Do Lago a Cachoeira” e “O Nosso Olhar”, três das coisas mais ternas que você jamais ouvirá neste estilo e que não fariam feio num songbook de standards norte-americanos. O que dizer, então, das rudes e “extravagantes” “Deus de Barro”, “Antonio das Mortes” e “Zé do Cão”; as cinematográficas “Juliana, Rainha do Mar”, “Beira do Cais” e “Tocaia”; as contestadoras “Calabouço” e “Canção do Amor Armado”?

Parodiando Sivuca ao ouvir pela primeira vez a genialidade de Hermeto Paschoal, pode-se dizer: “Sérgio, sua arte é maior do que este país!”. Desnecessário aqui, comentar obras seminais como a trilha sonora de “Deus e o Diabo na Terra do Sol” (foto) em parceria com Gláuber, bem como a incrível trilha “A Noite do Espantalho” – provavelmente seu melhor trabalho –, que, segundo Sérgio disse anos atrás, continua praticamente inédito tanto o filme quanto a trilha.

UM POETA: UM SENHOR LETRISTA

Tal como Cole Porter, Sérgio não raro compõe músicas song lists – canções com letras longas, minuciosas e ricas em detalhes, além de possuir uma poética tocante. Também, nota-se em muitas de suas certas letras a constante da temática regional, e tanto que parecem ter saído dos livros de Jorge Amado, Mário Palmério ou Afonso Arinos. Algumas, pelo teor descritivo da letra, podem mesmo ser enxergadas, característica, com certeza, que remete ao seu viés cinematográfico e televisivo. Diria também, para usar uma expressão do já citado Daniel Pizza, que suas letras são pictóricas - e não nos esqueçamos que o Sérgio também é pintor, e dos bons - outro talento seu que não analisei neste texto.

Há uma curiosidade em algumas de suas letras: tal como um modesto Guimarães Rosa da canção, Sérgio furtou-se, às vezes, a alterar as normas da língua e criar para suas letras e poemas alguns neologismos, atitude que, de certo modo, fez escola no Novo Regionalismo – p. ex.: “lembranceira” (Mundo Velho); “revivência” e “verdece” (Semente); “marmarejar” (Canção do Amor Armado), "Luandaluar" (título de música), etc. Esse procedimento lingüístico se difundiu de maneira muito sutil tanto na MPB de alto escalão quanto nos compositores que participam dos festivais de música regional que acontecem anualmente em todo no país. Alguns exemplos: ver Cláudio Nucci em “acontecência”; Gonzaguinha com “desparecença”, “maravida”, “pelaí”, “imbalança”; Milton Nascimento e Lô Borges com “aluar”; Edu Lobo com “borandá”, etc.

De posse disso tudo, Sérgio está entre os poucos autores brasileiros que criaram aquilo que se poderia chamar de “bossa rural”, estilo que Renato Teixeira em seus primórdios, Nara Leão, Theo de Barros, Dori Caymmi e o próprio Tom Jobim pouco depois, andaram desenvolvendo: uma música sofisticada e com temática regional.

O MAIS NORDESTINO DOS PAULISTAS

Notável também é a intimidade de Sérgio com a música nordestina – o disco “ A Noite do Espantalho” é uma obra prima recheado de excelentes músicas neste estilo – Luiz Gonzaga talvez dissesse: “Sérgio Ricardo é o mais nordestino dos paulistas”. Convém lembrar também que Sérgio, junto com Vandré, foram os porta-vozes da “canção-de-protesto”, seguidos por Nara Leão, Chico Buarque, Edu Lobo, Ruy Guerra, João do Vale, Zé Keti, (foto) etc.

A canção-de-protesto é um dos pontos altos da autêntica musica popular do país, uma vez que foi ela a responsável por tentar impedir a americanização da MPB, que veio à luz com o impasse político resultante da renúncia de Jânio Quadros e do desgoverno de João Goulart. Sérgio junto com Vandré, a partir do Centro Popular de Cultura, tentaram colocar a música brasileira como “uma forma de participação mais efetiva no cenário político”, e Sérgio – além de ser um do principais militantes musicais do país –, foi também, acredito eu, o principal responsável pelo já citado “Novo Regionalismo”, movimento musical que deu uma nova injeção de brasilidade na MPB na segunda metade da década de 1960 e daí por diante, e isto, antes mesmo que o consagrado grupo Quarteto Novo entrasse em cena com seus arranjos elaborados e Nara Leão lançasse seu primeiro disco – obra em que gravou coisas regionalistas.

Ainda que poucos reconheçam isto, Sérgio está para o Novo Regionalismo assim como João Gilberto está para a Bossa Nova e Luis Gonzaga para o Baião. Apesar de não ter sido pragmático como o Tropicalismo, é o Novo Regionalismo um movimento tão injustiçado pela crítica quanto o é o Clube da Esquina e o esquecido MAU que lançou Gonzaguinha, Ivan Lins, Aldir Blanc, Ruy Maurity e César Costa Filho.

É simples constatar que o estilo predominante atualmente nos festivais regionais de todo o Brasil é o Novo Regionalismo, não digo os últimos festivais das TVs, que foram verdadeiros fiascos, mas festivais como p. ex., o moderno Viola de Todos os Cantos, e outros do interior paulista, como os que acontecem em Avaré, Tatuí, São José do Rio Pardo, etc., que nos revelaram talentos como Fernanda Guimarães, Chico César, Zeca Baleiro, Renato Motha entre outros.

O VIOLONISTA SÉRGIO RICARDO: FAZENDO ESCOLA

Sérgio é um cantor tão excelente quanto o é violonista e pianista – um músico de competência musical incontestável. O escritor Carlos Heitor Cony citou: “No violão, não fica atrás de Baden Powell”, e ele, em termos, não estava longe da verdade; basta, p. ex., analisar a técnica de fingerpicking country em “Calabouço”. Esta, o “hino da resistência” que era cantada pelos jovens no “Circuito Universitário” (cria de Sérgio também, isso em plena época do AI-5 e da feroz Ditadura.) Analisemos o jogo de bordões e a harmonia ora agressiva ora sutil do esplêndido violão de “Ponto de Partida”. O que dizer do violão com balanço pianístico de “Emília”, do disco do “Sítio do Pica-pau Amarelo” – técnica para Joyce, Badi Assad e João Bosco nenhum botar defeito? E os violões vigorosos – com um certo acento ‘rock’–, usando intervalos de 4ª e 5ª, nas músicas dos filmes de Gláuber Rocha (Deus e o Diabo na Terra do Sol. p. ex.)? Vide “Antônio das Mortes”, “O Sertão vai virar Mar” e “Perseguição (Corisco)” – uma inovação em trilhas sonoras. Vemos ecos deste estilo violonístico em, p. ex., “Geléia Geral”, do Gilberto Gil, (Tropicália); o violão de Marcelo Melo do Quinteto Violado em “Sarabanda” e “Vem, vem” de Geraldo Vandré (Das Terras de Benvirá), “Acauã” (1º LP do Quinteto), “Mundão de Deus” (do 4º LP do Quinteto). Vide as excelentes versões do Quinteto para “Briga de Faca” e “Corisco” (Antologia do Baião). Também em músicas do Geraldo Azevedo: “Caravana” (Saramandaia); e o estilo dos arranjos nos primeiros discos de Alceu Valença.

Segundo o web designer Pastor Didi, da Equipe FX, o violão da música “Adriana”, gravada em 1973 pelo Sérgio, é um “samba cuja batida feita ao violão vai aparecer em 1974 na canção ‘Incompatibilidade de Gênios’ de João Bosco. E é essa 'pegada' que vai consagrar o estilo violonístico de João Bosco. Provavelmente do encontro dos dois violonistas em 1972, durante a gravação de 'Agnus Sei', apareceu esse jeito de tocar samba no violão, que vai marcar a MPB nos anos 70 e 80. Infelizmente só ouviremos novamente essa batida na mão do seu criador em 1979, quando Sérgio Ricardo grava a canção‘Lá Vem Pedra’”. Sérgio também é um grande arranjador e chegou a fazer trabalhos incríveis, nada convencionais, como podemos ouvir, p. ex., na trilha sonora de “A Noite do Espantalho” (foto).

SÉRGIO AO PIANO

Quanto ao piano de Sérgio não estou gabaritado para comentá-lo, mas vale lembrar que em plena década de 1950, assim como o genial maestro Moacir Santos e Luiz Carlos Vinhas, Sérgio já fazia hard bossa – termo que o crítico francês Robert Celerier do jornal Correio da Manhã cunhou, fazendo uma alusão ao hard bop de Nova York –, e que designava a música instrumental “adulta” que se fazia no célebre “Beco das Garrafas” – berço da bossa nova.

Sérgio em 1962 no EUA tocou por um certo tempo com o grupo de jazz do conceituado jazzista Herbie Mann, fato que vem dispensar maiores comentários quanto aos seus dotes como pianista. A música "Zelão" foi transformada em samba-jazz pelo grupo Bossa Três de Luiz Carlos Vinhas, gravada no LP homônimo pelo selo Audio Fidelity, e foi sucesso nos meios jazzísticos dos EUA em 1962, isto, antes mesmo que “The Composer of Desafinado”, com Jobim, e “Getz/Gilberto”, com Stan Getz e João Gilberto fossem gravados e explodissem no exterior.

O “VOZEIRÃO”...

Como cantor, Sérgio não vem da escola whispering de João Gilberto, nem da de seresteiros Orlando Silva, Francisco Alves ou Nelson Gonçalves, mas sim da linhagem de barítonos como Dorival Caymmi – seu ídolo maior –, Dick Farney, Lúcio Alves, Mário Reis e seu contemporâneo Dori Caymmi, ao qual mais se assemelha, inclusive na proposta musical.

O microfone dinâmico, lançado por volta de 1955, talvez não fizesse falta à sua possante voz de peito – uma voz de timbre grave, porém num estilo isento de qualquer impostação vocal afetada de ópera européia ou de “verborragia melodolorosa do abolerado ninguém-me-ama/ninguém me quer” de que falava o maestro Júlio Medaglia.

Sérgio, na minha opinião, possui a voz grave mais doce e o vibrato mais puro, natural e perfeito de toda a MPB. Ele próprio disse que poderia ter sido “um Frank Sinatra de segunda”, caso tivesse seguido carreira nos EUA – colocação que muitos brasileiros concordam. Sabe-se que jazzistas norte americanos se simpatizaram tanto com a sua música que o convidaram para gravar por lá, o que infelizmente não aconteceu.

Queimando o incenso que ele merece, atrevo-me a colocá-lo no mesmo panteão que o próprio Sinatra, Tony Bennett, Dean Martin, Sammy Davis e Bing Crosby – bem, se Ruy Castro, não contaminado pelo velho complexo de inferioridade e fracassomania da crítica brasileira, já se atreveu a proclamar que Orlando Silva de 1935 a 1942 foi o maior cantor popular do mundo – melhor até mesmo que Bing Crosby –, por que não fazer este jus ao nosso grande Sérgio?

“VOCÊS (SÉRGIO E GLÁUBER) VÃO SER OS ÚNICOS BRASILEIROS OUVIDOS DAQUI A CEM ANOS”...

Disse o mestre, numa entrevista tempos atrás, que seu dualismo o ferrou, mas dualismo é uma palavra muito singular para designar o pau-para-toda-obra que ele é. Sérgio é um criador por excelência, um “sábio discreto” – como diria Drummond se referindo ao falecido ornitólogo Helmut Sick –, sempre trabalhando e produzindo em surdina –, avesso às correntes musicais vigentes.

Totalmente ciente de suas coordenadas culturais, em momento algum cedeu Sérgio um milímetro em suas desígnios estéticos. Sua fidelidade à sua arte, sua postura íntegra em relação à própria obra – jamais oportunista, como queria a crítica derrotista –, fizeram dele talvez o mais maldito entre os malditos, o mais marginal entre os marginais dentre os artistas brasileiros que arcaram com o ônus de tais rótulos, o que o relegou à um relativo limbo artístico em relação à outros artistas contemporâneos seus. Felizmente, o fato jamais o impediu de continuar edificando o seu legado cultural – que é vasto. Em suma, Sérgio em momento algum vendeu-se ao sistema e submeteu sua arte ao make up do comercialismo – no que se tornou o avesso do maior oportunista da MPB – me refiro a Caetano Veloso...

Veja esta curiosidade dita pelo cartunista Ziraldo na revista Bundas (set. 1999), à respeito do filme “Deus e o Diabo na Terra do Sol”:

“Vocês (Sérgio e Gláuber) vão ser os únicos brasileiros ouvidos daqui a cem anos. Uns seis anos depois do filme, um americano maluco enterrou as grandes obras de arte do século XX pra resistirem à guerra atômica, e a única coisa que entrou da América do Sul foi “Deus e o Diabo na Terra do Sol”.

É um truísmo: Sérgio Ricardo é vanguarda sempre e, pelo jeito, como um contemporâneo do futuro, não pensa em parar tão cedo de entoar o seu tradicional bordão: “Vou renovar!”.

O CINEASTA

Tão “independente” quanto Antonio Adolfo e Ozualdo Candeias, tão maldito quanto Jorge Mautner ou Zé do Caixão, Sérgio desfilou com sua obra à margem das gravadoras e distribuidoras de filmes. Infelizmente não teve a mesma sina de Quentin Tarantino – um cineasta independente que conseguiu a popularidade. Ganhou, porém, inúmeros prêmios com seus filmes mas, ainda assim, todos foram poucos divulgados e vistos.

Desnecessário dizer que algumas de suas obras devem ser obrigatoriamente citadas em qualquer obra sobre cinema nacional que se preze. “A Noite do Espantalho” – por sua vasta coleção de prêmios no exterior –, está, junto com “Deus e o Diabo na Terra do Sol”, entre as obras senão cosmopolitas, entre as mais respeitadas e conhecidas no exterior.

Também não estou gabaritado para fazer uma análise da dramaturgia e do discurso cultural e ideológico de sua cinematografia, mas transcrevo aqui algo que talvez não fuja a verdade, citado pelo lendário produtor cinematográfico Antonio Polo Galante:

“Você não pode falar sobre cinema brasileiro indo para a frente sem pensar nesse pessoal que construiu a base”.

NOVAMENTE, O POLIVALENTE SÉRGIO...

Penso que não seria exagero colocar Sérgio – no tocante à pluralidade e ao legado cultural –, ao lado de gente da estirpe de Cornélio Pires, Monteiro Lobato e Mário de Andrade – esses homens polivalentes que “faziam de tudo”.

Sergio também, por sua obra impar com várias contribuições definitivas à arte cinematográfica e musical, cativou intelectuais de peso como Antonio Houaiss, Ferreira Gullar, Carlos Heitor Cony, Haroldo de Campos e Carlos Drummond de Andrade. Também foi endeusado por artistas de quilate como Tom Jobim, Gonzaguinha, Chico Buarque, Alceu Valença, Quinteto Violado, entre outros não menores.

Sérgio, como bem colocou numa análise o já citado Pastor Didi, é um daqueles artistas que só se encontrava na época da Renascença. Vem a calhar tal colocação, já que “estamos atravessando o maior período de criação legal de riqueza desde a época da Renascença” como se constatou na conferência “Internet & Society 2000” – um encontro entre os papas da Internet mundial.

Enfim, temos que acordar para o truísmo berrante e garrafal de que artistas da linhagem de Sérgio Ricardo dificilmente surgirão novamente neste país ingrato e desmemoriado. Da parte que me cabe, esta é a minha pequena contribuição para um maior reconhecimento deste notável e incansável guerreiro – uma parte do universo artístico de Sérgio Ricardo – um sonho que venho acalentando à anos, motivado principalmente por minha séria preocupação em diminuir a distância entre ele e seus fãs (e os que o desconhecem). Temos todos nós, seus admiradores, de ajudar a quitar a dívida enorme que este país tem para com ele: a de entronizá-lo no panteão supremo da arte brasileira em que ele merece estar. Urge que se resgatemos desse limbo este grande artista, ao qual foi negado o reconhecimento crítico na proporção condizente com a altura de seu talento, colocando-o na ordem do dia – que Sérgio ainda está à espera de uma ruminação justa e profunda de sua obra pelos críticos. Então, fãs de Sérgio Ricardo, puxemos juntos a orelha dessa crítica de ensaístas e intelectuais que, como diria o poeta Mário Chamie, apenas "fazem a celebração seletiva de um nicho de escolhidos"!

Seria de vital importância também que sua obra fosse analisada a nível acadêmico, e que pesquisadores da área a analisassem pela perspectiva da Estética da Recepção, teoria literária revolucionária da década de 1960 que disseca obras de arte com valor estético. Um artista já submetido à ela foi justamente um dos principais ídolos de Sérgio, o grande Dorival Caymmi. Essa analise, dentre outras coisas, procurou compreender o “lugar” de Caymmi na música popular brasileira, e não há dúvida de que Sérgio, por sua obra partcularíssima, carece da mesma colocação.


Que estes que "não sabem o que estão perdendo", e que não ficaram incólumes à fatalidade de não poder ouvir e ver aquilo que Sérgio Ricardo esteve nos propondo estes anos todos, possam descobrir agora em sua homepage a obra deste "senhor talento" e, assim seguir as suas pegadas, de preferência tendo como divisa este verso infalível que define com precisão sua profissão de fé: "Tenho improviso no passo e caminho para todo lado".

A benção, Sérgio Ricardo, tu que não és um só, és tantos!

Wenilton Luís Daltro,
Araras, 2001

* Aramis Milarch (1943-1992) - "um dos mais importantes jornalistas e críticos de música e cinema" - escreveu em 13/10/1974, no jornal O Estado do Paraná:

"Há muito achamos que a obra de Sérgio Ricardo - musical e cinematográfica, está a merecer um longo ensaio, cujo ante-projeto já tentamos e publicamos (Revista "Quatro Estações", verão de 1971), mas para cuja elaboração haveria necessidade de uma pesquisa de maior profundidade e um indispensável longo/pessoal depoimento do próprio autor."

Enfim, espero que, de alguma forma, esta minha análise venha trazer alguma contribuição ao sonho acalentado por Milharch.

MAIS SOBRE SÉRGIO RICARDO:

SITE OFICIAL:
www.sergioricardo.com

MYSPACE:
http://profile.myspace.com/index.cfm?fuseaction=user.viewprofile&friendID=335739987

COMUNIDADE NO ORKUT:
http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=162005

Site CONTEE - A Volta de Sérgio Ricardo:
http://www.contee.org.br/noticias/artigos/art168.asp

Blog POUCO DE TUDO - Sérgio Ricardo e Beto Bom de Bola no festival da TV: http://dan-poucodetudo.blogspot.com/2007/08/sergio-ricardo-e-beto-bom-de-bola.html

Blog PROSÁPIA - Festival de 1967 - Sérgio Ricardo (Beto bom debola): http://prosapia.blogspot.com/2008/02/festival-de-1967-srgio-ricardo-beto-bom.html

Blog de PEDRO ALEXANDRE SANCHES - Sérgio Ricardo:
http://pedroalexandresanches.blogspot.com/

Blog TABLÓIDE DIGITAL (Aramis Millarch) -A música de Sérgio Ricardo, um operário - artista em construção:
http://www.millarch.org/artigo/musica-de-sergio-ricardo-um-operario-artista-em-construcao

Blog TABLÓIDE DIGITAL (Aramis Millarch) - Sérgio Ricardo, agora pintor, quer mostrar suas telas aqui:
http://www.millarch.org/artigo/sergio-ricardo-agora-pintor-quer-mostrar-suas-telas-aqui

Blog TABLÓIDE DIGITAL (Aramis Millarch) - Um senhor talento:
http://www.millarch.org/artigo/um-senhor-talento

Blog TABLÓIDE DIGITAL (Aramis Millarch) - Um cordel de Drummond com a música de Sérgio sobre o João e a Joana (1):
http://www.millarch.org/artigo/um-cordel-de-dummond-com-musica-de-sergio-sobre-o-joao-joana

Blog TABLÓIDE DIGITAL (Aramis Millarch) - Um cordel de Drummond com a música de Sérgio sobre o João e a Joana (2):
http://www.millarch.org/artigo/um-cordel-de-drummond-com-musica-de-sergio-sobre-o-joao-joana-0

Blog TABLÓIDE DIGITAL (Aramis Millarch) - O Som da Copa:
http://www.millarch.org/artigo/o-som-da-copa

Blog TABLÓIDE DIGITAL (Aramis Millarch) - Fábula de Sérgio sobre um elefante dorminhoco:
http://www.millarch.org/artigo/fabula-de-sergio-sobre-um-elefante-dorminhoco
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sexta-feira, 12 de setembro de 2008

GARIBALDI INVADE ARARAS!

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O leitor talvez estranhe esse enunciado, mas é a mais pura realidade: o Garibaldi está mesmo invadindo a cidade! E ele vêm em bandos numerosos, vem fazendo alarde, invadem as ruas e as praças, muito embora há os que não percebam essa invasão... Houve pelos menos um observador, que, à serviço das causas ambientais, munido de um binóculo, ao se deparar com o bando ao longe, constatou: “– Sim, olha lá: é mesmo o tal do Garibaldi!!”: este que isto vos escreve...

Não, leitor, eu não estou delirando nem afirmando que o legendário Giuseppe Garibaldi ressuscitou e está invadindo a cidade. Não, eu não me refiro ao herói da Guerra de Farrapos – o mesmo da minissérie da Globo, personagem tão homenageado em Araras nos tempos da extinta colônia italiana “Società Independente Progressista Umanitária”. Eu explico.

Neste mesmo blog, em matéria semelhante, eu alertarei sobre uma nova espécie de ave – a Lavadeira-mascarada (Fluvicola nengeta) –, que se instalou nos jardins da praça Barão pela primeira vez, o que se deu no ano de 2003. Chamava a atenção o fato, pois é ave exclusiva de ambientes aquáticos. Em fevereiro de 2008, em socozinho (Butorides striatus) foi visto na fonte d’água em frente à banca de jornais do Orpinelli.

Agora, há algo mais no ar além da chuva de carvão particulado das queimadas. Coisa de pouco mais de dois anos, numa verdadeira invasão, uma nova espécie de ave chegava à zona urbana – o Garibaldi (Agelaius ruficapillus), ave muito popular entre os que costumam fazer pescarias próximos à brejais e alagadiços, também conhecido como Do-re-mi. Tal como a Lavadeira, o Garibaldi também vive em wetlands (áreas alagadas), mais especificamente no meio de taboais. Surpreendentemente, na praça Barão, p. ex., eles não costumam ficar na vegetação da fonte nem nos dois lagos, mas sim no alto das árvores, onde chamam a atenção por cantarem constantemente, e com um canto bem atrativo, possuindo um chiado característico. Na verdade, os bandos estão sendo vistos em todas as praças da região central, e até mesmo nos arvoredos de ruas e residências, isto, sem o mesmo retraimento de quando estão nos brejais, pois ficam marinhando despreocupadamente pela ramaria das árvores, e sequer se assustam com o trânsito e as pessoas, o que é notável para uma ave que em seu habitat original é arredia. Eles surgem na região central da cidade em agosto ficando, ao que parece, até outubro.


Este é mais um dos chamados casos de sinantropia envolvendo pássaros, ou seja, o de espécies que conseguem freqüentar a zona urbana ou mesmo se adaptar sem grandes dificuldades a um ambiente diferente do seu. No entanto, ao contrário da Lavadeira, o Garibaldi não se instalou e nem procria na zona urbana, mas apenas a freqüenta diuturnamente quando lhe dá na veneta. Não podemos afirmar, por enquanto, que, como a Lavadeira, o Garibaldi tenha alguma estratégia para vir a sobreviver um dia neste novo ambiente, mas, por viver nos brejais, talvez não encontre um refúgio similar na zona urbana onde possa se fixar.


Curiosamente, existe ainda uma outra ave da mesma família que habita os brejais – o Chopim-do-brejo (Pseudoleistes guirahuro) –, que vem sendo visto freqüentando os canaviais. Quem vai ou vem de Rio Claro, poderá vê-los às vezes sobrevoando as plantações, ou pousados nas fiações elétricas que marginam a rodovia. Um dia, num final de tarde, tive a impressão que um bando deles adentraram um canavial para pernoitar. E eu pergunto, qual o motivo de o Chopim-do-brejo estar sendo visto nos canaviais? Mais adiante eu sugiro algumas pistas.


À primeira vista, o Garibaldi pode lembrar o popular Chopim (Molothrus bonariensis), ave de plumagem negra e da mesma família, mas o que o distingue é a cor ferrugínea do alto da cabeça, garganta e peito (foto). A fêmea é de cor pardo-olivácea, garganta amarelada e o corpo todo estriado. Quando em grandes brejais, forma bandos de centenas de indivíduos, tornando-se a espécie mais numerosa ali. São pássaros alegres e notáveis cantores, possuindo voz estridente e chamativa, é a que mais se destaca neste ambiente. Alguém poderia perguntar: “– Por que o nome Garibaldi? Veio do Giuseppe seu nome?” Os dicionários afirmam que Garibaldi é o nome de um casaco curto de mulher ou blusa vermelha que se veste exteriormente, o que nos remete às cores que adornam a parte frontal do Garibaldi


Um outro cidadão, mais romântico, poderia imaginar que, um belo dia de Primavera, algum exemplar extraviado passou pela praça Barão e achou-a atraente. Depois voltou aos taboais do lado Leste ou Oeste da cidade e avisou aos colegas da novidade, e, desde então, eles deixam os brejais e vêm visitar as praças e fazer um footing à sua maneira, cantando e passeando animados pelos arvoredos que sombreiam as alamedas. A Ornitologia afirma que ele é tem tendências nômades, aliás, Garibaldis tem sido vistos junto de bandos de Chopins. Na Central de Abastecimento se reúnem bandos que ali são alimentados pelos funcionários. Há também uma senhora na rua Dom Bosco, descendo o Oratório São Luís, que consegue atraí-los num comedouro em seu quintal, atitude que vem colaborar para a sua “fixação” na cidade. É provável que os Garibaldis tenham, de alguma forma, acompanhado os Chopins em suas incursões pela cidade, mas, a coisa pode não ser bem assim: se você leitor, está entre aqueles que não notou que o Garibaldi está mesmo invadindo Araras, é hora de não só afinar os ouvidos como também procurar se informar dos assuntos que dizem respeito à Ecologia, e saber que, é possível que, com o avanço galopante dos canaviais, aterros, dragagens de rios e a construção de represas e barragens, etc., o que implica na destruição dos pântanos, várzeas, banhados e brejais, isto talvez esteja obrigando, a contragosto, o Garibaldi e outras aves a invadirem a cidade.

As wetlands estão entre os ecossistemas mais férteis e produtivos do mundo. São habitats imprescindíveis para inúmeras espécies vegetais e animais, desempenhando importante papel na regularização dos ciclos hidrológicos, na filtragem da poluição, na reciclagem de nutrientes, etc. Enfim, sugiro à administração que é chegada a hora de deter o avanço humano sobre estes preciosos ecossistemas e criar-se medidas eficientes para conter sua destruição, como, p. ex., fazer um levantamento das wetlands e instituir incentivos fiscais aos particulares que as conservem. É o mínimo que se pode fazer para evitar desastres piores do que a aparentemente festiva invasão do Garibaldi a Araras. Ainda assim, nesta Primavera, não deixemos de dar nossas boas vindas ao animado Garibadi.

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BIBLIOGRAFIA

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quarta-feira, 10 de setembro de 2008

DE ALICE COOPER À RESTART ou A EQUIVOCADA IMAGEM DO BRASIL: TERRA DE ÍNDIOS, COBRAS E ONÇAS!... (E MULHERES BONITAS!...)

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Até poucas décadas atrás, era comum a maioria dos países distantes terem um conceito totalmente equivocado sobre o Brasil, achando-o um país selvagem onde só havia mato, índios, cobras e onças. Esse mal é oriundo dos tempos coloniais, com os exploradores e cronistas dizendo coisas mirabolantes sobre o Brasil em seus livros lançados em seus países de origem. Muitas das gravuras antigas que foram retratadas em seu livros possuem imagens exageradas sobre nosso país, desvirtuando os costumes da cultura indígena.

Num livro escrito sobre o Brasil pelo pastor, missionário e escritor francês Jean de Léry (Côte-d'Or, c. 1536 - Suíça, c. 1613), encontra-se, desde a primeira edição de 1578, uma gravura na qual se distinguem diversas representações do fantástico, tais como dragões, demônios atacando os seres humanos e, bem caracterizando o "Novo Mundo", um enorme bicho-preguiça. Até mesmo os peixes voadores assumem proporções irreais em relação aos demais elementos da cena (ver graura abaixo).



Um dos poucos e pioneiros a falar bem do país foi o ex-presidente norte-americano Theodore Roosevelt, que ao ver Manaus na época da borracha, comparou-a às melhores cidades de sua terra, o que se deu em 1913. No entanto, em 25 de março de 1931, tivemos uma outra recaída quando o Brasil recebeu a visita de do Príncipe de Gales, o rei George e seu irmão Edward. Segundo a escritora Ivan Thaumaturgo, ambos vieram "fardados de branco, com capacetes, como se o Brasil fosse uma selva. Essa indumentária indignou nossa fibra patriótica. As pessoas comentavam que eles deveriam estar esperando desembarcar no meio de animais selvagens."

À esta altura, desnecessário dizer que o próprio Walt Disney criou o personagem Zé Carioca tendo uma visão "mexicana" do Brasil!... Cerca de 70 anos depois, os americanos continuavam se deliciando em mostrar o Brasil como um país selvagem. Em 2002, um episódio do desenho animado Os Simpsons mostrou o personagem Homer e sua família em férias pelo Rio de Janeiro. Encontraram uma cidade em que macacos circulavam livremente no meio da população... Para mim, isso, antes que um tremendo sarro, mostra o quanto é grande a burrice dos gringos a nosso respeito: está certo, temos índios e macacos aqui, mas não somos a Índia onde realmente os macacos vivem nas cidades em meio das pessoas!...

Quando os repórteres suecos entrevistaram o jogador Pelé na copa da Suécia em 1958, perguntaram para o rei se havia cobras no Brasil e se a capital era Buenos Aires... O que eles não se tocaram é que os tais “animais” estavam debaixo do próprio nariz deles: a nossa seleção totalmente composta por cobras da bola...

Parece mal de escocês: quando o rockeiro Dan McCafferty, cantor da banda escocesa Nazareth veio receber disco de ouro no Brasil, em 1975, pela vendagem do compacto “Love Hurts”, numa coletiva para a imprensa, surpreso pelas vendagens do disco em nosso país, ele disse: “Eu achava que aqui no Brasil não existisse nem vitrola!” ...
 

Em 1974, quando o midiático Hans Donner veio ao Brasil, e aqui arranjou um emprego na Globo, na Áustria “Todos diziam: você é louco de trocar a Áustria por um lugar de bananas e macacos”, recorda-se.


Quando a banda norte-americana Alice Cooper (foto) veio para shows no país em 1974, aprontaram os diabos no Rio e em São Paulo. O motivo da excursão ao Brasil estava ligado a um fato curioso (uma nova alienação...): Peter Shanaberg, o empresário da banda, "havia lido numa reportagem da revista Circus que o Candomblé era muito forte e popular no Brasil, e apostou que a imagem macabra de Alice iria atrair multidões aos seus shows, já que o identificaram como um mestre de cerimônias da magia negra! Um macumbeiro de respeito! (...) E os brasileiros o chamam de 'Demônio com a cobra'"...

Quanto aos suecos, o que eles precisavam saber é que, além dos cobras da seleção, houve uma outra cobra que aqui no Brasil deu o maior ibope: exatamente a jibóia do Alice Cooper... Neste mesmo ano, saía uma matéria na revista POP, onde uma garota baiana de Salvador, Rosana de Almeida, 16 anos na época, mostrava-se indignada com o que a revista Circus escreveu sobre a passagem de Alice Cooper no Brasil. Aqui, inédita na Internet, a polêmica matéria:

O BRASIL, SEGUNDO OS SOBRINHOS DA TIA ALICE

“O que eu tenho pra dizer é importante e interessa a todo mundo. Estou voltando dos EUA (morei alguns meses em Rochester, Michigan) porque não agüento mais de saudade daqui. Bem, mas vamos ao lance. Lá existe uma revista chamada Circus, que publi­cou uma reportagem sobre a excursão de Alice Cooper ao Brasil. O título? Alice Assaults Brazil! (Alice Ataca o Brasil!) Pra começar, eles falam do Brasil de um jeito que, quem lê, pensa que o nosso pais não passa de uma selva, com índios, cobras e feras. Não estou dando uma de patriota, mas o caso é que dá raiva ver esses caras dando uma idéia, completamente errada do que a gente realmente é. Eles dizem que na ‘Terra do Amazonas’ a macumba é uma religião ainda mais importante que o catolicismo, e que a vinda de Alice foi para nós o maior acontecimento, desde que os portugueses descobriram o Brasil, há quatro séculos (vejam só). E dizem mais: ‘São apenas dez horas daqui ao Rio de Janeiro de avião, mas dez anos no tempo. Para o rock. o Rio ainda está na Idade da Pedra. Contando com apenas dois ou três grupos de rock, a juventude daquele pais depende total­mente dos Estados Unidos’. E continuam: ‘A industria de discos na América do Sul é tão pobre, que os discos brasileiros só podem ser ouvidos três vezes, pois ficam tão es­tragados que têm de ser joga­dos fora’. E falam que a visita de Alice Cooper foi uma loucura, um escândalo, que até parecia que ele era um ser de outro planeta. Está certo, acredito que deve ter sido realmente uma loucura ver Alice, mas duvido que tenha sido esse escândalo que eles falaram. E mesmo que fosse, eles esquecem que lá fora é a mesma coisa, ou até pior: em abril, na Inglaterra, a loucura foi tanta num show de David Cassidy, que uma garota de 14 anos morreu de ataque cardíaco, e mil outras saíram feridas, pois queriam agarrar o homem de qualquer jeito... Os brasileiros é que são monstros, eles não... Enfim, essa é a idéia que eles têm aqui: uma terra de selvagens.”

E a POP acrescentava:

“O que a Circus não disse, Rosana, é que o ‘cavalheiro’ Alice Cooper e seu grupo de ‘civilizados ‘fizeram misérias e causaram mil estragos nos hotéis por onde passaram, em São Paulo e no Rio.”

Tem outra coisa que os suecos e norte-americanos não sabem: na década de 1950, muito antes da Tia Alice (como Alice Cooper era carinhosamente chamado no Brasil) vir desfilar aqui com sua jibóia, a gostosona da dançarina capixaba Luz del Fuego (Dora Vivacaqua) já barbarizava num palco dançando com uma jibóia... E tem mais, a belíssima Luz Del Fuego criou no Brasil o primeiro clube de nudismo de que se tem notícia, na ilha do Sol em Paquetá!... Esta, enfim, era a verdadeira entidade selvagem urbana que a Circus desconhecia...


E  já que falamos de rock aqui, convém lembrar do grande sucesso de Rita Lee, a música Luz Del Fuego, dedicada à polêmica dançarina:

“Eu hoje represento a loucura
Mais o que você quiser
Tudo que você vê sair da boca
De uma grande mulher
Porém louca!”

Na verdade, no retorno da banda aos EUA, não houve sérias intenções de banda escrachar o Brasil, aliás, os show do Palácio das Convenções foi considerado o maior show já realizado por eles, que atingiu seu recorde de público, cerca de 80 mil pessoas, e também um recorde mundial em apresentações em recinto fechado, inclusive com direito à inclusão no livro Guinnes Book. E mais, neste retorno, o próprio Alice Cooper se encarregou de propagandear o Brasil como um excelente lugar para shows elém de possuir um público muito louco. e maluco por rock.

E já que falamos de mulheres bonitas brasileiras - como a sensual Luz Del Fuego, - convém recordar que numa entrevista a revista Poeira Zine de julho/agosto de 2004, o baterista Neal Smith (foto) da banda do Alice Cooper revelou:

 "Vocês brasileiros têm as mais belas garotas do mundo!"


Assim sendo, por esta massagem em nosso ego - nosso verdadeiro e principal "orgulho nacional"! -, a banda está devidamente perdoada pela zoação feita em cima de nós na revista Circus.

Recentemente (março 2011), o ator Jude Law, em visita ao Brasil, no primeiro dia de desfiles das escolas de samba no carnaval do Rio, ficou rodeado de mulheres e disse estar impressionado com a beleza das brasileiras. Em entrevista ao jornal "Estadão", ele desabafou:  

"O que tem na água deste país? São as mulheres mais lindas do mundo".

Anos antes, em agosto 1987, o tecladista Brian Eno, ex-Roxy Music, em entrevista à revista Bizz havia dito o mesmo:

"O Brasil significa para mim as mais belas mulheres do mundo."

O escritor norte-americano James Ellroy, 63, participante da FLIP 2011 em Paraty, revelou uma nova visão sobre o Brasil nos EUA: 

"Norte-americanos não têm a menor ideia sobre o Brasil. Para muitos, o Brasil é sinônimo de esquadrões da morte, salsa e mulheres nuas fazendo sexo promíscuo. Nada contra mulheres nuas ou sexo promíscuo, mas não foi o que vi."

Curiosamente, a última frase dita pelo Alice Cooper à um jornalista da Folha De São Paulo, em 9 de abril de 1974, após a série de shows que fez no Brasil foi sobre "nossas riquezas" - já à caminho do avião que o levaria de volta aos EUA, ele declarou: "Adorei as mulheres brasileiras."

O cantor norte-americano de soul Billy Paul, que também esteve em turnê pelo país poucos dias antes, após folhear algunmas revistas com fotos do carnaval do Rio presenteadas por seu empresário, disse à um repórter do mesmo jornal, em 26 de março: "É no charme destas meninas que pode nascer o meu divórcio."

Um outro personagem, fazendo coro ao Alice Cooper et caterva, desta vez um músico brasileiro, recentemente disse uma besteira não menor sobre o suposto primitivismo do Brasil - mais especificamente a Amazônia -, e isto como se estivesse em meados do século 20... A autor foi o jovem Thomas, nada mais nada menos que o baterista da banda Restart, que numa infeliz entrevista disse sobre como seria tocar no Amazonas:

  "Imagine você tocar no meio do mato! Nem sei como é o público de lá, não sei se tem gente, civilização."

Com a típica alienação dos estudantes adolescentes modernos que não gostam de estudar, o baterista ignora que a capital amazonense Manaus tem mais de 1,8 milhão de habitantes, além de ser sede de várias indústrias e da famosa Zona Franca!... 


Para finalizar, vamos mostrar que o brasileiro também tem jogo de cintura para se safar das pessoas com essas idéias alienadas. Numa de suas entrevistas em seu famoso programa na Rede Globo, o apresentador Jô Soares contou ao grupo teatral As Olívias, que, em sua juventude, usou um curioso modo para terminar um namoro com uma moça alemã que conhecera na Europa. Como estivesse no Brasil, resolveu por fim ao caso através de uma carta, o que o fez 9 meses depois... Humorado que é, disse como desculpa que tinha se perdido na selva amazônica... A moça, além da carta toda picada, devolveu-lhe um bilhetinho lacônico onde se lia: “Mentira!”... As atrizes entrevistadas concordaram que fora do Brasil tem gente que ainda acha que nosso país é ainda um país selvático, no que o apresentador completou: “Eu inventava que em volta do estádio Maracanã tinha um fosso cheio de jacarés!”...

FONTE:
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